O Globo: Batuquinho bom

Daniella Thompson (daniv@jps.net)
Fri, 30 Apr 1999 23:11:46 -0700

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O Globo
1 de maio de 1999

Batuquinho bom

Braulio Neto e João Pimentel
Foto de Camilla Maia

Quando Paulinho da Viola reuniu, em 1969, os bambas da sua escola de coração
para criar a Velha Guarda da Portela, Chico Santana - autor do hino da
azul-e-branca de Madureira - fez um samba exaltação para o grupo que serviria
de exemplo aos compositores de outras escolas: "Estamos aí, como vocês estão
vendo/ Estamos velhos mas ainda não morremos".

Agora, 30 anos depois, o cetro da Velha Guarda passa para as mãos de Marisa
Monte. Só que desta vez, a voz feminina mais importante surgida no Brasil nos
últimos dez anos, trocou de lado. Em vez dos microfones, como produtora, Marisa
pilota a mesa de som do estúdio Mega, no Humaitá, registrando 12 músicas, além
de seis vinhetas, quase todas inéditas, compostas por membros da escola nos
últimos 60 anos.

- Sempre tive vontade e achei que essa era a hora de gravar, buscando relíquias
do fundo do baú da Velha Guarda. Quase todos esses compositores marcaram época
na escola nas décadas de 40 e 50 mas são pouco conhecidos do grande público,
como Alvarenga, Alvaiade, Ventura e Chico Santana - diz Marisa, referindo-se ao
grupo formado por nove cantores/instrumentistas e quatro cantoras (pastoras).

Para Argemiro, que divide com Marisa a faixa "Volta meu amor" (Manacéa e Áurea
Maria), o CD veio em boa hora: celebra os 30 anos do grupo e quebra um silêncio
de quase dez anos:

- Estávamos sem gravar desde 1990. Temos ainda muita coisa para fazer e a
Marisa abriu, mais uma vez, a porta para a gente entrar.

Como uma porta-bandeira, Marisa não quer ver sua escola perder a evolução.
Principalmente, a do tempo. O disco, que terá suas mixagens encerradas na
próxima semana, ainda depende de dois projetos paralelos para sair.

Autor de uma monografia sobre o portelense Candeia intitulada "Luz da
inspiração", João Batista Varzens está transcrevendo com Carlos Monte, pai da
cantora e diretor da Portela na década de 70, a história da Velha Guarda para
um livro. E a Conspiração Filmes prepara um documentário sobre a gravação do
disco e a importância histórica da entidade.

- Por isso, só defino a data quando puder articular um triplo lançamento. A
repercussão será maior e a Velha Guarda merece isso e muito mais - diz Marisa
que, em junho, voltará ao estúdio, desta vez para gravar seu novo CD, dois anos
depois de lançar "Barulhinho bom".

Apesar de contar com participações de Paulinho, Zeca Pagodinho, Cristina
Buarque e da própria Marisa, o disco é antes de tudo da Velha Guarda da
Portela. Respeitando a cadência e a levada de violão e cavaquinho
característica da escola, o diretor musical Paulão explica que os convidados
foram sutis:

- Este é um disco que vai servir de referência para quem se interessar pelo
ritmo original da Portela. O surdo, o pandeiro e os demais instrumentos estão
bem equilibrados, como eram nos sambas da antiga. A própria Marisa se mistura
com as pastoras em uma da vinhetas que entremeiam as faixas principais do
disco.

A admiração de Marisa pelas pastoras vem de longe. Desde que Doca, Surica e
Eunice participaram de "Ensaboa", de Cartola, no seu segundo CD, "Mais", e
serviram de elo com a Velha Guarda. Marisa explica que, além de exercerem
funções como a de cuidar da roupa, da saúde dos bambas e da produção dos shows,
a opinião das pastoras sempre foi fundamental para o futuro dos sambas:

- Segundo os compositores mais antigos, um samba de terreiro só acontecia na
quadra quando era aprovado por elas - conta.

O disco que Marisa está produzindo tem mais curiosidades, como a do samba
"Corri pra ver". A primeira parte foi escrita por Chico Santana em 1953 e o
refrão só agora foi completado, por Monarco e Casquinha, já dentro do estúdio.
O harmônico resultado prova que a Velha Guarda não mudou.

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Marisa adiou a gravação de seu disco: ‘Paro minha vida, pois amo o projeto’

Um dos méritos desse disco é registrar um acervo sonoro que poderia se perder
com o tempo. O samba de terreiro, que se perpetuava nas quadras das escolas com
a apresentação de músicas da ala de compositores de cada agremiação, junto à
comunidade, é uma tradição que se perdeu devido à comercialização do carnaval.
Atualmente, o que vale é o samba-enredo que vai chegar à avenida. Apinhado por
autores e ralo em elaboração.

- Isso era uma coisa comum - diz Monarco, espécie de memória viva da Velha
Guarda. - O samba de terreiro era apresentado antes dos ensaios. Mas o negócio
agora é faturar. Os diretores de escola baniram essa tradição da quadra, que
permanece forte nos discos de Martinho da Vila, Zeca Pagodinho e Paulinho da
Viola.

Empolgada com o andamento do disco da Velha Guarda, Marisa, que tem assinado a
produção de seus discos com Arto Lindsay e no ano passado produziu o segundo CD
de Carlinhos Brown, entra em estúdio em junho para gravar seu novo trabalho.

- Para eu dar uma parada na minha vida tem de ser em algo que eu ame muito -
diz Marisa, que andou compondo com Arnaldo Antunes e Brown para seu próximo
disco, além de fazer parcerias com Moraes Moreira e estar de olho no novato e
talentoso Lucas Santana.

Mas ela não descarta que pérolas descobertas na pesquisa para o disco da Velha
Guarda entrem neste disco. A cantora, mais dois pesquisadores, levantaram mais
de 200 músicas até chegarem a 40, segundo Marisa, ótimas. Ficaram 12 mais as
vinhetas. A história musical da Velha Guarda é muito grande.

- A Velha Guarda representa uma característica da escola que é a da fidalguia,
da socialização, herança que vem dos tempos do Paulo da Portela - pontua o
escritor João Batista Varzens. - Eu me lembro que existia uma feira na Rua
Adelaide Badajós, em Oswaldo Cruz, onde os compositores se encontravam para
discutir o preço da batata, do chuchu e mostrar os sambas novos. Os peixes eram
deixados na geladeira e a reunião só acabava às 15h, quando saía o resultado do
jogo do bicho - lembra o biógrafo, cidadão de Oswaldo Cruz, ninho da águia
azul-e-branca.

Marisa acertou a produção do disco depois de seu primeiro desfile pela escola,
na Sapucaí, no carnaval desse ano. De lá para cá foi feito o trabalho de
pesquisa, ensaios, pré-produção e na hora de gravar tudo rápido.

- Tive de aprimorar meu trabalho para gravá-los - revela o engenheiro de som
Márcio Gama. - Aquele senhor (aponta Argemiro) no pandeiro tem uma leveza que
desconhecia.

A Conspiração Filmes visitou Madureira esta semana, registrando a trupe in
loco.

- A nossa idéia é registrar a atmosfera em que essas pessoas vivem, contando a
história das músicas que estão sendo gravadas - revela Lula Buarque que, junto
com Carol Jabor, está dirigindo um documentário sobre o trajeto para gravação
do disco.

Aliás, uma coisa ninguém discute: atrito durante a gravação do disco só o da
cuíca.

- O Casemiro é nosso reloginho, sempre encarnamos nele - brinca Monarco,
traduzindo a expressão: - Relógio serve pra gente fazer hora.

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Repertório e autores

"Você me abandonou": Alberto Lonato/1946

"O mundo é assim": Alvaiade/1970

"Noite que tudo esconde": Alvaiade e Chico/1952

"Sabiá cantou": Alvarenga/1948

"Falsas juras": Casquinha e Candeia/1953

"Benjamin": Josias/1954

"Corri pra ver": Chico, Monarco e Casquinha/1953

"Nascer e florescer" (1952); "Sempre teu amor" (1948): Manacéa

"Volta meu amor": Manacéa e Áurea Maria/ 1961/82

"Lenço": Monarco e Chico Santana/ 1954

"Tudo azul": Ventura/1949

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