VGM no O Dia

Paulo Eduardo Neves (neves@EMAIL.COM)
Tue, 2 Nov 1999 03:03:54 -0200

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O Dia - Verde-e-rosa - 02/11/99


Terça, 2 de novembro de 1999.

Espaço Cultural O DIA

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Verde-e-rosa

Velha Guarda da Mangueira lança, enfim, o seu primeiro CD

Velha Guarda da Portel a lançou seu primeiro e histórico disco em 1970, com produção de Paulinho da Viola. Já os veteranos da Mangueira organizaram seu grupo somente em 1988. A estréia oficial ocorreria num show no People, em 1991. Mas faltava um disco para registrar a produção dos bambas da verde-e-rosa. O CD, Velha Guarda da Mangueira e Convidados, sai enfim este mês, trazendo as vozes de Beth Carvalho (madrinha do grupo), Lenine, Nelson Sargento, Fernanda Abreu, Dona Ivone Lara e Moacyr Luz, entre outros convidados.

?O samba é a minha mulher amada/O eterno livro de cabeceira/Meu guia no samba é esta rapaziada/ da Velha Guarda da Mangueira?, graceja o ator e compositor Mário Lago na abertura do disco. Os versinhos acabam fazendo poético sentido quando ouve-se o CD. A Velha Guarda da Estação Primeira registrou sambas sublimes nesta bela estréia fonográfica, sem se voltar exclusivamente para o passado. Uma das obras-primas é o recente Cachaça, Árvore e Bandeira, tributo dos autores Moacyr Luz e Aldir Blanc a Carlos Cachaça, a quem o disco é dedicado. Mas o melhor são as músicas antigas como Mangueira Chegou, samba de terreiro composto por José Ramos na primeira metade dos anos 40. A letra fala na batida inconfundível da escola, a primeira a usar o surdo na marcação.

O que mais tem no disco são sambas de melodias sublimes, como o romântico Se Foi Bom pra Você (gravado por Beth Carvalho), Candongueiro (homenagem ao homônimo bar niteroiense, reduto do samba genuíno) e, sobretudo, Divino. Este samba de Noca da Portela e Toninho Nascimento é um tributo portelense a Cartola e consegue ficar no mesmo alto nível da obra do compositor.

Aliás, a interação de sambistas e escolas diferentes é um dos pontos altos do CD. Ao esquecer as rivalidades da avenida, o produtor Josimar Monteiro propicia ao ouvinte o prazer de ouvir Outros Caminhos, mais uma maravilha de Dona Ivone Lara (dama do Império Serrano) com seu parceiro Délcio Carvalho. Da mesma forma que o pernambucano Lenine dá um ar de modernidade ao samba-enredo Vale do São Francisco, em dueto com Nelson Sargento. Já Fernanda Abreu dá show de suingue carioca em Incompatibilizado, samba de Geraldo Pereira.

Acima de tudo, vale ressaltar também o caráter documental do disco. Velha Guarda da Mangueira e Convidados recupera e traz para a era digital a tradição oral de sambas como Chega de Demanda, que, como informa Dona Zica na abertura da faixa, foi o primeiro samba-enredo defendido na avenida pela verde-e-rosa, no Carnaval de 1929. Mais um motivo para saudar a tardia estréia em disco da turma.


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