Re: acordes e mais acordes

Luis Filipe de Lima (lfilipel@OPENLINK.COM.BR)
Fri, 9 Apr 1999 15:38:39 -0300

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Engracado, nao tinha recebido a msg do Mario enderecada 'a lista. So'
recebi a msg do Alvaro em resposta 'a do Mario. Eu mesmo nos ultimos dias
mandei varias msgs gerais que retornaram. Mesmo assim, curiosamente, algu=
ns
(so' alguns) da lista as receberam. Misterios do mundo cyber...

Mario escreveu:

> O violao de 7 cordas tem uma funcao especifica dentro do choro (=
e do
>samba) que e' fazer as baixarias; os contracantos, =E9 claro que tambem
>trabalha harmonicamente mas nao e' sua funcao principal e sob este aspec=
to
>nao tenho tenho visto nada melhor que o Dino por a=ED. Pode ate' ser que=
eu
>esteja desatualizado... Filipe, voce que e' da nova geracao de 7 cordas =
e
>trabalha ai' no Rio: Ja tem gente tocando mais que o Dino a=ED ?

E' ruim, hein! :-)

>E olha que
>nao estou falando de tecnica, velocidade na execucao... o Rafael era um
>monstro, tocava muito, solava, harmonizava... mas se for analisar sua
>atuacao unicamente como violao de 7 cordas, apesar de estar muitos degra=
us
>acima da maioria, nao acho que tenha superado o mestre (nao e' briga vi=
u,
>gente! e' apenas uma opiniao. Deixem minha mae fora disso).

Vc esta' certissimo, Mario. Nem tudo e' virtuosismo, ainda mais no sete
cordas. Rafael (indiscutivelmente um cara genial), por exemplo, em seus
primeiros tempos ao violao de sete, reproduzia fielmente a maneira do Din=
o
tocar. Foi se aprimorando de tal forma que 'as vezes era dificil dizer qu=
em
tinha gravado determinada faixa de disco. O proprio Dino - que tem grande
admiracao pelo Rafael - ja' me disse isso, ele mesmo chegava a se
confundir. Com o tempo, Rafael foi adquirindo estilo proprio e
inconfundivel no sete cordas. Criou uma levada (especie de "hard-partido"=
,
se me permitem) genial, que hoje e' reproduzida por muitos violonistas de
samba, inclusive o que vos escreve. Foi mesmo alem em termos de
virtuosismo, ideias ritmicas e melodicas. Tanto que, por seu temperamento
de solista, acabou partindo para o seis cordas e outras praias. Nao so'
Rafael foi alem, Toni, que tambem toca no Epoca de Ouro e comecou
decalcando o som de Dino, e Jorge Simas, este mais original, sao dois
grandes exemplos. Tenho imensa admiracao pelo som do Carlinhos 7 Cordas, =
de
longe o violao mais suingado que ja' ouvi. Tem um repertorio de levadas d=
a
pesadissima, frases originais, um pouco mais afastadas do padrao Dino.

O negocio e' que o Dino nunca foi superado numa qualidade que e'
fundamental: a concisao. Estava conversando com o Carlinhos 7 outro dia
sobre isso. Dino tem a sabedoria de usar as frases certas na hora certa.
Sem fazer nada a mais - ou a menos. Com muito suingue, Dino surpreende o
ouvinte, harmoniza com elegancia, faz as fusas e quialteras todas a que t=
em
direito - mas so' em ocasioes muito bem escolhidas. E e' "moderno", foi o
primeiro a fazer frases de tons inteiros no sete. Ou a usar o subV nas
frases. Alem disso, Dino ainda hoje e' o sete cordas que mais ouve a
melodia. Suas baixarias sao sempre organicas, nao sobram. Ele joga com o
time, nao joga pra galera. Certamente por isso e' tao genial. E e' a
referencia para todos que se iniciam no sete cordas, por ter sido o music=
o
que criou as bases da lingugem do instrumento. Assim como todo bandolinis=
ta
vai ouvir Jacob, todo solista de cavaquinho ouve Waldir, todo clarinetist=
a
ouve Abel e assim por diante. Sao as matrizes, depois cada um vai
desenvolver sua personalidade como instrumentista - afinal, nao estamos a=
i'
pra ficar clonando ninguem.

> Essa discussao sobre acorde 'careta' e dissonante e' complicada.=
..
a
>dissonancia so vai ter o efeito desejado (o da beleza, da surpresa, etc.=
)
>se estiver "cercada" de acordes normais, ou simples. Como em uma piada
>onde e' contado um caso simples que vai conduzindo seu raciocinio e no
>final (na musica nao precisa ser no final) tem seu climax na 'dissonanci=
a',
>numa mudanca radical na estrutura do raciocinio. Tambem na musica tenho
>vontade de rir (as vezes) de prazer quando percebo um trabalho harmonico
>bem feito (com dissonancias ou nao), mas antes de ficar percebendo estes
>detalhes tecnicos a musica tem que ter me emocionado. Tem outra coisa: v=
oce
>pode trabalhar somente com acordes "simples" e obter um resultado com um=
a
>combinacao riquissima.

E' isso ai', Mario. Concordo com o Alvaro quando diz que hoje, em
determinado contexto, nao faz mais sentido a classificacao de acordes
"consonantes" e "dissonantes". Mas acho a valoracao perigosa. Acordes
"pobres", harmonia "pobre", tudo isso e' relativissimo. Harmonizar e' com=
o
a gente se vestir. Tem roupas que nao servem em determinada pessoa, ficam
folgadas demais ou nem entram. Dentro do universo das roupas "que servem"=
,
voce pode escolher varias. Ai' e' questao de gosto. Mas algumas,
certamente, nao vao cair bem, de acordo com a personalidade de quem as
veste. Pois dentro do grupo das roupas "que servem e caem bem", aparecem
varias opcoes. Aqui ainda ha' outro criterio, o da propriedade. A mesma
pessoa pode estar indo 'a praia ou ao concerto, devera se vestir de modo
adequado 'a ocasiao. Em suma, e' preciso escolher uma roupa que "caiba",
que "seja a cara da pessoa" e que seja "propria para determinada ocasiao".
E ainda sobram opcoes...

Desculpem o papo de musico, nao me aguentei... :-)

[]s,
Filipe