Waldir Azevedo lembrado por Luis Nassif

Jose Carlos (jalarca@IBM.NET)
Sun, 2 May 1999 11:56:43 -0300

Clique aqui para responder esta mensagem

Aqui vai a segunda parte do artigo do Luis Nassif

Mas Waldir nao era desses ortodoxos que nem o Jacob. Lembro-me ate hoje do maior vexame de minha incipiente carreira de musica, por culpa de sua heterodoxia.
Do disco que minha mae me deu-que tinha de choros, guaranias a valsas-tirei Nancy, musica meio no estilo pilantragem. Certa vez meu tio convocou os filhos e sobrinhos para a apresentacao anual
que fazia no sanatorio de Divinolandia, cidadezinha proxima a Pocos, que ficava encarapitada em um morro.
Tio Leo tinha uma caminhonetinha Ford que era a figura mais popular da cidade. Parecia vira-lata de estimacao. Outro dia escrevi aqui sobre o Grupo Gente Nova, e muitos amigos da epoca escreveram reclamando que eu nao mencionara o Fordinho que
levava os alimentos no morro do Serrote. Toda vez, no meio da subida, as caronas tinham que pular correndo, para empurra la
antes que o motor morresse.
Um dia um ladrao pouco informado quis rouba la. So conseguiu chegar ate o rio dos Cachorrinhos, porque da casa do tio ate o rio era ladeira. La a caminhonete empacou de tal modo, enervou de tal maneira o raptor apaixonado (porque so paixao cega para alguem cisnmar de rouba la) que ele a atirou no rio.
No dia seguinte foi o guincho ica la tendo como plateia metade da cidade rezando pela recuperacao da nossa reliquia historica.
A caminhonetinha saiu humilhada, escorrendo que nem frango afogado, mas sobreviveu. Pois foi nessa caminhonete que nos aboletamos todos, umas dez criancas, de 10 a 16 anos, e seguimos para o Sanatorio de Divinolandia.
Primeiro, preparamos uns esquetes-como se dizia-, quadros curtos com piadas obvias.
Depois, o conjunto do tio Leo tocou um repertorio bonito de
valsas, parte das quais as serestas que ele trouxe do Rio dos
anos 30, de Luiz Peixoto para cima.
Desculpe, para baixo, porque acima de Luiz (no dia em que apareci no mundo/juntou-se uma porcao de vagabundos) Peixoto so Deus.
Na parte final, tio Leo resolveu exibir o sobrinho musico e me chamou ao palco. Fui com um banjo encerado, reluzente, afinado tambem que nem bandolim, que meu pai comprara de seu primo Joaquim. Como nunca tinha ensaiado antes, sugeri a tal de Nancy.
Os velhos do conjunto me dirigiram olhares aprovadores. Ai, eles comecam no ritmo original da musica-uma valsa para la de dolente- e eu no ritmo do Waldir- a pilantragem incrementada.
Se tivesse mais experiencia, teria parado e comecado de novo. Como nao tinha, acho que terminei o solo dois minutos antes de terminar o acompanhamento. Na plateia, era um chiado so, de tisicos tossindo para sufocar a risada.
Por estes dias, Brasileirinho completa 50 anos. Foi isso que me fez lembrar que, no fim dos anos 50, naquele pais que mal ensaiva
os primeiros voos internacionais, Waldir era um dos simbolos nacionais, motivo daquele orgulho meio besta, que os sofisticados chamariam ate de caipira, mas que mantinha acesa a fe no pais. Assim como hoje, quando a politica, o governo e as injusticas teimam em dizer nao, a musica de Waldir garantia que sim.