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At 04:24 27/04/99 -0700, helion povoa wrote:
>Quanto ao Hermano, ele tambem disse tudo: trata-se de um "fascinante
repertório antropológico, que pode nos fazer compreender melhor as
transformacoes da producao musical e das interacoes sociais na periferia da
cidade de Sao Paulo nas últimas décadas". Eu e o Felipe ja fizemos aqui
analise em academiques de umas letras de musicas (lembra, Felipe?). Mas era
de sacanagem!
Ah, era??
De qualquer jeito, nao posso deixar de registrar os mais veementes encomios
(hehe!) aos seus comentarios e aos do Paulo sobre o artigo do Hermano
Vianna. Realmente, o cara e' de um pedantismo e de uma donice-da-verdade
que doem. Suas argumentacoes em defesa da mesticagem musical se perdem em
sofismas do tipo "se e' icone da cultura de massa, portanto
'transcultural', tem qualidade" - especie de "vox populi, vox Dei"
revisitado. Claro que a mesticagem e a assimilacao de elementos importados
e' a base de qualquer cultura musical, desde que samba e' samba. Mesmo as
tradicoes musicais mais solidas e estaveis, com certeza, nascem da fusao de
elementos de origens diversas. Mas, perai', vamo organizar essa suruba!
Senao, vejamos. Vianna e' um leitor apressado de gente boa como Canclini,
Barbero, Muniz Sodre', Nettl, Ortiz, Malinowski. Cada um desses autores, 'a
sua maneira, estuda a mesticagem cultural - que alguns definem por
"transculturalismo". Mas a Vianna parece nao bastar o convivio com a
diversidade, a aceitacao das diferencas. Para ele, torna-se necessario
integra'-las. E e' ai' que o bicho pega. Integrar diferencas, na medida de
Vianna, e' reduzi-las, anula'-las. Como bem disse o Alvaro Neder, o projeto
de uma "world music", exatamente por anular diferencas, e' que e'
reacionario e conservador. Hoje voce liga o radio em qualquer parte do
mundo e ja' esta' ouvindo aquele som de "baixo-bateria-teclado" misturado a
qualquer genero: samba, salsa, romantica italiana, pop japones, arabe,
sul-africano, esquimo'. Legal, ate' da' certo. Mas sabemos que essa nao e'
a unica saida. Se o purismo e a xenofobia musicais sao distorcoes serias, a
hegemonia pop disfarcada em world music tambem sera'.
Quanto ao "Misterio do Samba", e' a tal historia, "se eu for falar da
Portela, hoje nao vou terminar". Melhor resumir: um livro que promete muito
mais do que cumpre. Com direito a serios reparos. Mas deu certo na midia,
virou referencia, ai' temos que aguentar o cara soltando perolas nos
jornais como "nunca li um artigo que prestasse sobre axe' ou pagode". Em
materia de Vianna, ainda estou com o Alfredo da Rocha, Junior.
Lembrei de um causo. Nesse fim-de-semana rolou um churrasco em casa do Luiz
Carlos da Vila, comemorando o lancamento do disco do Candeia. Armaram a
roda no quintal, debaixo de uma mangueira, alguns compositores la', alem do
Luiz Carlos - Claudio Jorge, Ze' Luiz e outros mais. O pessoal comecou a
mostrar seus sambas ineditos, cada um mais lindo que o outro. De emocionar.
Ficava imaginando quantos poderao ser conhecidos do grande publico, quantos
conseguirao ser gravados. E pensava, como ainda se faz bom samba! Numa
certa altura, o Ze' Luiz falou:
- E', gente, que coisa bonita, esses sambas que a gente faz e está cantando
aqui. Isso e' uma forma de resistencia!
E o Claudio Jorge emendou, com sabedoria:
- Mas espera ai', Ze'. Antes de qualquer coisa, a gente tá aqui porque e'
um prazer...
E' o obvio ululante! A gente gosta porque gosta, o resto e' consequencia. E
e', por exemplo, o que faz a gente se reunir aqui na lista, 'as vezes
concordando, 'as vezes quebrando o pau. O samba e o choro, antes de
qualquer coisa, sao fonte de prazer, pra quem gosta. Antes de nos
embrenharmos por arduas discussoes ideologicas - o que tambem pode ser
legal -, e' bom a gente nao perder essa nocao. Que e' pra nao perder o rumo
da prosa.
[]s,
Filipe