Aí Proveta chorou

Carmélio Reynaldo (carmelio@OPENLINE.COM.BR)
Mon, 1 Nov 1999 22:41:36 -0200

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Pessoal,
Andei muito ausente dos papos porque estive ocupado com
coisas que normalmente faço por prazer. Estive envolvido com
o Festival Nacional de Música de Câmera, que começou no dia
21 e terminou sábado, aqui em João Pessoa. Tinha tudo para
não dar certo: o Ministério da Cultura cozinhou a liberação
da verba para só no final de setembro negar, várias salas
inicialmente acertadas para os concertos cancelaram as
reservas, e em dois dias tive que aprender a fazer home-page
e colocar o desastre no ar (por isso não avisei a ninguém).

Porém, poucas vezes me emocionei tanto quanto na noite em
que ouvi pela primeira vez a Camerata Brasílica, grupo
formado por garotos, alunos dos cursos de extensão do
Departamento de Música da UFPB. Com exceção do professor
Francieudo Torres, nenhum dos outros 11 parece ter mais de
15 anos, mas tocam como gente grande. O que me arrepiava era
imaginar que eles tinham todo o direito de fazer por
convicção o que muitos grupos fazem por oportunismo - vestir
com roupagem erudita coisas como Metallica ou Titãs. No
entanto, o repertório era com Radamés Gnatalli, Villa-Lobos,
Guerra Peixe, Chiquinha Gonzaga e um tal de Mateus de
Castro, autor de um maxixe chamado Madá. Quando o autor foi
convocado a apresentar-se, levantou-se um dos garotos dos
violinos que, se muito, tem 14 anos.

E não foi só isso. Na segunda-feira JPSax nos brindou com
uma performance memorável, inclusive cantando os versos
finais de Aldir Blanc para o Baião de Lacan para em seguida
ingressar na beleza da composição de Guinga. No sábado
anterior o Quinteto Brassil enfrentou com bom humor e
improvisos a falta de luz no palco do Centro Histórico e a
ventania que derrubava as estantes. O grupo Camena, de
música antiga, com instrumentos e caracterizado como músicos
da Idade Média, encontrou no Mosteiro de São Bento o cenário
ideal... nunca ouvi tanta música boa ao vivo em tão pouco
tempo.

Simultaneamente ao Festival, foi realizado também o
Encontro Nordestino de Percussão, e na noite em que o JPSax
tocou, se apresentou também o Grupo Nordestino de Percussão.
Quem estava no Teatro Paulo Pontes dificilmente esquecerá a
jam session que Paschoal Meirelles e Mingo Araújo
promoveram.

Inesquecível também foi a apresentação das big bands do
festival, no Adro da Igreja de São Francisco. Como eram
muitos alunos, o professor Nailor "Proveta" Azevedo formou
duas. Inadvertidamente ele tentou fechar o programa com
Vassorinhas. Coitado. Ninguém avisou que em terras da
Confederação do Equador esse frevo de Matias da Rocha e
Joana Batista não é recomendável para conclusões, epílogos,
finais, remates ou termos. Principalmente quando dentre os
músicos se arrolam pândegos como Teinha (JPSax), Radegundis
(Brassil), Zé Gotinha, Glauco Andrezza e Chiquito
(Metalúrgica Filipéia). Resultado: os músicos saíram dos
seus lugares, fizeram uma roda no meio do público e
Vassorinhas teve uma execução de mais de uma hora, rica de
improvisos. Pouco antes, quando apresentava os músicos,
Proveta chorou. O cenário do adro, o céu claro - e, como ele
próprio afirmou - a certeza de que depois da apresentação
reporia as lágrimas nos bares do Centro Histórico, devem ter
influenciado.

O concerto de encerramento me deixou com água na boca. Se os
deuses que habitam a mata do campus forem favoráveis, será o
próximo lançamento do selo Classe X. A Orquestra de Câmera
da UFPB e o Coral Gazzi de Sá (também da universidade)
executaram a Gonzagueana, peça para orquestra, coro, tenor e
cantador de viola construída sobre canções do repertório de
Luiz Gonzaga. No papel desse último tivemos ninguém menos do
que Oliveira de Panelas.

Toda essa narrativa é para pedir desculpas pelas mensagens
que deixei de responder nos últimos dias. Como vêem, andei
muito ocupado e, pior, vou estar ainda por algum tempo, até
colocar em dia tudo o que adiei.

abraços,

Carmélio Reynaldo
Paraíba
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Se tu for na minha casa
Tem capim pro teu cavalo,
Se chegar um filósofo
Eu mando fotografá-lo
Se chegar um fotógrafo
Eu mando filosofá-lo
(Zé Limeira)