Jam session

Luis Filipe de Lima (lfilipel@OPENLINK.COM.BR)
Sun, 2 May 1999 04:29:40 -0300

Clique aqui para responder esta mensagem

At 19:34 01/05/99 -0400, Alvaro Neder wrote:
>-----Mensagem original-----
>De: Luis Filipe de Lima <lfilipel@OPENLINK.COM.BR>
>
>Puxa vida, Luis, estavamos indo tao bem rumo ao consenso, curtindo a
>Catacumba e o improviso bem feito por quem entende, e vc tinha que de novo
>trazer preconceitos e confusao ao desavisado, insinuando que o jazz eh um
>troço feito de escalas e virtuosismo vazio de melodia.

E' verdade, Alvaro, acho que nao fui suficientemente claro nesse sentido. E
olha que eu fiquei preocupado em nao reduzir o jazz - o verdadeiro jazz,
com suas inumeras vertentes - a uma especie de masturbacao musical, como
ja' foi dito aqui. Nao era essa minha intencao.

>Ha uma enorme carga de preconceitos contra o jazz no Brasil, que nao
>entendo. Para mim, eh uma forma de arte que deve ser estudada e apreciada ou
>simplesmente ignorada, e nao invejada ou agredida. Porisso, falar mal de
>jazz numa lista leiga eh garantia de sucesso. Vc pode ser apoiado, mas isso
>nao significa que a verdade prevaleceu. Apenas que a falta de informacao nao
>foi denunciada.

Ops! Mal-entendido de fato! De uma maneira geral, nao estava falando de
jazz, mas de seus subprodutos. Mesmo assim, nao quis ser "agressivo" ou
"invejoso". Se fui, sinceramente, nao percebi. Muito menos quero ser o dono
da verdade, nem estou ai' pra ser apoiado ou deixar de ser. Tampouco quis
tirar onda de que sou expert no assunto. Revendo minha msg, vejo que queria
apenas fazer uma distincao entre a maneira de improvisar caracteristica do
choro e a do jazz, sem jamais entrar em juizo de valores.

>Digo que sua msg esta cheia de preconceitos e inverdades.

Em um so' paragrafo? Puxa, nao sabia que tinha todo esse poder de sintese...

>Nao pretendo perder mais tempo para quixotescamente tentar mudar a ideia
errada
>de todo brasileiro em relacao ao jazz. Vou responder aa sua msg para mostrar
>suas inconsistencias, mas daqui pra frente quando ouvir aqui falacias em
>relacao ao jazz baseadas no seu desconhecimento vou falar apenas "Falar
>bobagem sobre jazz onde ninguem entende eh facil. Em terra de cego quem diz

>que tem um olho eh rei. Procure discutir em grupos apropriados e ver se voce
>consegue provar seus pontos de vista".

Ih, o cara, ai'! Vamos nessa:

>Ponto no.1 - A piada eh engracada, embora eu ja a conhecesse.

Prenda, Alvaro: uma coisa nada tem a ver com outra!

>No entanto,
>tentar dizer ou insinuar que o cara que toca milhoes de notas sem encontrar
>as certas eh o jazzista por definicao, eh bobagem.

Voce entendeu errado. Pelo menos pra mim, essa anedota nao se refere ao
jazzista ou ao nao-jazzista. Como vc mesmo disse, improvisar (tocando
muitas notas ou nao) nao tem nada necessariamente a ver com jazz. A
historieta pretende fazer uma distincao entre o "bom" e o "mau" musico ou,
pelo menos, entre aquele que domina plenamente seus meios de expressao e
aquele outro que recorre a frases de efeito e formulas prontas, mesmo que
com tecnica e virtuosismo. E' tb um pouco a diferenca entre o cara que
"joga pro time" e o que "joga pra galera".

>Ponto no.2 - Depois e antes se falou (muitissimo mal) da Berklee, ecoando
os preconceitos desinformados e nao->originais que ouco ha 20 anos. (...) A
Berklee tem o dominio de uma incrivel tecnologia de ensino das >ferramentas
necessarias para o dominio da arte da improvisacao - quisera eu poder ir
hoje para la estudar, >quisera - o que nao garante por si a formacao de
grandes artistas feitos em serie.

Grandes artistas em serie? Claro que isso nao e' possivel! Todo grande
artista e' fora-de-serie, traz sua marca inconfundivel, influencia
geracoes. A questao e' a producao de musicos em serie, que fazem um som
padronizado. Aqui no Brasil vc identifica os musicos que estudaram em
Berklee. E, por outro lado, basta ligar o radio e ouvir Madonna, Michael
Jackson ou qualquer megastar do pop, vai estar tudo la': teclado, sax,
guitarra, baixo, bateria, os mesmos timbres, escalas, harmonias - em suma,
um som padrao que e' vendido para todo o mundo. Antes que vc fique mais
brabo comigo: isso nada tem a ver com jazz, evidente!!! Mas sai de Berklee.
E de outras escolas americanas, e ainda de outras escolas espalhadas mundo
afora que reproduzem o modelo das primeiras. Aqui a gente volta 'a
discussao da world music. Voce tem samba, salsa, baiao, juju music, frevo,
morna, tudo tocado nessa formacao "baixo-bateria-guitarra-teclado". Vc vai
ao Japao, 'a India, a Madagascar, 'as Guianas, e ouve musica pop cantada
nas mais diferentes linguas. Existe uma especie de sotaque pop comum a
todas essas formas de musica. Ok, pode ate' ser legal. Mas, sabemos,
existem outras musicas para alem dessas fronteiras.

Nao acho a Berklee um laboratorio macabro de automatos musicais. Alias,
meus comentarios 'a instituicao nao sao tao particulares assim, se reportam
a todo um padrao musical, da qual Berklee e' expoente. E sem xiitismo ou
xenofobia, nem de longe sou disso! Com certeza, ha' gente talentosa e
competente la', muita coisa interessante tambem, a comecar pela "tecnologia
de ensino das ferramentas necessarias para o dominio da arte da
improvisacao". O problema nao e' Berklee, mas a massificacao desse som. Que
muitas vezes valoriza a performance em detrimento da sensibilidade e da
compreensao organica de um estilo. Dai' surgem os compendios de escalas,
cliches, fraseologias. Voce vai estudar o ataque da segunda colcheia da
frase que o Chet Baker fez, pra tentar fazer que nem ele. Vai ter o sampler
com o timbre da guitarra de fulano ou beltrano.

Isso tem muito a ver com o espirito americano de mapear, classificar e
analisar o que encontra pela frente, de modo bem pragmatico - aqui nao vai
nenhum preconceito, for heaven's sake! Afinal, os caras preferem tudo
mastigado. A gente prefere entrar no botequim, ficar horas, dias, meses e
anos frequentando as rodas de choro, ouvindo quem ja' sabe, pra ver se
consegue aprender algum negocio. Bem coisa de subdesenvolvido, ne', Alvaro?
Tadinho do nosso chorinho, tao simplezinho, nunca se dignaram a escrever um
metodozinho sequer de improvisacao pra ele. Nao existe um dicionario de
frases de bandolim ou de flauta, de levadas de violao (bom, esse o Mauricio
Carrilho ja' fez e esta' pra lancar), de cliches de sete-cordas (esse eu
estou comecando a fazer, junto com o Jorge Simas). So' agora comecam a
surgir teses e pesquisas academicas que estudam o choro e generos populares
brasileiros, fora do ambito do folclore e da etnomusicologia. Por que
sera'? Porque somos "atrasados"? Ou porque nossas necessidades estao
mudando, de acordo com uma nova mentalidade em termos de musica brasileira,
influenciada pela pop music, por Berklee, pela internet, pelo Terceiro
Milenio e o escambau?

Alvaro citou Luis Filipe:
><... (o improviso no choro) nao se trata de uma sucessao
>de escalas e frases de efeito (muitas vezes genialissimas, como fazem os
>craques do jazz) desvinculadas do tema, a nao ser pela harmonia comum.>

E descascou:
>Mais uma vez, veicular outra vez a ideia errada que o jazz consiste em
>recursos de tecnica como escalas, arpejos ou frases "de efeito"
>pre-decoradas jogadas em qualquer contexto eh falacioso. Quem faz isso eh
>mediocre.

De fato, Alvaro, fui apressado, dei a entender que o improviso do jazz so'
se consititui de sucessoes de escalas e frases "de efeito" - este, um termo
que sempre acaba soando pejorativo. Sei que nao e' isso. Mas quis marcar a
diferenca entre um tipo de improviso baseado na variacao melodica (o do
choro) e outro quase sempre desligado do tema (o do jazz). Ou estou falando
bobagem?

>E quando se fala em jazz, NUNCA se fala nos mediocres.

Luis Filipe esta' respondendo, ajoelhado no milho:
- Perdao, Mestre, jamais cometerei novamente esse erro!

>Faco um dramatico apelo aos colegas e amigos tribuneiros: por favor, NAO
>falem mais de jazz aqui. Aqui nao eh o forum adequado para isso. Dirijam-se
>a um forum de alto nivel no assunto (obviamente em lingua estrangeira). La
>voces terao a medida de seu conhecimento pessoal, quando discutirem com
>pessoas que realmente ouvem jazz apaixonadamente, diariamente, como loucos,
>ha 25 anos. Assim voces poderao verificar se conseguem provar a quem
>REALMENTE ENTENDE se suas teorias estao corretas. Ou quem sabe se defrontar
>pela primeira vez na vida com um universo altamente complexo por um lado,
>extremamente intuitivo de outro, ate entao totalmente desconhecido.

Aproveita e manda uns enderecos legais na area do jazz. Sobre samba so'
conheco uma lista de discussao alem dessa, mesmo assim fala de escolas de
samba. Sobre choro, que eu saiba, so' existe nossa modesta Tribuna, em toda
a face do planeta. E a gente num entende direito desse negocio, nao... :-))

>Para terminar, destaquei do site da Berklee uma relacao de alguns de seus
>ex-alunos. Para se ter uma ideia de sua espantosa arte e criatividade, eh
>mais uma vez necessario ter conhecimento de jazz, mas considero minha funcao
>cumprida. Antes, alguns brasileiros: Hermeto Pascoal, Ricardo Silveira,
>Pascoal Meirelles, Claudio Roditi (dos que lembro de cabeça).

Os tres ultimos sao excelentes musicos. Mas da' pra reconhecer, eles
passaram por Berklee. Questao de estilo. O Pascoal, grande baterista, ainda
tem um som mais "brasileiro". Agora, em sa consciencia: da' pra dizer que
Hermeto deve sua formacao a uma escola de musica nos Estados Unidos (com
todo o respeito)?

Da lista que vc enviou, destaco o Quincy Jones (o Rildo Hora dos ricos...
hehe), veterano arranjador e produtor de um sem-numero de megapopstars. Nos
podemos jamais ter ouvido craques como Branford Marsalis, Joe Zawinul e Al
di Meola. Mas qual de nos ja' nao teve seus ouvidos invadidos pelos
decibeis de Madonna e Michael Jackson, so' pra ficar com esses dois pupilos
de Quincy Jones?

Ok, Alvaro. E' legal discutir com vc, um cara sempre ponderado, articulado
e com bons argumentos. Mas, assim como fui um tanto apressado na minha msg,
acho que vc exagerou um pouco na sua resposta. De qualquer jeito, da' pra
ver que vc e' absolutamente tarado por jazz, ja' cai de pau no primeiro
deslize do incauto. Queria ver era vc mandado uma msg pro Cid Benjamin,
aqui da lista, sacaneando o nosso Mengao. Ias ter que aturar uma resposta
do triplo do tamanho da sua... :-)

Aproveito e agradeco em aberto sua msg particular, em que vc esclarece que
nossa discussao nao tem nenhum carater pessoal. Elegantissimo, como sempre!

Bom, espero ter tornado claros meus pontos-de-vista. A jazz o que e' de
jazz...

[]s,
Filipe