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"Este disco é parte da banda sonora do filme "Morte e Vida
Severina", que realizei durante oito meses do ano de 1976,
baseado nos poemas "Morte e Vida Severina" e "O Rio", de
João Cabral de Melo Neto, escritos em 1954. Procuramos no
disco manter o mesmo espírito das filmagens, ou seja, tentar
colocar os meios de comunicação de massa (que, por uma
questão de classe, estão ao nosso alcance) a serviço desta
imensa maioria da população da qual infelizmente "só as
estatísticas dão notícias". Espero que ainda sirva para
você, que optou por colocar este disco na vitrola, manter
viva a esperança na força criadora e transformadora deste
povo. A João Cabral, que foi o princípio; a Airton Barbosa,
pelo talento e dedicação; a Elba, Tania, Jofre, Dumont,
Stenio e Mendonça, que me emprestaram força dramática e voz
segura; a Vera, Chuquinho, Nilson e Gilberto, que seguraram
a barra; e a este povo nordestino que é o objetivo disso
tudo: OBRIGADO! (ZELITO VIANA)
"Uma equipe basicamente nordestina tratando um tema
nordestino a partir de uma obra literária nordestina
confrontando a realidade nordestina através de uma forma
rigorosamente nordestina sobre um fundo musical nordestino:
é isso o filme de Zelito Viana sobre o auto-de-natal de João
Cabral de Melo Neto, cujo ator principal é o povo,
desfilando a intuição de sua sabedoria sobre o caminhar
geográfico dos versos de Cabral e do resultado fílmico
obtido por Zelito - não um mero transplante cinematográfico
de uma obra literária clássica.
A escolha do pernambucano Airton Barbosa para compor a
trilha sonora também não é um acidente e mantém perfeita
coerência com o sentido de orientação de todo o projeto. O
fagotista do Quinteto Villa-Lobos, independente de uma
formação musical acadêmica, conserva o sotaque indispensável
para deitar no pentagrama as combinações que passeiam nos
fotogramas e, longe do barroco, têm características modais e
apresentam signos típicos do Nordeste (como fraseados de
martelo agalopado) combinados a uma forma de execução que
lembra as cítaras da música oriental.
As músicas de Chico Buarque, conhecidas desde que a peça foi
montada pelo TUCA, ganham com Tânia Alves e Elba Ramalho um
tempero mais forte, ausente da gravação original em
raríssimo compacto duplo. E integram seu compositor a um
conjunto que já tem Cabral, Zelito, Airton, Stenio Garcia,
Jofre Soares, José Dumont, Gilberto Santeiro (prêmio de
melhor montagem no Festival de Brasília, 1977) e Marcus
Vinicius, compositor e diretor-artístico da Marcus Pereira.
Produzir este disco, alem do orgulho, trazia uma
responsabilidade: assim como Zelito não filmou um poema, não
se poderia gravar um filme. Decidiu-se, então, que era mais
aconselhável fazer um disco que fosse disco mesmo. Um
produto musical. O povo, ouvida na rua a sua própria
verdade (que os estrangeiros não poderão ver, mas deveria
ser obrigatória para todos os brasileiros) estaria
representado no disco apenas pelas violas e o ritmo
diversificado da região, pela voz de Jofre Soares e a
própria vida severina fluindo no discurso artístico.
A sabedoria recolhida no percurso de quem emigra porque já
perdeu toda a esperança permanece, portanto, um privilégio
do filme: - O bom viver e o mau viver, tudo é viver. - Aqui
só se planta cana. Quem é que como cana?" (ROBERTO MOURA)
Faixas:
1. DE SUA FORMOSURA (Airton Barbosa - J.C. de Melo Neto)
2. SEVERINO / O RIO / NOTICIAS DO ALTO SERTÃO (Airton
Barbosa - J.C. de Melo Neto)
3. MULHER NA JANELA (Airton Barbosa - Chico Buarque - J.C.
de Melo Neto)
4. HOMENS DE PEDRA (Airton Barbosa - J.C. de Melo Neto)
5. TODO O CÉU E A TERRA (Airton Barbosa - J.C. de Melo
Neto)
6. ENCONTRO COM O CANAVIAL (Airton Barbosa - J.C. de Melo
Neto)
7. FUNERAL DE UM LAVRADOR (Chico Buarque - J.C. de Melo
Neto)
8. CHEGADA AO RECIFE (Airton Barbosa - J.C. de Melo Neto)
9. AS CIGANAS (Airton Barbosa - J.C. de Melo Neto)
10. DESPEDIDA DO AGRESTE (Airton Barbosa - J.C. de Melo
Neto)
11. O OUTRO RECIFE (Airton Barbosa - J.C. de Melo Neto)
12. FALA DO MESTRE CARPINA (Airton Barbosa - J.C. de Melo
Neto)