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Cotidiano (Cotidiano)
Chico Buarque/1971
Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã
Todo dia ela diz que é pra eu me cuidar
E essas coisas que diz toda mulher
Diz que está me esperando pro jantar
E me beija com a boca de CAFÉ
Todo dia eu só penso em poder parar
Meio dia eu só penso em dizer não
Depois penso na vida pra levar
E me calo com a boca de feijão
Seis da tarde como era de se esperar
Ela pega e me espera no portão
Diz que está muito louca pra beijar
E me beija com a boca de paixão
Toda noite ela diz pra eu não me afastar
Meia-noite ela jura eterno amor
E me aperta pra eu quase sufocar
E me morde com a boca de pavor
Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã
O malandro
Kurt Weill - Bertolt Brecht -
versão livre de Chico Buarque/1977-1978
Para a peça Ópera do malandro, de Chico Buarque
O malandro/Na dureza
Senta à mesa/Do CAFÉ
Bebe um gole/De cachaça
Acha graça/E dá no pé
O garçom/No prejuízo
Sem sorriso/Sem freguês
De passagem/Pela caixa
Dá uma baixa/No português
O galego/Acha estranho
Que o seu ganho/Tá um horror
Pega o lápis/Soma os canos
Passa os danos/Pro distribuidor
Mas o frete/Vê que ao todo
Há engodo/Nos papéis
E pra cima/Do alambique
Dá um trambique/De cem mil réis
O usineiro/Nessa luta
Grita (ponte que partiu)
Não é idiota/Trunca a nota
Lesa o Banco/Do Brasil
Nosso banco/Tá cotado
No mercado/Exterior
Então taxa/A cachaça
A um preço/Assustador
Mas os ianques/Com seus tanques
Têm bem mais o/Que fazer
E proíbem/Os soldados
Aliados/De beber
A cachaça/Tá parada
Rejeitada/No barril
O alambique/Tem chilique
Contra o Banco/Do Brasil
O usineiro/Faz barulho
Com orgulho/De produtor
Mas a sua/Raiva cega
Descarrega/No carregador
Este chega/Pro galego
Nega arreglo/Cobra mais
A cachaça/Tá de graça
Mas o frete/Como é que faz?
O galego/Tá apertado
Pro seu lado/Não tá bom
Então deixa/Congelada
A mesada/Do garçon
O garçon vê/Um malandro
Sai gritando/Pega ladrão
E o malandro/Autuado
É julgado e condenado culpado
Pela situação.
Se eu fosse o teu patrão
Chico Buarque 1977-1978
Para a peça Ópera do malandro, de Chico Buarque
Os homens cantam:
Eu te adivinhava
E te cobiçava
E te arrematava em leilão
Te ferrava a boca, morena
Se eu fosse o teu patrão
Ai, eu te tratava
Como uma escrava
Ai, eu não te dava perdão
Te rasgava a roupa, morena
Se eu fosse o teu patrão
Eu te encarcerava
Te acorrentava
Te atava ao pé do fogão
Não te dava sopa, morena
Se eu fosse o teu patrão
Eu te encurralava
Te dominava
Te violava no chão
Te deixava rota, morena
Se eu fosse o teu patrão
Quando tu quebrava
E tu desmontava
E tu não prestava mais, não
Eu comprava outra morena
Se eu fosse o teu patrão
As mulheres cantam:
Pois eu te pagava direito
Soldo de cidadão
Punha uma medalha em teu
peito
Se eu fosse o teu patrão
O tempo passava sereno
E sem reclamação
Tu nem reparava, moreno
Na tua maldição
E tu só pegava veneno
Beijando a minha mão
Ódio te brotava, moreno
Ódio do teu irmão
Teu filho pegava gangrena
Raiva, peste e sezão
Cólera na tua morena
E tu não chiava não
Eu te dava CAFÉ pequeno
E manteiga no pão
Depois te afagava, moreno
Como se afaga um cão
Eu sempre te dava esperança
De um futuro bão
Tu me idolatrava, criança
Se eu fosse o teu patrão
Linha de montagem
Novelli - Chico Buarque/1980
Linha linha de montagem
A cor a coragem
Cora coração
Abecê abecedário
Opera operário
Pé no pé no chão
Eu não sei bem o que seja
Mas sei que seja o que será
O que será que será que se veja
Vai passar por lá
Pensa pensa pensamento
Tem sustém sustento
Fé CAFÉ com pão
Com pão com pão companheiro
Pára paradeiro
Mão irmão irmão
Na mão, o ferro e ferragem
O elo, a montagem do motor
E a gente dessa engrenagente
Dessa engrenagente
Dessa engrenagente
Dessa engrenagente sai maior
As cabeças levantadas
Máquinas paradas
Dia de pescar
Pois quem toca o trem pra frente
Também de repente
Pode o trem parar
Eu não sei bem o que seja
Mas sei que seja o que será
O que será que será que se veja
Vai passar por lá
Gente que conhece a prensa
A brasa da fornalha
O guincho do esmeril
Gente que carrega a tralha
Ai, essa tralha imensa
Chamada Brasil
Samba samba são Bernardo
Sanca são Caetano
Santa santo André
Dia-a-dia diadema
Quando for, me chame
Pra tomar um mé
Tereza tristeza
Chico Buarque/1965
MPB 4 - ELENCO
Oh Tereza essa tristeza
Não tem solução
Tire o meu lugar da mesa
Não me espere não
Não vou, não
Ao menos sou sincero
Que te adoro
Que te quero
Mas não passo bem sem carnaval
Não
Oh Tereza essa tristeza
Não tem solução
Ser mulher é muito mais
Do que pregar botão
Não vê não
Que o homem quando é homem
Passa frio passa fome
Mas não bem sem desse carnaval
Diz que não tem CAFÉ
Diz que não tem feijão
Nem sandália pro pé
Nem aliança pro dedo da mão
Oh Tereza
É tão pouca tristeza
Tem gente que nem carnaval
Não tem não
Alô, liberdade
Enriquez - Bardotti - Chico Buarque/1981
Para o filme Os Saltimbancos trapalhões
Alô, liberdade
Desculpa eu vir
Assim sem avisar
Mas já era tarde
E os galos tão
Cansados de cantar
Bom dia, alegria
A minha companhia
Vai cantar
Sutil melodia
Pra te acordar
Quem vai querer tocar trombeta
Pem pererém pererém
Pempem
Quem vai querer tocar matraca
Tracatracatraca
Tracatraca
Quem vai de flauta e clarineta
Fi firiri
Firiri fifi
Quem é que vai de prato e faca
Taca cheque taca
Chequetaca checá
Quem vai querer sair de banda
Pan pararan
Pararan panpan
Hoje a banda sairá
Alô, liberdade
Levanta, lava o rosto
Fica em pé
Como é, liberdade!
Ah, dona liberdade...
Vou ter que requentar
O teu CAFÉ
Bom dia, alegria
A minha companhia
Vai cantar
Em doce harmonia
Pra te alegrar
Quem vem com a boca no trombone
Pom pororom pororom pompom
Quem vem com a bossa no pandeiro
Chá carachá carachá chachá
E quem só toca telefoneTrim tiririm
Tiririm trintrim
E quem só canta no chuveiro
Trá tralalá tralalá lalá
Quem vai querer sair na banda
Pan pararan
Pararan panpan
Hoje a banda sairá
Ah, sairá, sairá, sairá
Laiaralaialaialaiá
Hoje a banda sairá