Elza Soares

Helion Povoa (hpovoa@UOL.COM.BR)
Thu, 8 Jul 1999 10:35:52 -0300

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Encaminho para reflexao de todos:

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Novo CD sofreu embargo por exigência de exclusividade de faixa para Ivete Sangalo, depois revogada
Elza volta maltratada pela indústria

PEDRO ALEXANDRE SANCHES
da Reportagem Local

O processo de marginalização a que as gravadoras brasileiras submetem até os artistas mais experientes avança. Elza Soares, sambista militante na MPB desde 1960, está de volta, em disco independente autoproduzido. E enfrenta desavenças com a indústria que resiste em absorvê-la.
Em 9 de junho, 5.000 cópias já prensadas de "Elza ao Vivo - Carioca da Gema" foram embargadas porque uma música, "Sá Marina", de Antônio Adolfo e Tibério Gaspar, sucesso do repertório de Wilson Simonal, seria relançada, com contrato de exclusividade, pela cantora baiana Ivete Sangalo, ex-Banda Eva.
A Folha procurou Sangalo e sua equipe por cinco dias úteis consecutivos, em busca de algum posicionamento sobre o caso, sem nenhuma resposta. Anteontem, quase um mês após o início do episódio, Universal e Ivete voltaram atrás em comunicado oficial:
"Em respeito à artista Elza Soares, a Universal Music e a cantora Ivete Sangalo decidiram abrir mão da exclusividade concedida pela editora Warner Chappell para que "Sá Marina" seja mantida no álbum de Elza Soares, a fim de evitar maiores danos à artista".
"Demoraram 40 dias para proibir e agora mais um mês para reconsiderar, por quê?", reagiu o empresário de Elza, Edson Gomes. "Agora tenho 5.000 cópias com a música e outras 2.000 sem, o que eu faço? Isso foi só por pressão da imprensa. Vou lançar sem a música, isso é palhaçada."
"Agora não quero mais. Não preciso disso", já afirmara Elza, antes da revogação da proibição.

Folha - O que você pensa sobre o episódio com "Sá Marina"?
Elza Soares - Isso me prejudicou muito. Tivemos que parar com tudo. Foi uma porrada na boca do estômago. Eu quis prestar uma homenagem ao Wilson Simonal, que foi o criador da pilantragem com Carlos Imperial. Ninguém mais canta, ninguém mais fala da pilantragem, que era um som maravilhoso. Preparamos o CD, eu pedi permissão ao compositor de "Sá Marina", Antônio Adolfo, ele disse que tudo bem. Quando estamos com tudo preparado, meu empresário recebe o fax da Warner Chappell proibindo a música. Pô, eu, com tantos anos de carreira, já batalhei por esse país todo... O fax dizia que a música era exclusividade da Ivete Sangalo. Não vem com essa história, o ritmo dela não é esse, a música que canta não é essa.

Folha - Você falou com ela?
Elza - Não quero. Não é por aí. A minha estrada, minha gente, todo mundo sabe. Não vou ficar brigando com uma colega por causa de uma música. Não prejudico a vida ninguém, assim como não quero ser prejudicada por ninguém. Investi meu próprio dinheiro, sozinha, e parou tudo. Não tenho nenhuma multinacional atrás de Elza Soares.

Folha - A Universal lançou um disco seu há dois anos. O que aconteceu?
Elza - Nada. Não trabalharam, o CD ficou naquilo. A gravadora tinha proposta de dois trabalhos. O primeiro CD foi lindo, mas ficou nisso. Foi um pecado. Mas não posso parar, meu amor. Preciso viver, preciso cantar, preciso da minha arte. Vivo disso. Como é que vou ficar parada aqui, chupando o dedo, com tudo que Deus me deu, sendo "filha" do Louis Armstrong, substituindo Ella Fitzgerald, abrindo show para Sarah Vaughan e Sammy Davis Jr.? Pô, com licença. Não deram nenhuma desculpa, não fizeram nada. Rescindiram o contrato. Não estou falando que nasci na contramão, mulher, negra e pobre? Eu vivo na contramão, meu irmão. Sou brasileira.

Folha - Antes, você ficou quase dez anos sem gravar. Agora então a estratégia é outra?
Elza - Se não tem tu, vai tu mesmo. A gente vai, faz, vende nos shows, distribui, tá? Não vai faltar CD mesmo.

Folha - Como você selecionou repertório?
Elza -Fui buscando o que eu cantava nos shows, como a homenagem ao Adoniran Barbosa, a coisa do final com o hino, essa minha música de abertura, que é uma louvação à lata. Já nasci coroada e não sabia.

Folha - Essa música expõe certa rivalidade sua com Marlene, que gravou "Lata d'Água", não?
Elza - Ela nunca carregou lata d'água. Eu subi morro com lata, comia na lata, meu telhado era de lata, tomava banho com lata, servia de penico e de copo. Muita gente tem vergonha. Eu, muito pelo contrário, me sinto muito honrada de ter tido uma lata para comer, a lata de goiabada que meu pai amassava e fazia de prato. É essa lata, não é a coisa da música. Não sei se dá para comparar meu trabalho com o da Marlene.

Folha - Por que a homenagem a Wilson Simonal?
Elza - Simonal, na minha opinião, foi o homem que mais balançou este país. Ele era um homem tesudo, cara. A voz dele, o jeito, a maneira de interpretar, o suingue, é difícil encontrar igual. Jorge Ben é pai disso também.

Folha - Como você vê a questão política que envolve a história do Simonal?
Elza - Numa época de hoje, se não houver um mundo de perdão, aonde é que nós vamos? Não vi, não sei, como posso julgar alguém? Quem sou eu, que vivo na contramão eternamente, para julgar? Falo do grande momento musical, da grande figura que ele foi. Frequentava minha casa, foi muito amigo do Mané (Garrincha, com quem foi casada).

Folha - Mas o que você pensa sobre as histórias de delação e tortura em torno de Simonal?
Elza - Não penso nada, porque não acredito. A única coisa que fico pensando é que era um negrão fazendo sucesso, o único da época. Me assustava muito, como negra. Não tenho tempo para incriminar ninguém, eu tenho muito medo, cara. Fui muito torturada também. Fui até mandada embora do país, fui para a Itália, em 69.

Folha - Por quê?
Elza - Não sei. A única coisa que existia é que estava casada com um homem, Garrincha. Ele não tinha nenhuma implicação política, mas a gente foi embora, para você ver. Daí se podem deduzir as coisas. Recebi uma carta para largar o país em 24 horas.

Folha - Vinha de onde essa carta? Polícia, governo, quem?
Elza - Não sei até hoje. Minha casa foi metralhada. O segurança que estava cuidando da minha casa foi atingido.

Folha - Você não tem medo que sua homenagem seja mal recebida, dado o preconceito que existe contra Simonal?
Elza -Como vão receber mal? Estou cantando música, não estou me metendo em negócio de política. O que ele fez ou deixou de fazer não me compete. Se fosse tão ruim, não me tiravam uma música e davam para a outra cantar. Então o preconceito é só contra os negros? Por quê?

DISCO/CRÍTICA
Artista oferece um grito de sobrevivência

da Reportagem Local

A indústria fonográfica brasileira não se respeita mesmo. O vexame a que Universal, Warner Chappell e a senhorita Ivete Sangalo submeteram a maior sambista viva do país é asqueroso, para dizer o mínimo.
Quando tudo já havia escorrido pelo ralo, os bonitos mudaram de idéia, supondo, provavelmente, que Elza fizesse abracadabra e tudo ficasse cor-de-rosa como sempre foi.
Só no silêncio, Ivete deixou de perceber que sua arrogância de cantora solo iniciante fere a memória da estrutura à qual ela pretende pertencer legitimamente. Fica difícil pleitear algum respeito começando dessa maneira, ainda que toda a mídia vá abanar o rabo feliz à sua pose de nova diva.
Elza Soares é o próprio retrato da pilantragem, movimentação musical algo cafajeste, algo malandra, algo autoritária que Simonal liderava nos 60 e início dos 70, até se meter em encrencas políticas. De artistas ainda atuantes, ninguém tem tanta autoridade quanto ela para reevocar aquele momento específico da música negra brasileira. Senhorita Sangalo não tem, vai demorar para ter.
Elza, por seu turno, em todo o salto alto de sua competência e importância, tem de enfrentar, além do desfalque causado pelo vaivém, a injusta marginalização a que está atirada.
Contratada pela Universal, foi jogada no lixo após um álbum de primeiro nível, "Trajetória" (97) -isso já era incompreensível a ouvidos não industriais.
"Carioca da Gema" é um disco pobre, gravado precariamente, oscilatório, o que a artista pôde oferecer como grito de sobrevivência, de fora da indústria indigente. Mas o repertório (se não a execução, jazzificada e sem muitos recursos) é irrepreensível.
Ele próprio um documentário sobre os vaivéns históricos da MPB, inclui canções de Lupicinio Rodrigues -o autor do primeiro sucesso na voz de Elza, "Se Acaso Você Chegasse", que a projetou nacionalmente em 60-, Adoniran Barbosa, Cyro Monteiro, Dolores Duran, Tito Madi, bossa nova ("Lobo Bobo"), Jorge Ben ("Chove Chuva" ganha arranjo funkeado, à Tim Maia), pilantragem, Milton Nascimento, pagode ("Malandro"), Caetano anos 90.
Inclui, até, composição própria (e emocionada) em homenagem à mítica "Lata d'Água" e, mais até, um (ir)reverente vocalise do "Hino Nacional" -que se presta, enfim, a símbolo de sua resistência ao ataque das multinacionais.
O trabalho de Elza, mesmo com as intempéries, é de quilate -seria irreparável se contasse com as benesses da indústria. Se não contasse, tudo estaria bem mesmo assim. Mas que a indústria precise, ainda por cima, atrapalhar (e se atrapalhar), é coisa do inferno. (PAS)