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Artur da Távola
Lembrando Assis
Todo São João (que se aproxima) recordo-me da
infância e de uma canção de Assis Valente que toca
exata no rádio da memória.
Raros compositores populares conseguiram, como
Assis, tão singular mistura de alegria e amargura, que
eram os dois pólos da personalidade controvertida,
triste, solitária e dividida daquele protético suicida, um
dos imortais da Música Popular Brasileira.
Quem analisar a letra de Camisa Listrada (samba que
entra na lista dos dez mais importantes de todos os
tempos de qualquer especialista), nela verificará a
endiabrada mistura de amargura e alegria: "Botou uma
camisa listrada e saiu por aí..."
A fantasia descrita pelo samba trai a amargura e a
tristeza de quem se traveste de mulher e vai procurar no
delírio do Carnaval a diluição no anonimato, de sua
vontade secreta de ser mulher. Esse anonimato impede a
zombaria, o escárnio. Contudo, o tom da música é triste.
Revela o quanto dói tanta alegria e o que ela guarda e
disfarça de sentimentos confusos, contradições e
mágoas.
Outras vezes, a mistura de alegria com amargura gerava
a doçura e delicadeza de outros temas como aquele no
qual diz: "Eu pensei que todo o mundo fosse filho de
Papai Noel...", e conclui, amargo, dizendo que a
felicidade "é brinquedo de papel", uma verdade, a sua
verdade.
Solitário por várias razões: por quase não poder confiar
a ninguém seus segredos, para ele tão dolorosos; pelo
estilo absolutamente pessoal e sem influências; por se
julgar sem importância como criador, cercado de
dúvidas até na forma de tentar (afinal conseguindo) a
autodestruição pelo suicídio. Isso, depois de se haver
atirado do alto do Corcovado e não morrer.
Foi carioca (embora baiano de nascimento) em todas as
manifestações extrovertidas de sua música. Se, por um
lado, Assis Valente recalcava o que o martirizava,
embora dominasse e sofresse a dor de todos os
introvertidos, em várias de suas obras ele aparecia como
um alegre poeta popular (principalmente nos tempos de
Carmen Miranda no Brasil) cantando coisas que eram
notícia ou foram acontecimentos da cidade no ano
anterior ao do Carnaval, num tempo em que este era a
crônica viva da cidade.
A coluna de Artur da Távola é atualizada às terças,
quartas e quintas
-- Paulo Eduardo Neves mailto:neves@inf.puc-rio.br PUC-Rio de Janeiro