chico ao vivo

Valdir Mengardo (mengardo@MOBINET.COM.BR)
Mon, 1 Nov 1999 10:05:34 -0300

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Prezados internautas do samba,

Ontem como o tempo me permitisse enviei duas mensagens falando sobre o CD novo do Chico. A segunda, um tanto brincalhona, era assinada “o vizinho” e ilustrava, meio que na gozação, meu estado de espírito frente a um trabalho tão belo como aquele.
Na verdade, aqui em casa, escutamos o disco até à exaustão, melhor dizendo, até a última cerveja, porque ninguém se cansa de ouvir Chico. Os vizinhos pagaram o pato, mas creio que também gostaram pois ninguém veio reclamar.
Falando sério, como já tinha dito, o disco não apresenta grandes novidades no repertório do Chico, são músicas antigas, outras mais recentes, algumas recriadas com maestria e outras rearranjadas com sutileza e perfeição. Não li ainda nenhum comentário sobre o CD, a crítica daqui, principalmente a Folha de S.Paulo é muito mal-humorada. Falo por mim e pela descoberta que é estar ouvindo estas antigas músicas do mestre.
Em Morte e Vida Severina, João Cabral descreve a trajetória de Severino retirante pelo sertão pernambucano e, numa metáfora fantástica, afirma que, depois de ter vistos tantos enterros pelo caminho, Severino chega à conclusão de que era o seu próprio enterro que ele estava seguindo.
Transportando essa metáfora para o “mundo dos vivos”, ouso afirmar que, depois de mais de trinta anos ouvindo Chico Buarque, percebo que não era a sua música que eu ouvia, mas minha própria vida sendo contada na ponta da agulha das minhas vitrolas e, agora, no laser do CD. As personas que Chico incorpora não são só dele, mas, com uma argúcia e sutileza, são na realidade, “um pedaço de mim, a metade exilada de mim”.
Prosaico, banal, talvez até ouse dizer que isto é comum na arte. “Todo artista tem que ir aonde seu povo está”. Mas esta qualidade só é encontrada em poucos e verdadeiros artistas. É por isso que gosto (gostamos) dos poetas de morro e da periferia de Sampa e de tantas cidades do Brasil. Eles sabem, como ninguém, ser o fingidor que Pessoa tinha dentro de si, talvez pela pela dura realidade de vida que enfrentam.(Mas é bom parar por aqui porque não sou sociológo)
Ouso de novo (mas que cara ousado!), traçar uma linha evolutiva (certamente uma das tantas linhas que cada um vai fazer) que, para mim, passou por Noel, Sidney Miller, Chico e Paulinho da Viola, dispostos, muito provavelmente, de maneira não-linear.
Ouvindo trabalhos como o Chico ao Vivo, retomo os “bolachões” que na minha infância se partiam com tanta facilidade, relembro tantos e tantos chiados de Adoniram Barbosa, Orlando Silva, Luiz Gonzaga, Framcisco Alves, que meu avô punha na velha e boa rádio-vitrola. Sinto que o círculo vai se fechando, ou melhor, para não deixar a dialética de lado, a espiral se complementa. Rearranjo o quebra cabeça da minha vida, através destes senhores. E sei que ainda existem muitos outros pedaços por aí que a música e as pessoas maravilhosas que tenho ao meu redor vão me ajudar a compor.
Quem canta comigo, canta o meu refrão, meu melhor amigo é meu violão
(Sem aspas porque estes sentimentos também são meus, sem nunca ter tocado violão, mas Chico tocou por mim) .

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