Re: acordes e mais acordes

Henrique de Souza Villa Verde (hverde@MICROLINK.COM.BR)
Wed, 14 Apr 1999 09:46:42 -0300

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Filipe.
N=E3o tem que pedir desculpa pelo papo de musico n=E3o, tem sim que
continuar discutindo isto, =E9 muito importante.
N=E3o toco viol=E3o nenhum, estudo bandolim, e acho este papo muito
coveniente.
Abra=E7os.
henrique.
niteroi rj.

Luis Filipe de Lima wrote:
>
> Engracado, nao tinha recebido a msg do Mario enderecada 'a lista. So'
> recebi a msg do Alvaro em resposta 'a do Mario. Eu mesmo nos ultimos di=
as
> mandei varias msgs gerais que retornaram. Mesmo assim, curiosamente, al=
guns
> (so' alguns) da lista as receberam. Misterios do mundo cyber...
>
> Mario escreveu:
>
> > O violao de 7 cordas tem uma funcao especifica dentro do choro=
(e do
> >samba) que e' fazer as baixarias; os contracantos, =E9 claro que tambe=
m
> >trabalha harmonicamente mas nao e' sua funcao principal e sob este asp=
ecto
> >nao tenho tenho visto nada melhor que o Dino por a=ED. Pode ate' ser q=
ue eu
> >esteja desatualizado... Filipe, voce que e' da nova geracao de 7 corda=
s e
> >trabalha ai' no Rio: Ja tem gente tocando mais que o Dino a=ED ?
>
> E' ruim, hein! :-)
>
> >E olha que
> >nao estou falando de tecnica, velocidade na execucao... o Rafael era u=
m
> >monstro, tocava muito, solava, harmonizava... mas se for analisar sua
> >atuacao unicamente como violao de 7 cordas, apesar de estar muitos deg=
raus
> >acima da maioria, nao acho que tenha superado o mestre (nao e' briga =
viu,
> >gente! e' apenas uma opiniao. Deixem minha mae fora disso).
>
> Vc esta' certissimo, Mario. Nem tudo e' virtuosismo, ainda mais no sete
> cordas. Rafael (indiscutivelmente um cara genial), por exemplo, em seus
> primeiros tempos ao violao de sete, reproduzia fielmente a maneira do D=
ino
> tocar. Foi se aprimorando de tal forma que 'as vezes era dificil dizer =
quem
> tinha gravado determinada faixa de disco. O proprio Dino - que tem gran=
de
> admiracao pelo Rafael - ja' me disse isso, ele mesmo chegava a se
> confundir. Com o tempo, Rafael foi adquirindo estilo proprio e
> inconfundivel no sete cordas. Criou uma levada (especie de "hard-partid=
o",
> se me permitem) genial, que hoje e' reproduzida por muitos violonistas =
de
> samba, inclusive o que vos escreve. Foi mesmo alem em termos de
> virtuosismo, ideias ritmicas e melodicas. Tanto que, por seu temperamen=
to
> de solista, acabou partindo para o seis cordas e outras praias. Nao so'
> Rafael foi alem, Toni, que tambem toca no Epoca de Ouro e comecou
> decalcando o som de Dino, e Jorge Simas, este mais original, sao dois
> grandes exemplos. Tenho imensa admiracao pelo som do Carlinhos 7 Cordas=
, de
> longe o violao mais suingado que ja' ouvi. Tem um repertorio de levadas=
da
> pesadissima, frases originais, um pouco mais afastadas do padrao Dino.
>
> O negocio e' que o Dino nunca foi superado numa qualidade que e'
> fundamental: a concisao. Estava conversando com o Carlinhos 7 outro dia
> sobre isso. Dino tem a sabedoria de usar as frases certas na hora certa.
> Sem fazer nada a mais - ou a menos. Com muito suingue, Dino surpreende =
o
> ouvinte, harmoniza com elegancia, faz as fusas e quialteras todas a que=
tem
> direito - mas so' em ocasioes muito bem escolhidas. E e' "moderno", foi=
o
> primeiro a fazer frases de tons inteiros no sete. Ou a usar o subV nas
> frases. Alem disso, Dino ainda hoje e' o sete cordas que mais ouve a
> melodia. Suas baixarias sao sempre organicas, nao sobram. Ele joga com =
o
> time, nao joga pra galera. Certamente por isso e' tao genial. E e' a
> referencia para todos que se iniciam no sete cordas, por ter sido o mus=
ico
> que criou as bases da lingugem do instrumento. Assim como todo bandolin=
ista
> vai ouvir Jacob, todo solista de cavaquinho ouve Waldir, todo clarineti=
sta
> ouve Abel e assim por diante. Sao as matrizes, depois cada um vai
> desenvolver sua personalidade como instrumentista - afinal, nao estamos=
ai'
> pra ficar clonando ninguem.
>
> > Essa discussao sobre acorde 'careta' e dissonante e' complicad=
a...
> a
> >dissonancia so vai ter o efeito desejado (o da beleza, da surpresa, et=
c.)
> >se estiver "cercada" de acordes normais, ou simples. Como em uma piad=
a
> >onde e' contado um caso simples que vai conduzindo seu raciocinio e no
> >final (na musica nao precisa ser no final) tem seu climax na 'dissonan=
cia',
> >numa mudanca radical na estrutura do raciocinio. Tambem na musica ten=
ho
> >vontade de rir (as vezes) de prazer quando percebo um trabalho harmoni=
co
> >bem feito (com dissonancias ou nao), mas antes de ficar percebendo est=
es
> >detalhes tecnicos a musica tem que ter me emocionado. Tem outra coisa:=
voce
> >pode trabalhar somente com acordes "simples" e obter um resultado com =
uma
> >combinacao riquissima.
>
> E' isso ai', Mario. Concordo com o Alvaro quando diz que hoje, em
> determinado contexto, nao faz mais sentido a classificacao de acordes
> "consonantes" e "dissonantes". Mas acho a valoracao perigosa. Acordes
> "pobres", harmonia "pobre", tudo isso e' relativissimo. Harmonizar e' c=
omo
> a gente se vestir. Tem roupas que nao servem em determinada pessoa, fic=
am
> folgadas demais ou nem entram. Dentro do universo das roupas "que serve=
m",
> voce pode escolher varias. Ai' e' questao de gosto. Mas algumas,
> certamente, nao vao cair bem, de acordo com a personalidade de quem as
> veste. Pois dentro do grupo das roupas "que servem e caem bem", aparece=
m
> varias opcoes. Aqui ainda ha' outro criterio, o da propriedade. A mesma
> pessoa pode estar indo 'a praia ou ao concerto, devera se vestir de mod=
o
> adequado 'a ocasiao. Em suma, e' preciso escolher uma roupa que "caiba"=
,
> que "seja a cara da pessoa" e que seja "propria para determinada ocasia=
o".
> E ainda sobram opcoes...
>
> Desculpem o papo de musico, nao me aguentei... :-)
>
> []s,
> Filipe