Re: [S&C] Texto de Hermano Vianna

Paulo Eduardo Neves (neves@email.com)
Fri, 30 Apr 1999 06:11:01 +0000

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helion povoa wrote:
>
> Paulo Neves escreveu, a proposito do artigo de Hermano Vianna:
>
> >> Desprezo a gêneros como axé e pagode revela o despreparo e a intolerância da mídia
>
> >> Condenação silenciosa
> >> HERMANO VIANNA
> >[corte]

> >>Há artistas que, por mais discos que vendam, por mais amados que sejam pela
> >> maioria da população brasileira, não "existem" para os editores da
> >> "Enciclopédia da Música Brasileira".
> >

Paulo:
> >Novamente nao ha' como discordar do Hermano. Se a Enciclopedia visa mapear a
> >musica brasileira como um todo, nao ha' porque deixar os grupos de sambanejo e
> >axe' de fora. Se tem Ronnie Von, nao tem porque nao ter Chiclete com Banana.
> >Parece mesmo discriminacao da grossa.
> --------------------------

Helion:
> Pera aih, Paulo. Discriminar, no bom sentido, eh fundamental para que se possa >fazer um trabalho de tipo enciclopedico. Senao, como eh que se faz? Entra tudo? E >o CD da Tiazinha?
>
> Ronnie Von, gostemos ou nao (e os inesqueciveis "Cavaleiro de Aruanda" e "Banda >da Ilusao"?) faz sucesso hah decadas, muito, muito antes de o Roberto nascer :-) >Entao tem que entrar mesmo. Mas nao sei se o Tcham vai ter essa permanencia >toda.... Quanto ao Chiclete com Banana, nao sei dizer.

E' este o problema de discutir com pessoas da sua idade:-) Ta' bom, entao eu
retiro o Ronnie Von da minha frase acima e o substituo pelo Gabriel o
"Pensador" (aspas minhas).

Continuo com meu ponto de vista. Nao disse que deveria entrar qualquer coisa
descartavel. Tiazinha nao sobrevive ao proximo verao. No entanto os musicos da
Bahia conseguiram uma coisa impressinante. Eles (com uma ajudar "oficial")
criaram
um mercado fonografico fora do eixo Rio-Sao Paulo. Para um artista baiano
fazer sucesso nao e' preciso se mudar para o Sul Maravilha como Joao Gilberto,
Gil, Caetano, Caymmi e Novos Baianos. O Chiclete com Banana, por exemplo, e'
um grupo de mais de 10 anos de carreira que grava disco todo ano. Como disse
na outra mensagem o Tchan, anteriormente conhecido como Gerasamba, e' tambem
um grupo com mais de 10 anos. O So' Pra Contrariar tem o disco que mais vendeu
em todos os tempos e tambem tem anos de estrada. Ao fazer uma enciclopedia que
mapeie a musica popular brasileira e' preciso inclui-los sim. Havera' nela
muito mais musica que nao gostamos alem deles.

> --------------
> >> O silêncio, na quase totalidade (não digo absoluta totalidade porque pode
> >> haver alguma voz discordante que desconheço) da mídia cultural tida como
> >> séria, se converte no mais raivoso ataque.

Ora, ora. O Roberto pesquisou em seus bookmarks e nos mandou um excelente link
para a pagina do So' Pra Contrariar. Na bem feita pagina pudemos nao so' ver
toda a "intelectualidade" que adora o SPC, como tambem ver um exemplo de voz
discordante que o Hemano desconhece. No endereco
http://www.sopracontrariar.com.br/historia/hist8.htm
voces podem ler a opiniao da mais lida revista semanal brasileira, a Veja. No
site o artigo, apesar de indicar que foi publicado na Veja, nao e' assinado.
Tambem nao deve te-lo sido na revista. Nenhum reporter teria que assinar este
lixo. Recomendo a todos a leitura completa, mas eis dois pequenos trechos:

"O grupo mudou o gosto da classe média brasileira, que antes ouvia gente como
João Gilberto e congêneres. Seria mais correto dizer que mudou a expectativa
das pessoas em relação aos produtos culturais. Por incrível que pareça, a
noção de entretenimento voltou a entrar em cena, passada a longa ressaca do
período ditatorial, quando as manifestações musicais e estéticas,
especialmente aquelas que faziam furor entre os bem pensantes, eram
predominantemente de cunho político."

e para completar:

"Agora, eles são produzidos e este é um dos motivos do sucesso entre um
público classe A. Goste-se ou não de pagode, o show do Só pra Contrariar é um
espetáculo digno de ser visto. O cantor Alexandre Pires chega ao palco a bordo
de um elevador iluminado, num efeito claramente inspirado no show do mago
David Copperfield. Os figurinos que a banda usa são baseados em moldes usados
pelas grandes estrelas da música romântica internacional. Os cenários, as
coreografias e a iluminação também têm matrizes em produções estrangeiras de
sucesso;"

Sugiro novamente a leitura da "reportagem" completa no link acima para que nao
digam que esta' fora de contexto. E' verdade que eles dizem que "adaptaram" o
texto, acredito que tenha sido apenas a inclusao de links no meio.

Com um "timing" perfeito com a nossa discussao e o link do Roberto. O Cadeno B
do JB publica hoje (quarta) uma otima entrevista com o cineasta Caca' Diegues.
A entrevista completa pode ser lida (hoje) em
http://www.jb.com.br/cadernob.html
Novamente daqui tirarei um trecho:

"JB - É preciso algum tempo para que seus filmes sejam
reconhecidos?

CD - Disseram que By by Brasil não refletia o país verdadeiro e
que eu não tinha tido coragem de fazer a crítica da televisão.
Depois me acusaram de racista e de ter transformado a história do
Brasil em chanchada com Xica da Silva. Meus filmes sempre
provocam uma certa irritação inicial. Talvez porque eu não peça
licença para filmar, talvez porque eu seja um dos poucos
sobreviventes - e o mais ativo - do Cinema Novo. É um privilégio
ter sido contemporâneo de Glauber Rocha, Joaquim Pedro de
Andrade, Leon Hirszman, David Neves, mas parece que os rancores
históricos contra o Cinema Novo sobram todos para mim. A Veja
desta semana tem uma reportagem que, praticamente, diz que o
Cinema Novo só fez sucesso porque tinha um acordo político com os
críticos franceses. É uma brutalidade, uma burrice. Esta revista
é um nojo.

JB - Há algo por trás disso?

CD - Não tenho cultura política suficiente para perceber de onde
vem e a quem interessa, mas é preciso dizer claramente que há uma
articulação intelectual de direita, que tem na Veja a base
principal, com a finalidade de dizer que o Brasil não pode nem
nunca vai dar certo. Esta é a melhor maneira de predar o país. Os
artigos da Veja visam o que Roland Barthes chamava de
imbecilização do público: Ingmar Bergman é chato, Federico
Fellini não vale a pena. É uma maneira de fazer com que o leitor
se ache inteligente não gostando dos grandes artistas. É uma
nazificação grave do pensamento brasileiro. Não só a partir da
negação de uma cultura inteligente e superior, mas a
desqualificação de toda a produção cultural do país.

JB - Para quê?

CD - Manter o país como está. A Veja é o ninho onde o ovo da
serpente da nova direita está sendo gerado. E não estou falando
do que a revista disse de Orfeu. Não pode o Okky de Souza (editor
da revista) dizer que o Guarani - e eu não gosto do Guarani nem
acho a Norma Benguel uma grande diretora - era tão chato e tão
ruim que saiu no meio do filme. Eu pergunto: qual o editor de
esportes que publicaria a reportagem de um jornalista que tivesse
saído no meio de um Fla-Flu porque o jogo estava chato?"

Agora releiam a segunda resposta do Caca'. Ja' que eu estou empolgado e me
radicalizando, e' levando em conta o que o Julio Cardoso escreveu em outra
mensagem:

"Paulo, a unica coisa que falta para a legitimacao do lixo que toca nas FM e
nas TVs como a verdadeira musica brasileira eh a justificativa teorica.
Comecaram a aparecer os teoricos do lixo"

Eu proponho elegermos o Hermano Vianna como o Francis Fukuyama da Musica
Popular Brasileira.

Nota cultural: o Fukuyama e' aquele cientista politico americano que
previu/diagnosticou os tempos que vivemos agora como o "Fim da Historia".

>
> Segue o Hermano, falando do produtor musical do Art Popular:
>
> >> O pagode do Art Popular se mistura ao sertanejo, ao soul, ao
> >> flamenco, ao ragga, ao rap, aos sons ambientes, num processo meticuloso de
> >> articulação sonora.

E o Helion:
> ----------------------------------------
>
> Gente, fiquei tao fascinado que fiz a minha propria experiencia musical. Estou produzindo para breve trabalhos com os seguintes artistas:
>
> Primeira tentativa: sertanejo com flamenco
>
> Carreirito de la Isla nasceu na Andaluzia, de pais goianos. Desde crianca sempre >ouviu fascinado mestres como Chitaozito y Llororo, Sergio Reyes e La Musa de los >Camioneros. Nao perdia um capitulo da novela "Alagadizo", que lhe despertava >grande nostalgia de seus antepassados sertanejos. Desde pequeno, juntou-se a um >grupo de ciganos com os quais comecou a tocar viola e a dancar o caterete com o >acompanhamento de castanholas. Fazia grande sucesso conhecido como "El Maricon >Asesino". Acabou por ser expulso do grupo pois ao soprar seu berrante assustava >os gajos que queriam ler a mao com os ciganos. Breve, seu primeiro CD, "De >Sevilla a Corumba".

E eu:
Helion, outra grande vantagem da pagina que nos foi indicada pelo Roberto e'
que ficamos sabendo que o SPC esta' lancando seu primeiro disco em espanhol!
Por que nao fazemos uma vaquinha e damos o disco do SPC com o do Carreirito de
la Isla para o Pablo Nieves?:-)

> Paulo:
> >
...
> > Cada jornal
> >tem um ou dois responsaveis por MPB, como Pedro Sanches na Folha, o Tarik de
> >Souza e a Lena Frias no JB, o Mauro Dias no O Dia e o Joao Maximo no O Globo.
> >Esta turma e mais alguns e' que garantem algum espaco para a divulgacao de
> >algo diferente

Ops, errei. O Mauro do Dia e' o Ferreira. Mauro Dias e' do Estadao, nao e'
isto?

Helion:
>
> Parabens pelo artigo, Paulo. E desculpe as sacanagens... aproveitei seu mote....

Nao aceito suas desculpas Helion. Voce nao tem do que se desculpar. Adorei seu
texto:-)

abracos,

--
Paulo Eduardo Neves
maito:neves@email.com
Rio de Janeiro - Brasil