Re: Tribuneiro improvisando na Catacumba,

Lene Francisco de Carvalho (lene@NET-UNIAO.COM.BR)
Sun, 2 May 1999 21:07:38 -0300

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Alvaro Neder escreveu:

Dois bebes gemeos,
>recem-nascidos (dois alunos diferentes). Uma mae (a escola, a Berklee se
>quiser). O leite dela (os conteudos ensinados). Desses dois bebes, um pode
>ser o Ghandi e o outro o Hitler. A mae foi a mesma, o leite foi o mesmo. O
>inconsciente de cada um faz a diferenca. A maneira de cada um se relacionar
>com o leite. Nao eh culpa da mae, pelo amor de Deus!
>
>Luis Filipe escreveu:
><... (o improviso no choro) nao se trata de uma sucessao
>de escalas e frases de efeito (muitas vezes genialissimas, como fazem os
>craques do jazz) desvinculadas do tema, a nao ser pela harmonia comum.>

Alvaro, concordo plenamente quando voce afirma que nao eh culpa da mae. As
influencias do mundo em cima da pessoa eh muito maior do que as horas de
estudo e dedicaçao mesmo que isso pareça ser muito. Mas eu estava me
referindo nao ao estudo da musica quanto aas tecnicas de aprendizagem, aih
sim, mas me referia aa exposiçao do sentimento que apesar da imensa ajuda
da tecnica vai ser mesmo a sensibilidade que vai comandar o barco, uma vez
que ninguem vai ter tempo de lembrar de tecnica, ela vai ser util na hora
de estudar nao eh? Como caminhar na floresta do nosso mundo interior, onde
aas vezes eh um lugar escuro cheio de monstros e outra hora tem muita luz
dependendo do nosso estado.
Concordo tambem com o que diz o Filipe sobre as variaçoes, e nada me
parece mais correto do que "O musico toca aquilo que ele eh" mas acho
perigoso afirmar que em alguma categoria ou estilo, ao improvisar, saem
ou nao do tema, pois aih descaracterizaria o improviso. Tenho dificuldade
nesse caso porque penso ser muito profunda a expressividade de um povo e ele
tem direito de escolher a forma que expoem o mundo atraves da arte. Uma
cultura tao diferente da nossa como a americana certamente pode conter
aquelas variaçoes que a gente pensa que eh sair do tema. Quando eu vejo eles
improvisarem em cima de musicas muito conhecidas como os classic standards
tipo Misty, Autumn Leaves, ou mesmo All blues do Miles Davis. nao parece
sair do tema mas se viaja bastante. Aos meus ouvidos parecem assim porque a
musica eh muito conhecida.
Eh a nossa cultura que provavelmente nos impoe a maneira de
improvisar no choro, alih pertinho da melodia. Tambem se a gente for ver
direito os nossos temas (choristicos) parecem ser muito mais complicados. E
nem por isso eh mais evoluido. Nao acredito ser por incompetencia tecnica
que andamos mais perto da melodia. Se pegarmos uma grande parte da populaçao
brasileira, poucos gostam de choro e muito menos ainda, mas muito menos
gostam de improviso, teve gente aqui na tribuna que falou que isso eh coisa
soh de musico. Jah pensou? se fosse soh musico que gostasse de improviso
nos EUA? Nao ia ser por isso melhor ou pior, ia apenas, provavelmente, ter
menos improvisadores.
Por outro lado nao acredito que sejam mais ou menos evoluido quem gosta de
improviso ou nao. Eh apenas a forma de prestar atençao mais nas notas ou na
letra da musica quem gosta de qual.
Certamente, quanto mais o estudo eh apurado na organizaçao da linguagem,
significa que houve um estudo mais aprofundado e logicamente, mas se
conhece sobre a mesma. E por ser o estudo uma atividade intelectual, pensada
e objetivamente desejada, vai-se entao formar cientistas e consequentemente
ter menos misticismo em torno da tal linguagem. Isso eh otimo. Por tudo
isso que nao achei substancial a discordancia nos conteudos das mensagens do
Alvaro e do Filipe, cada um a seu modo nos deram uma aula e tanto. Parabens
para ambos.
[ ]s Lene