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Paulo Neves escreveu, a proposito do artigo de Hermano Vianna:
>Tai gostei do texto. Tambem vou dar o meu pitaco :-)
Artigo do Hermano Vianna:
>>
>> AUTORES
>> Desprezo a gêneros como axé e pagode revela o despreparo e a intolerância da mídia
>> Condenação silenciosa
>> HERMANO VIANNA
>> especial para a Folha
>>
>> A "Enciclopédia da Música Brasileira" é uma obra fundamental, essencial,
>> dessas que não podem faltar em nenhuma biblioteca. O lançamento de sua
>> segunda edição atualizada, no final do ano passado, deve ter sido saudado
>> como um dos mais importantes acontecimentos editoriais do país.
>
>Nao ha' como discordar dele. Apesar da Enciclopedia aprontar umas pecas como
>afirmar que o Candeia foi um dos fundadores da Portela. Talvez seja a mais
>importante publicacao sobre musica brasileira.
>
>[corte]
>> entrevista marcada com o É o Tchan. Abri a enciclopédia na letra E, quase
>> automaticamente, como sempre faço nessas ocasiões. Nada. Achei que podia
>> estar em Gerasamba. Nada. Fiquei cismado. Retomei minhas investigações em
>> outros setores da chamada axé music. Chiclete com Banana... Nada. Netinho...
>> Suspiro aliviado... Mas que nada! Tem um Netinho dos Incríveis e outro da
>> Banda de Pau e Corda. Mudei de estilo, fui para o novo pagode. Raça Negra...
>> Nada. Negritude Júnior... Nada. Art Popular... Nada.
>> Tentei imaginar as razões para tantas ausências. Sou otimista, sempre
>> procuro justificativas razoáveis para os enganos alheios. São artistas muito
>> recentes, pensei. Ora, mas tem Chico César, que só lançou o primeiro disco
>> em 1995. Tem Pato Fu. Tem Gabriel, o Pensador. Busquei outras desculpas,
>> mesmo pouco convincentes. Nenhuma delas me convenceu num grau aceitável.
>> Tive que recorrer à pior hipótese: o silêncio é um julgamento de valor. Há
>> artistas que, por mais discos que vendam, por mais amados que sejam pela
>> maioria da população brasileira, não "existem" para os editores da
>> "Enciclopédia da Música Brasileira".
>
>Novamente nao ha' como discordar do Hermano. Se a Enciclopedia visa mapear a
>musica brasileira como um todo, nao ha' porque deixar os grupos de sambanejo e
>axe' de fora. Se tem Ronnie Von, nao tem porque nao ter Chiclete com Banana.
>Parece mesmo discriminacao da grossa.
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Pera aih, Paulo. Discriminar, no bom sentido, eh fundamental para que se possa
fazer um trabalho de tipo enciclopedico. Senao, como eh que se faz? Entra
tudo? E o CD da Tiazinha?
Ronnie Von, gostemos ou nao (e os inesqueciveis "Cavaleiro de Aruanda" e
"Banda da Ilusao"?) faz sucesso hah decadas, muito, muito antes de o Roberto
nascer :-) Entao tem que entrar mesmo. Mas nao sei se o Tcham vai ter essa
permanencia toda.... Quanto ao Chiclete com Banana, nao sei dizer.
--------------
>> O silêncio, na quase totalidade (não digo absoluta totalidade porque pode
>> haver alguma voz discordante que desconheço) da mídia cultural tida como
>> séria, se converte no mais raivoso ataque. As megaestrelas do axé ou do
>> pagode são alvos de todos os tipos de xingamento por parte de "críticos" e
>> assemelhados. A intolerância desvairada tem adquirido o tom de uma cruzada
>> moralizante, em prol da "boa" música (que, por definição, é aquela que o
>> "crítico" gosta, a partir de critérios nunca seriamente discutidos). O
>> jornalismo "cultural", com toda a arrogância
>> polêmico-adolescente-sub-Paulo-Francis que passou a lhe ser característica,
>> decretou que o gosto do povo (manipulado, alienado, ingênuo, pervertido)
>> está errado.
>
>E' ate' engracado. Ele esta' dizendo que estes grupos nao tem repercussao na
>midia:-) Nao vejo como eles serem rejeitados por nao fazerem boa musica.
>Pessoalmente nao tenho raiva de nenhum grupo destes. Sao pessoas trabalhando e
>ganhando seu sustento. Ganhar dinheiro trabalhando honestamente no Brasil so'
>mesmo sendo artista ou jogador de futebol.
>
>Acho um barato ir em uma festa de pessoal de classe media, cheia de meninas de
>"boa familia" e ver todos rebolando ate' o chao em uma danca erotica. E'
>daquelas coisas que so' acontecem mesmo em nosso Patropi.
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Acredito tambem que voce ache um barato, Paulo. Mas por causa da musica ou das
meninas de boa familia rebolando? Desculpem as senhoritas presentes, mas esse
comentario machista, primario, chauvinista etc.... foi inevitavel!
Inclusive lembra uma fala do Groucho Marx mais ou menos assim: "Eu detesto
musica!". E o outro: "Porque?" Resposta: "Bem, sabe como eh: uma musica
tocando, um homem e uma mulher abracados aa meia luz....". O outro: "O que tem
de errado nisso?". E o Groucho: "A musica".
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(...)
>Fui na semana passada em uma reuniao na casa de amigos de amigos. O som como
>sempre nao era grande coisa. A festa animou quando colocaram musica baiana.
>Depois um pessoal "tomou conta do som" e passou a tocar apenas musica techno.
>Comparando tenho uma coisa a dizer: gracas a Deus o sucesso aqui e' pagode e
>musica baiana. Esta musicas comerciais importadas sao muito mais
>insuportaveis.
>
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Gostei, Paulo, de voce dizer que as importadas sao "muito mais insuportaveis".
Quer dizer que as baianas sao apenas "ligeiramente insuportaveis", neh?
Sigmund explica!
Mas estou de acordo. Deem-me dois Tchan para nao ter que ouvir um Chemical
Brothers. Mas de preferencia com dois algodoes no ouvido.... E nao eh por ser
importado, nao, mas por ser musica para androide rebolar.,...
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Isso aqui jah eh a fala do Hermano:
>
>> Do lado do "novo pagode", analisar a biografia do pessoal do Art Popular,
>> também apenas como um exemplo, é ter acesso a um fascinante repertório
>> antropológico, que pode nos fazer compreender melhor as transformações da
>> produção musical e das interações sociais na periferia da cidade de São
>> Paulo nas últimas décadas: da formação de grupos de pagode em torno das
>> quadras das escolas de samba paulista, passando pela divulgação do funk em
>> bailes como o Chic Show e pela explosão do mercado de trabalho para boys
>> (todos os compositores do Art Popular foram boys) até chegar a uma nova
>> maneira de pensar a questão racial brasileira (que dá na revista "Raça") ou
>> a questão da nova idéia de masculinidade (que dá no Vampeta, amigo do
>> pessoal do Art Popular, na capa da revista "G").
>
E o Paulo Neves:
>Nao entendi direito o negocio do Vampeta pelado com o Art Popular. De qualquer
>forma a atitude do grupo nao o torna melhor ou pior musicalmente. E' bacana a
>ascensao social do pessoal e a valorizacao do negro brasileiro atraves dos
>idolos do sambanejo, mas isto nao torna sua musica melhor.
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De acordo, Paulo.
Quanto ao Hermano, ele tambem disse tudo: trata-se de um "fascinante
repertório antropológico, que pode nos fazer compreender melhor as
transformacoes da producao musical e das interacoes sociais na periferia da
cidade de Sao Paulo nas últimas décadas". Eu e o Felipe ja fizemos aqui
analise em academiques de umas letras de musicas (lembra, Felipe?). Mas era de
sacanagem!
Tah bem, antropologo tem mais eh obrigacao de ficar escutando e observando
indio batendo o peh, tocando flauta de bambu e anotando tudo direitinho. Mas
eu quero a musica como ouvinte. E aih, desculpa, Hermano, mas nao vou encarar
o Art Popular com "olhar antropologico" (nao seria "ouvido antropologico"?).
Se soubesse dancar esses ritmos como o Paulo Neves, que pelo visto eh eximio,
ateh tentaria uma "observacao participante" nas festinhas com garotinhas de
classe media (me chama pra proxima, cara!). Mas por enquanto....
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Segue o Hermano, falando do produtor musical do Art Popular:
>>Seu ouvido treinado pelo pop
>> é claramente de quem trata o estúdio como instrumento musical e laboratório
>> de mestiçagens sonoras. Tanto que o último disco do Art Popular foi gravado
>> quase todo em sua casa.
>> Desde seu segundo CD, "Temporal", Leandro Lehart vem desenvolvendo um
>> conceito por ele denominado, primeiro, Pop Samba Brasil, e depois, no título
>> de seus dois últimos lançamentos, Samba Pop Brasil. Não se trata, como fazem
>> outros grupos, de fazer versões pagodeiras de sucessos do rock ou do
>> sertanejo. O pagode do Art Popular se mistura ao sertanejo, ao soul, ao
>> flamenco, ao ragga, ao rap, aos sons ambientes, num processo meticuloso de
>> articulação sonora.
>> Essa estratégia chegou a seu momento mais arriscado no recém-lançado Samba
>> Pop Brasil 2. Não vou nem fazer maiores comentários sobre as presenças de
>> Billy Paul, do Take 6 e de um coral gospel do Harlem (gravado no Harlem)
>> mixadas a várias canções desse CD. Quero me deter apenas em um faixa, a
>> versão de "Mata Papai", uma justa homenagem a um hit precursor da nova onda
>> sambista-pop. A gravação começa com o próprio Leandro Lehart, com todo seu
>> sotaque paulistano, explicando o que está acontecendo: "Povo brasileiro, Art
>> Popular apresenta, do meu lado esquerdo, Salgueiro, do meu lado direito,
>> Olodum".
>> É isso mesmo. Se o ouvinte usar o "balance" vai escutar numa das caixas de
>> som a bateria do Olodum (gravada em Salvador) e, na outra, a bateria do
>> Salgueiro (gravada no Rio de Janeiro), as duas com seus ritmos
>> "tradicionais".
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Como geografo, fiquei fascinado! Ooooooooohhhhhhhh! Quanta
transterritorialidade!.Superamos assim a concepcao de que os contextos
espaciais devem permanecer fixos. O nosso mundo eh o do fim dos lugares! Rio
de Janeiro numa caixa e na outra a Bahia, quem diria? Como foi que esse cara
teve uma ideia assim tao genial?
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Paulo:
>Pera ai! Desde quando colocar coisas diferentes em cada lado e' o apice da
>inventividade musical? Sera' que o cara nunca ouviu Beatles? E nem vou falar
>de Pink Floyd ou de Mutantes. Esta e' a grande invencao de estudio do Art
>Popular?
>
>Quero aproveitar o momento e pedir a nosso amigo Julio Cardoso que faca um
>comentario sobre a frase "O pagode do Art Popular se mistura ao sertanejo, ao
>soul, ao flamenco, ao ragga, ao rap, aos sons ambientes, num processo
>meticuloso de articulação sonora". :-))
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Gente, fiquei tao fascinado que fiz a minha propria experiencia musical. Estou
produzindo para breve trabalhos com os seguintes artistas:
Primeira tentativa: sertanejo com flamenco
Carreirito de la Isla nasceu na Andaluzia, de pais goianos. Desde crianca
sempre ouviu fascinado mestres como Chitaozito y Llororo, Sergio Reyes e La
Musa de los Camioneros. Nao perdia um capitulo da novela "Alagadizo", que lhe
despertava grande nostalgia de seus antepassados sertanejos. Desde pequeno,
juntou-se a um grupo de ciganos com os quais comecou a tocar viola e a dancar
o caterete com o acompanhamento de castanholas. Fazia grande sucesso conhecido
como "El Maricon Asesino". Acabou por ser expulso do grupo pois ao soprar seu
berrante assustava os gajos que queriam ler a mao com os ciganos. Breve, seu
primeiro CD, "De Sevilla a Corumba".
Segunda tentativa: pagode com sons ambientes.
Catinguele Junior Contrariando o Tcham eh um jovem artista que mistura a
ambiencia musical das periferias paulistas com sons da floresta amazonica. Seu
trabalho representa uma nova proposta de fundir as paisagens sonoras
paulistanas aa realidade da fronteira agricola em expansao no norte do pais. O
disco comeca com o som do uirapuru, logo seguido por uma cuica eletrificada
que representa o novo desafio da modernidade que chega aa selva. Segue-se uma
polifonia de tatus, cotias e araras sampleados em ritmo de neo-sambao joia. O
coro ao fundo eh do grupo vocal "Yanomamis de Itaquera", evoluindo com sons
tribais acoplados a uma bateria eletronica. O primeiro CD de Catinguele Junior
Contrariando o Tcham serah lancado em breve, num palco especial armado, por
exigencia dos que jah conhecem seu trabalho, bem no alto do Pico da Neblina.
Aguardem.
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E segue o Hermano:
>
>>O canto foi gravado ao redor da piscina da casa de Leandro
>> Lehart, com a reunião de dez fã-clubes de vários locais do Brasil. O samba
>> carioca e o samba-reggae baiano aparecem em conciliação/confronto explícito,
>> a partir de um encontro tecnológico articulado por um sambista de São Paulo.
>> Nem o Mestre Jorjão, o diretor de bateria que introduziu a batida funk no
>> sambódromo, ousou imaginar evento semelhante.
>
-------------------
Contradicao/ confronto explicito seria um encontro do Milosevic com o Clinton,
cada um com um pandeiro na mao e o acompanhamento da bateria da OTAN e das
trompas kosovares do ELK. Alguem tem uma piscina em casa que pudesse ceder
para o evento?
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Hermano:
>
>> Então podem ser úteis o silêncio e a ignorância dos "críticos". Assim, o Art
>> Popular continua sossegado a fazer suas experiências, sem a patrulha do "
>> bom gosto" ou da "tradição", já que foi condenado a estar "fora" desse
>> mundo. Melhor ainda: o povo também está fora desse mundo. Tudo se encaixa,
>> povo e Art Popular. Como declara a capa de "Temporal": "Nossa missão é levar
>> entretenimento ao povo". E completa: "É fazer com que as pessoas sintam o
>> inesperado".
>>
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Senta num formigueiro que voce vai sentir o inesperado!
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Paulo:
>
>A grande sacanagem deste artigo e' aproveitar um erro para transformar as
>vitimas em carrascos. A premissa dele e' mesmo correta. E' discriminacao nao
>incluir estes grupos em uma enciclopedia de musica brasileira. O ultimo
>bastiao da musica brasileira e' algum espaco na midia impressa. Cada jornal
>tem um ou dois responsaveis por MPB, como Pedro Sanches na Folha, o Tarik de
>Souza e a Lena Frias no JB, o Mauro Dias no O Dia e o Joao Maximo no O Globo.
>Esta turma e mais alguns e' que garantem algum espaco para a divulgacao de
>algo diferente, seja um disco do Nei Lopes, do Trio Madeira Brasil ou do
>Xangai. Ainda assim tem menos espaco do que jazz, rock e techno.
>
>Esta turma tem que ser louvada e a "industria fonografica" criticada. O
>Hermano faz exatamente o contrario.
>
>Ufa, cansei!
>
>abracos,
>--
>Paulo Eduardo Neves
>
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Parabens pelo artigo, Paulo. E desculpe as sacanagens... aproveitei seu
mote....
Abracos,
Helion
Rio de Janeiro
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