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Nenê, o samba em Sampa
Fundador e nome de uma escola de samba campeoníssima, Seu Nenê de
Vila Matilde vai ganhar documentário e biografia
JORGE HENRIQUE CORDEIRO
Foto de Divulgação
SÃO PAULO - Quando se fala de samba ou carnaval de São Paulo,
logo vem à cabeça uma célebre frase de Vinícius de Moraes: "São
Paulo é o túmulo do samba". Nada mais injusto, como reconheceu o
próprio Vinícius no carnaval de 1976, ao ver passar pela Avenida
São João, Centro de São Paulo, a bateria da Escola Nenê de Vila
Matilde. "Que bateria é essa? Retiro o que disse sobre o túmulo"
teria dito Vinícius, segundo Seu Nenê, fundador da escola e uma
das figuras mais queridas e respeitadas do samba da Terra da
Garoa.
O reconhecimento tardio não teve eco Brasil afora, mas com os
lançamentos de um documentário e um livro sobre a vida de Seu
Nenê, previstos para o próximo mês - ambos produções do CPC-Umes
-, as coisas podem começar a mudar. "Se eu não fizesse isso tudo,
que história o samba e o carnaval de São Paulo teriam? Quero
deixar isso para as próximas gerações" - diz Seu Nenê, um jovem
senhor de 78 anos e muitos projetos. "São Paulo tem que ter um
Museu do Samba. Vamos trabalhar por isso. O bonito de qualquer
história é saber de onde vieram as coisas."
E história é o que não falta à vida de Seu Nenê. Ansioso por ver
filme e livro na praça o quanto antes, há tempos vem buscando na
memória fatos ocorridos há meio século para enriquecer os
trabalhos do cineasta Carlos Cortez, responsável pelo
documentário, e da jornalista Ana Braia, que compilou as
histórias do sambista em 19 fitas cassetes ao longo de quase um
ano: das batucadas noite adentro no Largo do Peixe, na Vila
Matilde, Zona Leste de São Paulo (onde até hoje mora) às rodas de
tiririca, tipo de capoeira jogada ao ritmo de samba, além dos
salões de gafieira, nos quais deixou-se hipnotizar pelo pandeiro
do Regional do Jaú, e os primeiros carnavais de rua, no início do
século.
"Ele não pára de me ligar para contar novos fatos e detalhes de
outros já contados. Ele tem uma memória incrível e quer fazer o
livro porque sabe que tem muita história pra contar", diz Ana
Braia, uma fã confessa do sambista. "É uma das figuras mais
simpáticas e alegres que já conheci. Sua determinação na vida
impressiona. É negro, ex-operário, neto de escravos, jogava
capoeira no meio da rua e inovou o carnaval de São Paulo." Carlos
Cortez concorda. "Ele é o último de sua geração. Foi quem tirou o
samba de dentro dos salões em São Paulo e levou para a Avenida."
As inovações que Seu Nenê trouxe para o carnaval paulista foram
inúmeras. Sua escola de samba foi a primeira a ter enredo, alas e
uma mulata de biquíni desfilando na Avenida. "Foi em 1976, na
Avenida São João. Era a Janice, passista da Unidos de São Carlos,
do Rio. Ela desfilou de biquíni e São Paulo não era acostumado a
isso. Ela com aquele corpão, muito louca e ainda por cima
dançando no pé... Foi bonito de ver. E o pessoal só toureando
ela...", conta Seu Nenê, em certa altura de sua biografia.
O pai de Seu Nenê, o carioca Albertino Alves da Silva - nascido
em Santa Teresa e criado em Padre Miguel -, foi quem o iniciou no
samba. Ao ver que seu filho sempre batucava na tampa da lata de
goiabada como um exímio pandeirista, não pensou duas vezes ao ver
um pandeiro esquecido em um dos vagões do trem em que trabalhava
- ele foi maquinista, fundista e graxeiro da Central do
Brasil.Deu-o de presente ao filho, que mais tarde ficou conhecido
como Nenê do Pandeiro. Desde cedo, Seu Nenê ouvia o pai falar
maravilhas do ritmo dos morros cariocas, principalmente da
Estação Primeira de Mangueira. "Ele me dizia: ?Neném ("carioca
fala neném, não nenê, que é coisa de paulista), você precisa
conhecer a Mangueira, a cuíca que eles tocam lá."
Mas o primeiro contato de Seu Nenê com o samba carioca foi com a
Portela. Em 1940, ficou sabendo que Paulo Benjamim de Oliveira, o
Paulo da Portela, estaria em São Paulo, no Teatro de Santana. Na
fila para entrar no show, viu um homem baixo, bem vestido de azul
e branco, perguntando se alguém sabia de um lugar para comprar
cigarros. "Era no tempo em que muitos bares de São Paulo fechavam
ao meio-dia. Eu fiquei olhando e não tive dúvida. Aquele era o
Paulo da Portela."
Maravilhado com o ritmo do samba carioca, mais urbano e suingado
em comparação com a quase marcha da tradição rural paulista, Seu
Nenê passou a ter uma idéia fixa: ir ao Rio para conhecer in loco
a fonte daquilo tudo. Mas isso só aconteceu 16 anos depois, em
1956, quando visitou não a Portela, mas a Mangueira, como o seu
pai tanto queria. "Quando subi o morro, perguntaram quem eu era e
disse que era jogador de futebol, do Juventus, porque se falasse
Corinthians ou São Paulo eles poderiam descobrir que não era
verdade. Tinha que chegar devagar, porque sambista de São Paulo
não era nada pra eles."
A visita ao morro de Mangueira aconteceu seis meses depois do
primeiro título da escola de samba Nenê da Vila Matilde em São
Paulo, fundada por Seu Nenê e alguns amigos em 49. A marca
registrada da recém-criada escola eram as cores azul e branca da
Portela e a cadência diferente da bateria, estudada
minuciosamente por ele nas rodas de samba do Rio. "O pessoal das
outras escolas ficava louco com aquele ritmo. ?Lá vem o
macumbeiro!?, diziam alguns. Pra eles, era batuque de macumba. O
problema é que eles marchavam e não sambavam, não tinham muito
ritmo."
Depois de mais três campeonatos no carnaval paulista (58, 59,
60), Seu Nenê voltou ao Rio em 62, desta vez para conhecer a
Portela e lá conheceu Natal, que o hospedou em casa e o levou
para ver um jogo no Maracanã - Seu Nenê é vascaíno, como o pai.
"Ele era um homem muito bom. Meio maluco, mas ótima pessoa." Foi
Natal quem autorizou Seu Nenê a usar a águia também como símbolo,
oficializado em 70, quando a escola paulistana conquistou seu
nono título com o enredo Paulicéia Desvairada. "O Natal ficou de
batizar a nossa águia, mas não pôde vir. Mas ele mandou um
pessoal pra São Paulo e fizemos uma grande festa. Foi a primeira
roda de samba televisionada, pela TV Record."
Mas o grande congraçamento da Nenê de Vila Matilde com o samba do
Rio foi em 85, quando novamente campeã - seu último título até
agora, o décimo - foi convidada a desfilar no Rio de Janeiro. O
enredo Quando o cacique rodou a baiana, sobre as aventuras do
cacique Juruna no Congresso Nacional, fez bonito no
recém-inaugurado Sambódromo. "Nós paramos a Rodovia Dutra como o
Corinthians fez em 76, quando foi jogar com o Fluminense no
Maracanã", lembra Seu Nenê.
Aos 78 anos, Seu Nenê não mais comanda a escola que leva o seu
nome, agora sob a batuta do filho Betinho. Nem por isso deixa de
acompanhar o dia-a-dia da escola, da confecção das fantasias à
escolha do novo enredo - no ano que vem, será Getúlio Vargas.
Tudo para manter o diferencial em relação às demais escolas de
São Paulo. "O negócio deles (das outras escolas) é fazer alegoria
e festa, não é muito de cultura e samba não. É uma pena",
critica.
A vitalidade com que combate a comercialização excessiva do samba
em São Paulo é a mesma que dedica aos amores - quatro, com idades
entre 26 e 39 anos. "Tô enrolado com umas meninas aí", diz sem
entrar em detalhes sobre namoradas. "Mas não sou perigoso não",
brinca, afirmando, porém, que não quer mais saber de casamento,
depois da morte de Maria Tereza, sua companheira por 30 anos.
"Vida de casado é boa, mas de solteiro é melhor; solteiro vai
aonde quer, casado tem que levar a mulher", cantarola.
A cara do povo
MOACYR ANDRADE
Lenda viva em São Paulo, Seu Nenê tem, na biografia, página que
descreve também a conquista do Rio de Janeiro - ainda que seja
por uma noite ou madrugada, apenas. Foi no Carnaval de 1985,
quando sua escola, campeã na Paulicéia, participou, como
convidada, do Desfile das Campeãs do Rio, sábado seguinte.
Sambódromo recém-inaugurado, os cariocas faziam uma festa de
opulência desenfreada, o desfile principal chegava ao topo do
deslumbramento e do luxo. A orgia de recursos punha na Avenida o
efeito esfusiante dos raios, monstros submarinos e naves
interplanetárias, num inimaginável e bilionário coquetel visual.
Coube à escola de Seu Nenê a aparente - certíssima, por
antecipação - desdita de desfilar entre as duas grandes
vencedoras da parada inigualável do Rio, a vice e a campeã,
Beija-Flor e Mocidade Independente de Padre Miguel. Seria uma
humilhação anunciada: São Paulo nunca havia parecido tão pobre.
Mas Seu Nenê, além de samba, trouxera dois trunfos nas mangas das
fantasias: imaginação e malandragem. Usou-os de saída para
convidar Jamelão, a voz da Estação Primeira de Mangueira, a guiar
os 2.800 sambistas da Nenê de Vila Matilde no aquecimento da
concentração, feito com Cidade Maravilhosa, a marchinha de André
Filho que virou hino oficial do Rio de Janeiro. Começava a
cativar o público por aquele mais popular, da pré-pista, e
devolvia Jamelão à festa: naquele ano, o maior cantor de todos os
tempos da Avenida não pudera puxar o samba da Mangueira, pois,
cumprindo um compromisso nos Estados Unidos, não chegara a tempo
de participar do desfile de sua escola.
Seu Nenê foi além no aliciamento da platéia carioca: pôs águias,
símbolo da Portela, no abre-alas; muito vestiu-se de azul e
branco, as cores da Beija-Flor; e estendeu faixa de saudação a
Padre Miguel: "Mocidade já foi nenê". Mais: à frente de sua
Comissão de Frente, escalou outra, com nomes de escol do samba
carioca, entre outros, Zica, a viúva de Cartola; os compositores
Monarco e Noca da Portela; os cantores Roberto Ribeiro, então
brilhante puxador de samba-enredo no Império Serrano, Beth
Carvalho, Alcione e João Nogueira.
O Sambódromo estava ganho. Muito mais quando percebeu que o samba
de Seu Nenê era bom, a bateria da escola era excelente e os
componentes cantavam - "vai Nenê, embalando a alegria" - para
valer. Precisamente aí, nos componentes, a escola de Vila Matilde
se distinguia das suas duas grandes anfitriãs, repletas, estas,
de estrelas da TV, modelos, socialites, emergentes, craques de
futebol. A escola de Seu Nenê, sem nenhum astro, mostrou uma
inconfundível cara de povo. Foi isso, principalmente, que a
Marquês de Sapucaí aplaudiu.
E tem ainda o Tárik a respeito dos discos de violão.
Violões são destaque na leva de lançamentos da música
instrumental
Mestre e aluno (com foto de 35 anos atrás da dupla no encarte)
Paulinho Nogueira e Toquinho unem violões num CD da Movieplay que
leva o nome do duo. Há dez anos sem lançar discos, o também
violonista André Geraissati ressurge trafegando entre o reflexivo
e o lúdico em Next (Tom Brasil). De uma família musical, Jaime
Ernst Dias, um dos fundadores da Orquestra de Cordas Brasileiras
caracteriza Instrumental (Independente) pela diversidade rítmica
acumulada em 21 anos de composições centradas no violão. Virtuose
do mesmo instrumento, Nonato Luiz esquadrinha um gênero em O
choro da madeira (CPC/UMES), entre clássicos e composições
próprias. Já Jorge Cardoso, que participou da recente série do
CCBB Bandolins em Jacob, radicado em Brasília, faz o lançamento
nacional de seu Som de bandolim (Sarau), com a participação de
ases como Paulo Sérgio Santos, Maurício Carrilho e Luciana
Rabello. Movido a piano/baixo/bateria, o Zimbo Trio comemora 35
anos de carreira num ao vivo do selo Movieplay. A inacreditável
longevidade com a mesma formação - digna dos livros de recordes -
refere-se às bases sólidas do grupo plantadas na bossa nova, uma
era em que a música instrumental era a autopista e não o
acostamento da MPB.
Utilizando unicamente os recursos do piano acústico caudaloso
(mas sem perder o suingue) de Amilton Godoy, do baixo estrutural
de Luiz Chaves e da bateria (da carga ligeira ao tropel) de
Rubinho, o Zimbo em Ao vivo - 35 anos revisita de inevitáveis
Aquarela do Brasil e Garota de Ipanema (do arranjo em catadupas
com novas digressões) a outras ametistas jobinianas (Água de
beber, A felicidade, O morro não tem vez), além de um Pixinguinha
de época (Lamentos). Mas o grande tributado do disco é Milton
Nascimento com sete músicas (Ponta de areia, Teia de renda, Fé
cega, faca amolada, Nada será como antes, O que foi feito de
Vera, Certas canções, Maria Maria) costuradas numa faixa de mais
de 14 minutos com longas explorações harmônico/melódicas. Também
exploratório, mas numa linha quase new age Next do violonista
Geraissati, curiosamente traz uma faixa chamada Zimbo, embora
nada tenha a ver com o grupo. Com releituras de composições
anteriores (Vento, Entre duas palavras) e do clássico de Villa
Lobos Trenzinho do caipira, ele consolida um impressionismo
etéreo de planícies e climas intrincados (Tuiú).
Baião, choro, valsa, jazz e música de concerto compõe o pano de
fundo do violão de Jaime Ernst Dias que não dispensa a harpa e o
violino em faixas como Por enquanto e Lilé. A despeito da
ingenuidade de alguns temas, Instrumental (com as flautas da mãe,
Odette e a irmã Andréa Ernst Dias) deixa a marca indelével do
autor em Fogo cerrado (sax alto do ás Carlos Malta) e Baião da
Deda. Também imprimindo sua marca de compositor em variações
sobre o gênero (Choro baião, Samba choro, Choro acadêmico),
Nonato Luiz costura clássicos e contemporâneos na sua caligrafia
de concertista solo. Do Som de carrilhões de João Pernambuco ao
Rosa de Pixinguinha e o Gracioso de Garoto até o Choro negro, de
Paulinho da Viola (e Fernando Costa) e um realocado Sampa
(Caetano Veloso), numa levada castiça de regional.
Som de bandolim, do revelado Jorge Cardoso também expõe o traço
autoral do líder em Gingando no choro, Modulado, Perna de
alicate, sempre dentro dos cânones. Cardoso exibe ainda seu
domínio no instrumento do erudito Paganini (Moto perpétuo) a
Severino Araújo (Espinha de bacalhau) e Luperce Miranda (Quando
me lembro). Embora tenha seguido uma carreira de compositor (foi
o último e mais operoso parceiro de Vinicius de Moraes) e (até
de) cantor, Toquinho nunca perdeu o cacoete de instrumentista de
estirpe. Seu reencontro com o professor Paulinho Nogueira
(conservadíssimo aos 70 anos) rola em altas harmonias no duplo
sentido. Criador de um estilo de solo e acompanhamento
simultâneos, Nogueira conduz o cortejo entre eruditos (Aria na
4a. corda de Bach, Choro típico, de Villa Lobos), bossa novistas
(Manhã de carnaval, de Luis Bonfá, Triste de Tom Jobim) e chorões
(Rosa de Pixinguinha, Odeon de Ernesto Nazareth). A dupla ainda
investiga afinidades harmônicas de outros clássicos (Insensatez &
Apelo) e Toquinho celebra o mestre na única faixa cantada, Choro
chorado para Paulinho Nogueira, pleonasmo dispensável diante da
eloquência instrumental do encontro. (T.S.)