JB: Tesouro dos ancestrais (com letras)

Daniella Thompson (daniv@jps.net)
Fri, 30 Apr 1999 23:20:03 -0700

Clique aqui para responder esta mensagem

Jornal do Brasil
Sábado, 1º de maio de 1999

Tesouro dos ancestrais

Marisa Monte finaliza disco com a
Velha Guarda da Portela que reúne músicas inéditas

PAULO VASCONCELLOS

Foto de Evandro Teixeira

Eunice Fernandes da Silva caia pelas tabelas mal a noite de quarta-feira havia
começado. Mulata franzina de 76 anos, óculos comportados e cabelos curtos que a
deixam um sambódromo de distância do figurino de tia do samba, ela não se
aguentava de cansaço aboletada na cadeira do estúdio Maga, no Humaitá. Eram só
oito horas da noite, mas cochilou. Desde o começo do mês, a pastora e outros 12
integrantes da Velha Guarda da Portela vinham se submetendo à batuta rígida de
Marisa Monte: ensaiaram horas a fio durante duas semanas na casa da cantora, na
Gávea, e enfrentaram seis dias de gravações na produção do quarto e mais
requintado disco do grupo. Vai se chamar Tudo azul. É o título da música
composta em 1948 por Ventura que amargava meio século de ineditismo. Como ela,
cinco das 18 músicas reunidas em 12 faixas jamais foram gravadas. Oito só não
têm o carimbo da exclusividade porque já tinham sido registradas por gente como
Cristina Buarque de Holanda e Pedrinho da Flor, embora apenas ouvidos
privilegiados lembrem disso. Todas são de autores portelenses. Eram obras
condenadas a desaparecer junto com o tênue fio de memória dos ancestrais do
samba. O disco é a redenção.

"Estou feliz", disse Eunice, entre um bocejo e outro. "Foi o disco da Velha
Guarda feito com mais carinho", reforçou Jiussara Cruz, a Tia Doca, pastora da
Portela que aos 66 anos mantém nas noites de domingo o pagode mais tradicional
da cidade num terreiro em Madureira. "É lindo", exclamou Jair do Cavaquinho, o
único dos fundadores da escola de samba ainda vivo. "Eram pérolas perdidas no
tempo", endossou Monarco. "Para mim foi um estágio com os bambas", reconheceu
Marisa Monte.

O disco, a bem da verdade, ainda não saiu do forno. Na semana que vem Paulinho
da Viola entra em estúdio para pôr sua voz cristalina em Noite que tudo esconde.
A composição foi feita em 1952 por Alvaiade e Chico Santana. Tinha sido
registrada em vinil num disco da Coleção Marcus Pereira. Monarco divide o solo
com Paulinho. Zeca Pagodinho também vai gravar uma participação. Cantará Lenço.
Talvez seja a música mais conhecida do repertório. É de 1957. Foi composta por
Chico Santana e Monarco. A voz guia da Velha Guarda da Portela já deixou a sua
interpretação gravada à espera do adendo sonoro de Zeca Pagodinho.

Marisa Monte dá uma canja em Volta meu amor, puxada por Argemiro. A primeira
parte, composta por Manacéa em 1968, foi gravada antes por Zeca Pagodinho, mas a
versão completa, com a segunda parte feita por Áurea Maria, filha do patriarca
portelense e a mais jovem das quatro pastoras da escola, só agora ganha
registro. Em duas semanas Tudo azul deve estar remasterizado a espera da capa e
do encarte. A produtora negocia uma gravadora para lançar o compacto com a
paciência de quem sabe ter nas mãos uma jóia rara.

O repertório revela preciosidades. A inédita Nascer e florescer, de Manacéa, de
1954/1955, cantada por Monarco, transborda em sentimentalismo: "Não tenho
ambição neste mundo, não/Mas sou rico, da graça de Deus/Tenho em minha vida um
amor de valor/É meu tesouro encantador/Sei que reclamas em vão/Porque não tens
compreensão/Que o mundo é bom/Para quem sabe viver/E se conforma com o que Deus
lhe dá/A nossa vida é nascer e florescer/Para mais tarde morrer."

A lista de inéditas inclui ainda Corri pra ver, de Chico Santana, Monarco e
Casquinha, de 1953, Falsas juras, de Casquinha, de 1953, puxada pelo autor, e
Benjamin brigou com a Guiomar, de Josias, de 1954. Jair do Cavaquinho interpreta
Sabiá cantador, de Alvarenga, uma relíquia antiga de 1948 como Tudo azul, que dá
título ao disco.

Uma letra primorosa adorna O mundo é assim. A música que Alvaiade compôs em 1968
e saiu em disco da Portela da Coleção Marcus Pereira ganha força com a nova
roupagem dada pelas vozes de Monarco e Argemiro para versos como "O mundo se
renova todo dia/Eu envelheço cada dia e cada mês". Sempre teu amor, de Manacéa,
e Você me abandonou, de Alberto Lonato completam as faixas.

Mas não é só. Seis vinhetas se misturam às músicas como enfeite. Minha vontade,
que o veterano Chatim compôs em 1952, é levado pelas pastoras à capela. Eu te
quero ainda, música de 1964 de Jair e Colombo, abre espaço mais uma vez para a
voz de Jair. Tentação, de Casemiro e Ramon Russo, é embalada pela voz e cuíca de
Casemiro. Casquinha faz show cantando e tirando sons inimagináveis de um saco
plástico de supermercado em Vem amor que compôs em 1956. Jair volta com Monarco
na versão reduzida de Portela desde que nasci, que Monarco compôs em 1962, e
David do Pandeiro saca seu instrumento e voz na vinheta Vai saudade, feita em
1964 em parceria com Candeia.

"A Portela é uma reserva musical. O disco é quase que um trabalho ecológico",
orgulha-se Marisa Monte. Aluna aplicada, ela deu a partida ao projeto logo
depois do carnaval. Abastecida por pesquisas de Emílio Domingues e Suzana
Mekler, que preparam o roteiro de um documentário sobre a escola de samba para a
Conspiração Filmes, a cantora e produtora reuniu os 13 integrantes da Velha
Guarda em sua casa na Gávea em quatro fins de semana para sessões que renderem
20 horas de fitas gravadas. Às vezes, o nome de um compositor servia para puxar
o fio da meada da memória dos sambistas. Em outras, um verso servia de estopim
para reabilitar uma obra inteira.

Sobrou uma lista de 350 músicas. Marisa começou eliminando as que já tinham
saído nos outros discos da Velha Guarda, tirou as que tinham sido popularizadas
por gente como Beth Carvalho e Paulinho da Viola, filtrou um pouco mais e chegou
as dezoito selecionadas com alguma dor no coração. Para enquadrar a indolência
portelense, traçou um cronograma rígido de ensaios e gravações e pagou R$ 1 mil
a cada um a título de adiantamento de direitos autorais. Chegou ao detalhe de
alugar uma Van para ir buscá-los diariamente na escola de samba. Quando a coluna
Registro do JORNAL DO BRASIL deu em primeira mão que ela estava produzindo um
disco da Velha Guarda, chamou os treze e pediu silêncio sobre o projeto. Cansou
os velhinhos, mas eles retribuem com nobreza de sambistas. Na quarta-feira
levaram a ela um jogo de chá chinês. Na quinta, preparam-lhe uma festa na casa
de Manacéa, em Madureira. Ontem, lhe ofereceram carne com quiabo regado a mais
pagode na casa da pastora Surica no subúrbio da Central. "É um trabalho de
amor", encerra, feliz, a cansada Eunice.

Raridades

O mundo é assim

Alvaiade - 1968 - inédita

O dia se renova todo dia

Eu envelheço cada dia e cada mês

O mundo passa por mim todos os dias

Enquanto eu passo pelo mundo uma vez

A natureza é perfeita

Não há quem possa duvidar

A noite é o dia que dorme

O dia é a noite ao despertar

Nascer e florescer

Manacéa - 1954/1955 - inédita

Não tenho ambição neste mundo, não

Mas sou rico, da graça de Deus

Tenho em minha vida um amor de valor

É meu tesouro encantador

Sei que reclamas em vão

Porque não tens compreensão

Que o mundo é bom

Para quem sabe viver

E se conforma com o que Deus lhe dá

A nossa vida é nascer e florescer

Para mais tarde morrer

Noite que tudo esconde

Alvaiade/Chico Santana - 1952 - inédita

Noite que tudo esconde

Onde está o meu amor

Estou cansado de procurar

Mas não há meio de encontrar (Oh! noite)

Noite que tudo esconde, por favor

Devolva meu primeiro amor

A noite foi-se embora, veio o dia

Levando minha alegria

Deixando comigo a dor

Hoje só me resta a nostalgia

Canto neste melodia

Mais um drama de amor (Oh! noite)