Re: [S&C] CDs piratas

Francisco Genu (fgenu@UNISYS.COM.BR)
Tue, 24 Aug 1999 16:20:14 -0300

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Meu caro Lauro,

Eu tinha respondido ao Bernardo em particular, até para não ficar
estendendo um assunto que já foge ao tema central da Lista. Mas depois
vi a sua mensagem e percebi que, de um lado, eu devo ter sido muito
infeliz na minha redação e, de outro, o assunto estaria a merecer um
reparo mais público. Então vamos lá:

O seu exemplo é excelente, foi até em determinada época motivo de piada
-- você se lembra? "Qual é o homem mais inteligente do Brasil? Aquele
que consegue viver com salário mínimo".

Mas é óbvio de que não estou a falar disso. O que eu disse é:
1. Analfabetos têm princípios sim (o que, salvo engano meu na leitura,
estaria sendo negado quando esse debatezinho começou);
2. O que analfabetos não podem ter, porque não estudaram para tanto, e'
encadeamentos de raciocínio extensos (que chamei originalmente de
complexos) para ao final concluirem com julgamentos de valor. Algo no
gênero: "as multinacionais vendem CDs caros, logo as multinacionais nos
roubam; contudo, a sociedade, para existir, precisa de que seus
componentes não roubem; logo, apesar de saber que as multinacionais nos
roubam, como um bom cidadão eu não vou comprar CDs piratas". É claro que
uma pessoa analfabeta não faz semelhante encadeamento.

Fui mais claro agora?

Observação:
1. O encadeamento de raciocínio com que ilustrei acima a minha defesa se
trata de mero exemplo. No entanto, como alguns insistem em fazer a
apologia da pirataria, deixem-me também insistir no seguinte.
Toda a grande concentração de capital que movimenta o capitalismo
contemporâneo foi obtida de forma sórdida: saques, pirataria, tráfico de
escravos, prostituição e por aí vai. E, claro está, esse processo
espúrio continua em vigor até os dias de hoje. Em outras palavras, não
há como imaginar um Citibank sem pirataria; uma GM sem escravos; uma
Microsoft sem prostituição.
Mas isso não deve ser motivo para que se conclua que, cada um, a
critério próprio, possa definir se vai ou não cumprir a Lei. Sem querer
ser conservador (que, quem me conhece poderá garantir que não sou), eu
insisto em que toda sociedade precisa de um ordenamento jurídido a ser
respeitado (mesmo que certas leis sejam burras ou injustas; nesse caso,
o melhor a fazer é lutar para derrubá-las). O contrário disso é um
faroeste. Os que agora querem reparar injustiças pela via da compra de
CDs piratas, esquecem-se de que no faroeste aparecerá sempre um
pistoleiro mais rápido (mais forte ou mais esperto) que implantará as
mesmas injustiças contra as quais estamos agora nos sublevando.

Um grande abraço,

Chico Genú
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lauro mesquita wrote:

> Tente pagar as contas com o orçamento de dois salarios minimos pra ver
> se
> não eh possivel julgamento complexo para chegar a principios. Antes
> fosse
> assim, pois dessa maneira quem sabe o pessoal jah não tinha tomado
> medidas
> mais drasticas para tamanha desigualdade, que no momento se expressa
> tanto
> na lista. Sinto lhe dizer Francisco, mas sua emenda foi pior que o
> soneto.
>
> >From: Francisco Genu <fgenu@UNISYS.COM.BR>
> >Reply-To: Francisco Genu <fgenu@UNISYS.COM.BR>
> >To: L-DISCUSSAO@SAMBA-CHORO.COM.BR
> >Subject: Re: [S&C] CDs piratas
> >Date: Mon, 23 Aug 1999 18:34:53 -0300
> >
> >Oi, pessoal
> >
> >Eu estou achando ótima essa discussão e nem tanto pelo CD pirata em
> si,
> >mas por revelar como anda a cabeça das pessoas em relação a valores e
>
> >tudo mais. Está valendo mais do que a leitura de uma centena de
> livros
> >sobre Sociologia.
> >
> >Mas é importante ser rigoroso com as afirmações. Por exemplo, não é
> >correto que princípios sejam coisas de ricos exclusivamente (aliás,
> do
> >jeito que a coisa anda, o mais provável é que não se encontre
> princípios
> >nos julgamentos e ações dos ricos). Mais certo seria afirmar:
> "pessoas
> >não letradas têm princípios sim; o que elas não podem ter é
> julgamentos
> >complexos para chegar a princípios".
> >
> >Um abraço,
> >
> >Chico Genú
> >
> >Bernardo Errardo wrote:
> >
> > > Helion Povoa Neto wrote:
> > >
> > > > Me metendo na discussao a custo, quase que dando uma boiada pra
> nao
> > > entrar:
> > > >
> > > > Tah certo que enquanto nao os discos nao estiverem numerados
> > > certinhos, os funcionarios do Canecao forem desrespeitados, o ACM
> > > mandar na Bahia, os PMs de Carajas nao forem condenados, a Hebe
> > > continuar com seu programa, os servios e kosovares se massacrarem,
> a
> > > obra de Noel nao for relancada, a Bavaria long-neck nao for facil
> de
> > > achar em supermercado, a Luana Piovani nao der pra todo mundo, o
> > > Filipe nao voltar pra lista, a minha conexao com o UOL nao
> funcionar
> > > direito, etc, etc, etc, eh hipocris
> > > >
> > > > Mas calma aih: o povao a que a Marilene Felinto se referiu no
> artigo
> > > tambem nao tem conexao na internet, nao assina essa lista, compra
> um
> > > cd quando em vez se sobra uma graninha, tem que se sujeitar a
> semana
> > > inteira aa merda que jorra das radios, a Ratinho, Angelica e
> Xuxa, e
> > > tal, e tal.... Vai exigir que ele faca um julgamento em cima de
> > > principios eticos e morais quando lhe oferecerem um produto pelo
> > > quinto do preco? Eh exigir demais.
> > >
> > > E', e todos sabemos que principios sao coisa de rico, nao de
> pobre.
> > >
> > > >
> > > >
> > > > Soh, que, falando e saindo de fininho: a rapaziada aqui tah numa
> um
> > > pouquinho melhor em termos de acesso a informacao, poder
> aquisitivo e
> > > criterios de julgamento, tah nao? Entao, que tal a gente parar com
> o
> > > discurso de que Brasil eh assim mesmo, uma esculhambacao soh, e
> entao
> > > vamos esculhambar mais um pouquinho? Etica a gente comeca eh no
> nosso
> > > quintal mesmo.
> > > >
> > > > Helion
> > >
> > > Por isso que da tonelada de LPs e CDs que tenho nenhum e' pirata
> > > (tambem pq nao sai uma desgraca de um disco que preste pelos
> piratas.
> > > Nesse caso, talvez eu nao resistisse). Podendo escolher, prefiro o
>
> > > oficial. Nao acho que poder comprar TV e video cassete mostra que
> a
> > > pessoa tem as mesmas condicoes aquisitivas que eu. E nao acho que
> se
> > > deva ter escrupulos com relacao a industria, nao.
> > >
> > > Bernardo
>
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