Disco da VGM e Bezerra no JB

Paulo Eduardo Neves (neves@EMAIL.COM)
Tue, 2 Nov 1999 03:04:46 -0200

Clique aqui para responder esta mensagem

Os bambas dão lição de samba
Tárik de Souza

Velha Guarda da Mangueira,
Bezerra da Silva e Puxadores
do Samba zelam pela nobreza
do gênero em novos trabalhos

Uma das chaves da sobrevivência do samba é que seus praticantes nunca se
vergaram ao papel
subalterno destinado a eles pela hierarquia econômico/social. A própria
formação das escolas de
samba já demonstrava que em matéria de cultura a elite dos PhDs tinha
muito a aprender com os
bambas iletrados. Uma dessas academias acaba de botar seu bloco na rua,
o CD Velha Guarda da
Mangueira e convidados (Nikita). Traz repertório de seleção rigorosa,
jogo de cintura para dialogar com
as co-irmãs, acolhendo de Noca da Portela à imperiana D. Ivone Lara e
ainda navegantes de outras
praias como o MPdoB pernambucano Lenine e a funk/dance Fernanda Abreu.
Antecessor do gangsta
rap com sua metralha de crítica social e a visão sarcástica do outro
lado da guerra civil, Bezerra da
Silva repassa seus sucessos num CD Ao vivo (CID) como manda a época.
Relegados ao efêmero brilho
carnavalesco, os sambistas têm uma chance de encarar o antes chamado
repertório de "meio-de-ano"
em Puxadores do samba (BMG). A partir da produção, assinada por Bira
Haway, um dos artífices do
pagode comercial, a idéia do disco, expressa logo na faixa de abertura,
Semente dos bambas é
conciliadora: "Por isso canto/ de Soweto a Noel".

Provavelmente o poeta da Vila, Noel Rosa, deu algumas voltas em seu
túmulo de bamba, ao ser
equiparado ao pagode padronizado do Soweto. Mas a reunião de
Dominguinhos (ex-Estácio, atual
Viradouro), Preto Jóia (ex-Imperatriz, atual Tucuruvi, SP), Jackson
Martins (Caprichosos), Serginho
do Porto (União da Ilha) e Wantuir (Tradição) não comete só heresias.
Agregando repertório dos
próprios cantores (Jamelão, o maior de todos, abomina a expressão
"puxador"), o disco evita o excesso de
teclados. A despeito do predomínio dos clichês românticos (Um minuto sem
você, Sonho de mulher,
Estrela, Volta amor) e de uma ponte com o tchan (Dá nas cadeiras), o
quinteto desempenha (em solos)
alguns sambas de boa combustão (Pra sambar, Subindo a colina, Vem pro
meu samba, Candeeiro).

Ao vivo, capturado num mocó característico, a quadra do Grêmio
Recreativo Acadêmicos da Rocinha,
Bezerra da Silva escapa ao rígido padrão partideiro (coro/refrão/melodia
curta) de seus discos de
estúdio. Músico formado que atuou em orquestras de TV e começou no coco
pós-Jackson do Pandeiro, ele
esbanja maestria num samba de mais fôlego em Não tenho lar, Vingança
cruel e Vivo que nem papel,
todas assinadas pela mulher, Regina. Dialoga com o sopro de alta
octanagem de Zeca do Trombone em
Pega eu (o supra sumo da honestidade) e ainda incursiona nos afro sambas
(Pai veio, Arruda de Guiné)
numa linha (de umbanda) mais para J.B. de Carvalho que Baden & Vinicius.
Mas o forte do disco,
obviamente, é a questão das drogas tratada com humor (Malandragem dá um
tempo, Overdose de
cocada, Se Leonardo dá vinte) e a fuzilaria social ironizada (Se liga,
doutor, Candidato Caô caô) como
na sintomática Foi o Dr. delegado que disse: "está piorando/ até filho
de bacana/ hoje em dia está
roubando".

De um tempo em que a fratura social não era tão belicosa, a antologia de
sambas da Velha Guarda da
Mangueira destila mais lirismo que amargura como no primeiro samba
enredo da escola, Chega de
demanda, de 1929, de Cartola (com versos posteriores de Paulinho
Tapajós), anunciado por sua mulher,
D. Zica. Samba exaltação de 1948, outro clássico, Vale do São Francisco
é dividido pelo autor, Nelson
Sargento e Lenine. Mangueirense de estirpe (embora nascido em Juiz de
Fora), as síncopas de Geraldo
Pereira em Incompatibilizado gingam nas vozes de Mocinho, Sargento,
Baticum e Fernanda Abreu.
Beth Carvalho desfia a revanche amorosa Se foi bom pra você. Um curto
depoimento do homenageado
Carlos Cachaça abre Cachaça, árvore e bandeira de Aldir Blanc e Moacyr
Luz, intérprete da faixa.
Tantinho, Zezinho, Ary e Jurandir dividem Insônia do bardo Nelson
Cavaquinho. Seu parceiro
Guilherme de Brito exalta Minha terra e o lendário Xangô, ex-diretor de
harmonia da escola, manda
Candongueiro com Tantinho. Do abre alas do ator/autor Mário Lago ao
canto lírico de D. Ivone com o
parceiro Delcio Carvalho (Outros caminhos) até o pot-pourri de clássicos
a escola mostra porque foi tão
exaltada. "Quando ouvir essa batida/ foi Mangueira que chegou", compôs o
lendário José Ramos
anunciando o surdo de marcação, pulso da "escola que dá diploma ao
sambista". (T.S.)

--
Paulo Eduardo Neves
maito:neves@email.com