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Saiu no O Globo de hoje:
Batuquinho bom
Braulio Neto e João Pimentel
Quando Paulinho da Viola reuniu, em 1969, os bambas da sua escola
de coração para criar a Velha Guarda da Portela, Chico Santana -
autor do hino da azul-e-branca de Madureira - fez um samba
exaltação para o grupo que serviria de exemplo aos compositores
de outras escolas: "Estamos aí, como vocês estão vendo/ Estamos
velhos mas ainda não morremos".
Agora, 30 anos depois, o cetro da Velha Guarda passa para as mãos
de Marisa Monte. Só que desta vez, a voz feminina mais importante
surgida no Brasil nos últimos dez anos, trocou de lado. Em vez
dos microfones, como produtora, Marisa pilota a mesa de som do
estúdio Mega, no Humaitá, registrando 12 músicas, além de seis
vinhetas, quase todas inéditas, compostas por membros da escola
nos últimos 60 anos.
- Sempre tive vontade e achei que essa era a hora de gravar,
buscando relíquias do fundo do baú da Velha Guarda. Quase todos
esses compositores marcaram época na escola nas décadas de 40 e
50 mas são pouco conhecidos do grande público, como Alvarenga,
Alvaiade, Ventura e Chico Santana - diz Marisa, referindo-se ao
grupo formado por nove cantores/instrumentistas e quatro cantoras
(pastoras).
Para Argemiro, que divide com Marisa a faixa "Volta meu amor"
(Manacéa e Áurea Maria), o CD veio em boa hora: celebra os 30
anos do grupo e quebra um silêncio de quase dez anos:
- Estávamos sem gravar desde 1990. Temos ainda muita coisa para
fazer e a Marisa abriu, mais uma vez, a porta para a gente
entrar.
Como uma porta-bandeira, Marisa não quer ver sua escola perder a
evolução. Principalmente, a do tempo. O disco, que terá suas
mixagens encerradas na próxima semana, ainda depende de dois
projetos paralelos para sair.
Autor de uma monografia sobre o portelense Candeia intitulada
"Luz da inspiração", João Batista Varzens está transcrevendo com
Carlos Monte, pai da cantora e diretor da Portela na década de
70, a história da Velha Guarda para um livro. E a Conspiração
Filmes prepara um documentário sobre a gravação do disco e a
importância histórica da entidade.
- Por isso, só defino a data quando puder articular um triplo
lançamento. A repercussão será maior e a Velha Guarda merece isso
e muito mais - diz Marisa que, em junho, voltará ao estúdio,
desta vez para gravar seu novo CD, dois anos depois de lançar
"Barulhinho bom".
Apesar de contar com participações de Paulinho, Zeca Pagodinho,
Cristina Buarque e da própria Marisa, o disco é antes de tudo da
Velha Guarda da Portela. Respeitando a cadência e a levada de
violão e cavaquinho característica da escola, o diretor musical
Paulão explica que os convidados foram sutis:
- Este é um disco que vai servir de referência para quem se
interessar pelo ritmo original da Portela. O surdo, o pandeiro e
os demais instrumentos estão bem equilibrados, como eram nos
sambas da antiga. A própria Marisa se mistura com as pastoras em
uma da vinhetas que entremeiam as faixas principais do disco.
A admiração de Marisa pelas pastoras vem de longe. Desde que
Doca, Surica e Eunice participaram de "Ensaboa", de Cartola, no
seu segundo CD, "Mais", e serviram de elo com a Velha Guarda.
Marisa explica que, além de exercerem funções como a de cuidar da
roupa, da saúde dos bambas e da produção dos shows, a opinião das
pastoras sempre foi fundamental para o futuro dos sambas:
- Segundo os compositores mais antigos, um samba de terreiro só
acontecia na quadra quando era aprovado por elas - conta.
O disco que Marisa está produzindo tem mais curiosidades, como a
do samba "Corri pra ver". A primeira parte foi escrita por Chico
Santana em 1953 e o refrão só agora foi completado, por Monarco e
Casquinha, já dentro do estúdio. O harmônico resultado prova que
a Velha Guarda não mudou.
Marisa adiou a gravação de seu disco: ‘Paro minha vida, pois amo
o projeto’
Um dos méritos desse disco é registrar um acervo sonoro que
poderia se perder com o tempo. O samba de terreiro, que se
perpetuava nas quadras das escolas com a apresentação de músicas
da ala de compositores de cada agremiação, junto à comunidade, é
uma tradição que se perdeu devido à comercialização do carnaval.
Atualmente, o que vale é o samba-enredo que vai chegar à avenida.
Apinhado por autores e ralo em elaboração.
- Isso era uma coisa comum - diz Monarco, espécie de memória viva
da Velha Guarda. - O samba de terreiro era apresentado antes dos
ensaios. Mas o negócio agora é faturar. Os diretores de escola
baniram essa tradição da quadra, que permanece forte nos discos
de Martinho da Vila, Zeca Pagodinho e Paulinho da Viola.
Empolgada com o andamento do disco da Velha Guarda, Marisa, que
tem assinado a produção de seus discos com Arto Lindsay e no ano
passado produziu o segundo CD de Carlinhos Brown, entra em
estúdio em junho para gravar seu novo trabalho.
- Para eu dar uma parada na minha vida tem de ser em algo que eu
ame muito - diz Marisa, que andou compondo com Arnaldo Antunes e
Brown para seu próximo disco, além de fazer parcerias com Moraes
Moreira e estar de olho no novato e talentoso Lucas Santana.
Mas ela não descarta que pérolas descobertas na pesquisa para o
disco da Velha Guarda entrem neste disco. A cantora, mais dois
pesquisadores, levantaram mais de 200 músicas até chegarem a 40,
segundo Marisa, ótimas. Ficaram 12 mais as vinhetas. A história
musical da Velha Guarda é muito grande.
- A Velha Guarda representa uma característica da escola que é a
da fidalguia, da socialização, herança que vem dos tempos do
Paulo da Portela - pontua o escritor João Batista Varzens. - Eu
me lembro que existia uma feira na Rua Adelaide Badajós, em
Oswaldo Cruz, onde os compositores se encontravam para discutir o
preço da batata, do chuchu e mostrar os sambas novos. Os peixes
eram deixados na geladeira e a reunião só acabava às 15h, quando
saía o resultado do jogo do bicho - lembra o biógrafo, cidadão de
Oswaldo Cruz, ninho da águia azul-e-branca.
Marisa acertou a produção do disco depois de seu primeiro desfile
pela escola, na Sapucaí, no carnaval desse ano. De lá para cá foi
feito o trabalho de pesquisa, ensaios, pré-produção e na hora de
gravar tudo rápido.
- Tive de aprimorar meu trabalho para gravá-los - revela o
engenheiro de som Márcio Gama. - Aquele senhor (aponta Argemiro)
no pandeiro tem uma leveza que desconhecia.
A Conspiração Filmes visitou Madureira esta semana, registrando a
trupe in loco.
- A nossa idéia é registrar a atmosfera em que essas pessoas
vivem, contando a história das músicas que estão sendo gravadas -
revela Lula Buarque que, junto com Carol Jabor, está dirigindo um
documentário sobre o trajeto para gravação do disco.
Aliás, uma coisa ninguém discute: atrito durante a gravação do
disco só o da cuíca.
- O Casemiro é nosso reloginho, sempre encarnamos nele - brinca
Monarco, traduzindo a expressão: - Relógio serve pra gente fazer
hora.
Repertório e autores
"Você me abandonou": Alberto Lonato/1946
"O mundo é assim": Alvaiade/1970
"Noite que tudo esconde": Alvaiade e Chico/1952
"Sabiá cantou": Alvarenga/1948
"Falsas juras": Casquinha e Candeia/1953
"Benjamin": Josias/1954
"Corri pra ver": Chico, Monarco e Casquinha/1953
"Nascer e florescer" (1952); "Sempre teu amor" (1948): Manacéa
"Volta meu amor": Manacéa e Áurea Maria/ 1961/82
"Lenço": Monarco e Chico Santana/ 1954
"Tudo azul": Ventura/1949
Luciano Prado de Oliveira
São Francisco do Sul - SC
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