Re: Seu texto sobre "Musica de Consumo" (mandado para [S&C])

Alvaro Neder (soundmaker@geocities.com)
Tue, 1 Jun 1999 00:57:38 -0400

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-----Mensagem original-----
De: Roberto Imbuzeiro Moraes Felinto de Oliveira <rimfo@uol.com.br>

<Alvaro:

Gostei bastante do seu texto. Infelizmente nao sei de alguem que possa
publica-lo, e se isso o decepciona, pare de ler por aqui. :-)

Perdoe-me se vou fazer colocacoes e perguntas "desinformadas" ou "pueris"
sobre o que esta' la'. Se elas forem ruins, apague o e-mail; se forem
terriveis, espalhe pros seus amigos rirem. So' peco a fineza de omitir o
nome do autor, ja' que "os meus camaradinhas" me acham um tremendo
intelectual. :-)

Concordo com as colocacoes que voce fez sobre o ouvinte medio, o seu
comportamento e suas reacoes frente 'a musica de mercado. A maioria das
teorias inventadas para justifica-la so servem com um "relaxe e goze"
intelectual, como eu falei acerca daquele texto do Hermano Viana. Mas eu
sinto falta, em um artigo serio como o seu, de algo um pouco mais cientifico
(nao repare, sou matematico), no sentido de apresentar dados concretos de
forma direta. Isto pode se tornar enfadonho para muitos, mas eu acredito que
mesmo correndo o risco de ganhar a faixa de chato de vez (estou concorrendo,
vide minha profissao), seria legal incluir este tipo de informacao. E'
bastante claro que o que voce falou e' verdade; mas sera que nao existe
algum estudo sociologico (ou ate' em psicossociologia, ecologia social) que
apresente dados mais diretos sobre a questao especifica da musica? Veja,
isto e' realmente uma pergunta, nao e' uma perguna retorica. Se voce tiver
uma resposta, gostaria de sabe-la. Eu ja' li algumas coisas sobre o assunto,
mas nunca vi dados estatisticos e informacoes "mais irrefutaveis" que o
bom-senso (importantissimo, por sinal) do autor.

Se voce me permite mais uma sugestao (estou cheio de dedos neste texto - o
que confirma que tenho dois dedos 2 na mao direita), talvez fosse
conveniente aplicar os criterios a que voce se refere na frase "Há um
critério julgador que tem precedência, e se baseia nos processos de lógica
do conhecimento." quando fala do Chico Buarque, do Edu Lobo e do Egberto
Gismonti, deixando claro porque a arte deles satisfaz com louvor estes
criterios de qualidade artistica.

Bom, acho que ja' palpitei demais. Se voce puder me sugerir leituras neste
sentido, agradeco muito.

Grande abraco e sorte na publicacao,>

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Roberto Imbuzeiro Moraes Felinto de Oliveira>

Caro Roberto,

Antes de mais nada, por favor, sei que é difícil para alguém com dois dedos
dois não ficar cheio de dedos, mas eu sou tão simples, e estou habituado a
críticas, portanto seja sempre o mais sincero e direto comigo, por favor, e
nunca se preocupe com minha reação, pois as críticas virão de um jeito ou de
outro, e me farão evoluir, o que é o meu propósito.

Respeito extremamente sua opinião por vc ser um cientista. Nesse debate
posso aprender bastante, e talvez contribuir com um tema ou dois para
reflexão.

Com muita humildade frente ao tremendo cabedal de conhecimentos desenvolvido
pela Ciência em todos esses séculos, me permito tecer críticas a ela
motivadas não pelo amplo entendimento de toda a matéria, mas pelo bom-senso.
A Ciência tinha o nobre ideal de libertar o ser humano da fome (em 1o lugar,
o mais importante), das condicoes insalubres e perigosas do trabalho, e de
promover o bem-estar. Vê-se claramente que isso não foi conseguido, e sequer
tentado. A História da Ciência é a História das classes dominantes, a quem
ela é destinada.

Porisso, além da Ciência concebida nos moldes positivistas, que vc defende,
a Ciência pode também ser estudada sob os métodos dialético, fenomenológico,
e até psicanalítico (que como vc deve ter notado, foi utilizado nesse
artigo). A falta de dados estatísticos não descaracteriza uma abordagem na
sua condição científica.

Duas coisas me impedem de criticar a aqui o método positivista: A ilusao da
objetividade produzida pelo método analítico está muito arraigada (na
citação que farei a seguir, vem a propósito a frase "a exatidão do método
vira fetiche e compensa a irrelevânciado que permite descobrir" - é bem
conhecido hoje o fenômeno, por incrível que possa parecer, de pesquisas
chanceladas pelo método científico e que terminam por adaptar os resultados
para não descaracterizar a metodologia); e essa ilusão já mereceu antes
críticas brilhantes que me cobririam de ridículo pela comparação. Japiassu é
um desses críticos, tendo escritos importantes, entre outras coisas, sobre o
esoterismo do jargão científico, que impede a comunidade de avaliar segundo
seus interesses o que está sendo engendrado nos secretos meandros
acadêmicos.

Mas posso citar (de maneira bastante anticientífica: ) de memória, uma
pesquisa que li, que chegava à conclusão de que crianças pobres eram menos
inteligentes que crianças ricas. O Método foi respeitado em todos os seus
rigorosos detalhes. Mas o resultado estava viciado. Porque para se obter
resultados fidedignos não se poderia esperar que, mesmo respeitando-se os
ditames da Estatística, lidando-se com amostragens indiscriminadas de
pessoas, teriamos que haver-nos com esse detalhe irritante (para os
cientistas) que atrapalha as pesquisas: a subjetividade humana; no caso, os
meninos pobres se sentiram atemorizados num ambiente estranho a elas, limpo,
pintado de novo, com pessoas sérias e engravatadas, e acabaram tendo
desempenho inferior nos testes ao que seria obtido em seu local de origem.

Dito isso, existem estudos sociológicos isentos, o mais amplo sendo o de Max
Weber dentro de "Economia e Sociedade". Eu citei outro aqui antes: "Idéias
para a Sociologia da Música" de Theodor Adorno. Entretanto, ele adverte
nesse mesmo estudo "as pesquisas empíricas, partindo da reação dos ouvintes
como de um material científico último e evidente, tornam-se falsas, pois não
concebem estas reações como aquilo que elas essencialmente vieram a ser,
como funções da produção. (...) E no mais, as dificuldades de rastrear os
efeitos sociais da música é pouco menor que a de apreender a sua substância
social. Pois o que se pode obter são as opiniões de ouvintes, sobre a música
e sobre a sua relação com ela. Essas opiniões, no entanto, pré-formadas
através de mecanismos sociais como a seleção do programa e a propaganda, não
chegam a seu verdadeiro objeto. O que os entrevistados acham de sua relação
com a música, considerada ainda sua capacidade de verbalizar, não dá conta
nem mesmo do que se passa subjetivamente - do ponto de vista individual como
da psicologia social. Se dizem que gostam particularmente da melodia ou do
ritmo de uma música, não ligam a tais palavras uma representação adequada, e
substituem aos conceitos o seu conteúdo vagamente convencional: por ritmo,
portanto, entendem a reciprocidade entre a batida regular e o desvio
sincopado, e por melodia o canto fácil de apreender organizado em períodos
de 8 compassos. Dar conta da experiência musical pela introspecção é muito
problemático, para quem não tenha se submetido à disciplina específica da
música e não seja, além disso, excepcionalmente dotado e treinado para a
auto-observação. Os métodos seguros da experimentação, entretanto, que
esperam escapar àquela problemática através da contagem e da mensuração,
não levam também mais longe. O pulso do ouvinte que se acelera, ou coisa que
o valha, é inteiramente abstrato em face da relação específica com a música
ouvida. Quem for usar o aparelho de Frank Stanton, o Program Analyser
elaborado nos quadros do Princeton Radio Research Project - quem pretenda
determinar as passagens musicais que despertam reação positiva ou negativa,
estará justamente pressupondo o tipo de audição atomística e reificada, o
registro da música como soma de estímulos sensoriais, que deveriam ser o
objeto da pesquisa. O primitivismo de tais experimentos deixa escapar a
complexidade da relação com a música, mesmo com a mais primitiva; a exatidão
do método vira fetiche e compensa a irrelevânciado que permite descobrir.
Não que as técnicas de laboratório não tenham valor algum para a sociologia
musical: em muitos aspectos elas estão como que na medida de suas vítimas. P
odem ser úteis à avaliação quantitativa dos comportamentos sociais em face
da música; mas mesmo isto, somente quando a análise sociológica confronta
aos dados quantitativos o significado da música ouvida, estudando as
condições sociais de tais efeitos".

<Se voce me permite mais uma sugestao , talvez fosse
conveniente aplicar os criterios a que voce se refere na frase "Há um
critério julgador que tem precedência, e se baseia nos processos de lógica
do conhecimento." quando fala do Chico Buarque, do Edu Lobo e do Egberto
Gismonti, deixando claro porque a arte deles satisfaz com louvor estes
criterios de qualidade artistica.>

Ora, obrigado pela sugestão. Seria o caso de uma abordagem musicológica, a
análise de trechos musicais e a comparação com o que está nas ondas do
rádio. Vou pensar em como aproveitar sua sugestão, provavelmente om novos
artigos. Por sinal, um parêntesis: acabei de dar uma consultada na revista
"Sucesso", que é enviada para todas as rádios, e tem um ranking do "Top 100"
(os 100 mais vendidos). Nunca a leio, e fiquei perplexo de ver perto dos
primeiros lugares nomes dos quais nunca ouvi falar e dos quais nem me
lembro. O Chico, assim de memória, está perto do 50o. lugar. MPB verdadeira
(incluindo aqui o Caetano, embora com ressalvas, e que está próximo dos
primeiros lugares) só é representada por umas 4 presenças nesta lista de
100. Que tal isso para dado estatístico inicial (embora apenas indiretamente
relacionado com o assunto em pauta)?

Grande abraço e continue me dando o privilégio de suas considerações!
Alvaro