Re: Alvaro Neder - La vamos nos.

Alvaro Neder (soundmaker@GEOCITIES.COM)
Wed, 7 Apr 1999 23:10:16 -0300

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Romulo,

1. Afirmações que vc atribuiu a mim relativas a Debussy e povos indígenas criando coisa melhor que a música européia além de outras são falsas. Ou é distração ou confusão suas, mas se quiser sustentar, prove com citações literais minhas.

2. Só posso estar delirando. Vc se inscreveu numa lista de discussao de SAMBA e
CHORO, escreve uma msg ENTOANDO LOAS a um sujeito que defende vários
ESTILOS MUSICAIS (pagodinho meloso, pseudosertanejo neobrega, etc), se
envolve numa polemica tremenda quando outro refuta a tese de que o povo
brasileiro é pobre culturalmente a ponto de espontaneamente escolher esse
lixo, e quando convidado a fundamentar sua opinião com fatos, você escreve
uma longa mensagem em que tudo que vc diz é que NÃO ENTENDE NADA DE MÚSICA,
acha as LETRAS mais importantes que a MÚSICA e que tudo o que vc sabe é
que BASTA QUE VOCÊ GOSTE DE LIXO para que isso seja aceito como uma amostra
significativa do povo brasileiro!

Tá bom, reza uma Ave-Maria, um Pai-Nosso e não se fala mais nisso.

-----Mensagem original-----
De: Romulo Roberto B. Provinzano <provinza@keynet.com.br>
Para: Alvaro Neder <soundmaker@geocities.com>;
L-DISCUSSAO@SAMBA-CHORO.COM.BR <L-DISCUSSAO@SAMBA-CHORO.COM.BR>
Data: Terça-feira, 6 de Abril de 1999 20:20
Assunto: Re: Alvaro Neder - La vamos nos.

At 21:09 05/04/99 -0400, Alvaro Neder wrote:
>Caro Rômulo,
>
>Sua argumentação se baseia na premissa de que o que se vende nos meios de
>comunicação de massa hoje é tão ruim pois é retrato fiel do povo, que "não
>lê", nem assiste à Ópera de Milão ou ao Balé de Stuttgart, condições que
>parecem necessárias a você para uma produção cultural popular satisfatória.

Papo furado, eu disse que adoro o Peninha, os boleros lacrimosos, muitos
pagodes e axes...quem sempre afirmou que isso era uma imposicao cultural
foi vc. Eu tambem nunca fui ao Scalla nem vi o Bale de Stuttgart...como de
resto 99% dos compositores do passado que eu amo.
>
>Tenho que discordar de você. O fato de o povo brasileiro não ter esse
>refinamento requisitado pela cultura eurocêntrica, não faz de sua obra
>cultural algo menor, muito pelo contrário.

Mas porque quando eu digo que o brasileiro nao le, nem ve, nem ouve vc
entende que eu to falando de cultura europeia? Ele nao le a Folha de Sao
Paulo, nao ve o Ensaio da cultura e nao ouve o Caetano,,,por incrivel que
isso ti pareca, quem consome o Caetano da musica do Peninha so compra o
disco da novela, nunca o do bahiano.

Suas asperezas e falta de técnica
>(na ótica do colonizado) fizeram dessa obra algo genialmente original, e é
o
>que subsiste hoje como "novo", principalmente quando falamos de música, uma
>vez que a hegemonia da Europa neste campo se foi com Debussy e
>contemporâneos, e hoje aquele continente vive das glórias passadas.

A minha aspereza e falta de tecnica, coisa comum no nosso povo, me tira
completamente desse assunto, desconheco musica classica. A proposito, numa
discussao recente aqui na lista, quando vc defendia a posicao de que o
talento e algo construido e eu a posicao dele ser algo inato, vc disse que
hoje existem muitos mais Debussys do que na epoca dele...

>
>Novos hoje, copiados mundialmente, são os ritmos dos povos "primitivos" do
>Novo Mundo: o samba, a salsa, o blues (que originou o rock etc).

Concordo com isso, mas nunca, nem remotamente manifestei outra coisa.
>
>Letras são um assunto complexo que mereceria um estudo à parte. Não sei
>dizer, e pra falar a verdade, nunca me interessei muito em saber se em
>determinado instante, cantar "quero comer chuchu" seria uma reação popular
>disfarçada contra o ditador Getúlio (que tinha esse apelido); da mesma
>maneira, é
>possível que muitos coronéis locais sem maior expressão tenham sido
vítimas
>da irreverência popular imortalizada em algumas canções (hoje tidas como
>banais) que nos chegaram sem o registro das circunstâncias.

Olha, Alvaro , se vc nao quer tocar nas letras tudo bem, mas para se falar
de mpb e fundamental falar delas, ou vc acha que se Cartola, por exemplo,
fizesse so musica ele seria o monstro sagrado que e? A tradicao literaria
da nossa cancao e talvez o que mais me interessa nela...
>
>Seja como for, eu seria o último a discutir com você que a cultura popular
>brasileira é deliciosamente e subversivamente lasciva. E importa muito
>dizer que os aludidos Gonzagão, Jackson e todos os que hoje são lembrados e
>reverenciados não compuseram apenas letras jocosas de duplo sentido, mas
>também poesias de rara beleza e abstração.

Eu nao disse que eles compuseram somente isso, nao to maluco, mas
compuseram muitas cancoes que lembram esse chulismo que virou uma grande
parte da mpb

E mesmo que assim não fosse, vai
>uma longa distância em comparar processos culturais sintetizados por
>indivíduos que emergiram genuinamente da massa

Por que, ti pergunto e mais genuino o Gonzagao do que o Zeze de Camargo?
Ambos vieram de uma infancia e juventude pobre, ambos fizeram concessoes
para ganhar dinheiro, o que eu acho muito certo, e bom frisar...a diferenca
e que Gonzagao era um genio, e o Zeze um compositor e cantor meia
boca...mas isso eu afiro pela qualidade de seus trabalhos e nao pela sua
origem...a proposito, Gonzagao sempre foi identificado com o que ha de mais
retrogrado no nordeste, apadrinhado por coroneis e o cacete...isso
sinceramente nao me interessa, como nao me interessa, voltando ao tema, se
Caetano senta ou nao, o que me importa e a obra...e so.

e, eleitos por ela de um a
>um, conquistaram a mídia de baixo para cima - com indivíduos e produtos
>(canções lascivas) que conquistam a população hoje de cima para baixo, isto
>é, sendo impostos ao povo por uma gigantesca indústria que deflagra uma
>operação poderosíssima de convencimento através de todos os canais de
>massificação a seu soldo e à sua disposição, escritos, falados,
televisados,
>em shows etc.

Como de cima pra baixo...ao que me consta o grande sucesso do tchan comeca
justamente em baixo...brincadeirinha, easy man...o grupo tcham descobriu um
filao incrivel pra se ganhar uma montanha de dinheiro, usando a tendencia
naturalmente lasciva do povo brasileiro com um ritmo arrebatador e de muita
qualidade, o samba de roda da Bahia...nao vejo imposicao nenhuma...na
verdade o que me incomoda no tcham e eles serem apresentados e imitados
como idolos infantis, o que eu acho lamentavel.
>
>E ainda falta falar da música.
>
>Essa sim, de uma complexidade que posso apreciar na sua extensão. Meu
>professor de Percepção

Professor de Percepcao? Ai e foda, eu nem sabia que existia isso...vc ve?
eu sou bem ignorante pra discutir musica nesse nivel;;;

compilou lá na origem com seu sacrifício sem
>remuneração melodias populares nordestinas que usou em sua cadeira
>(trabalhos como esse, genuinamente populares, não são tão facilmente
>comerciáveis, e vão permanecer inéditos, porisso você não conhece), que
são
>a base do que você achou "hermético" e "difícil" no Elomar.

Eu gosto de muita coisa do Elomar, e nao sou eu que o acho dificil e
hermetico,toda e qualquer pessoa que o ouca sem isencao vai achar isso
tambem...ou um compositor que precisa colocar um glossario ao lado de cada
letra de musica nao e um compositor hermetico? ALvaro, isso nao e critica
negativa, sao so fatos...eu gosto dele.

É isso mesmo,
>aquilo foi criação espontânea e anônima do povão analfabeto, nas poucas
>horas de folga de trabalho braçal estafante.

Que coisa mais stalinista...o trabalho braçal estafante...sabe o que me
lembrou? Aquela cancao genial que o Xangai gravou, justamente num album ao
vivo com entre outros, Elomar, que e o hino a vagabundagem dos baianos da
beira-mar...a indolencia de Caymmi e
um fato...isso tambem nao e critica e bom frisar, acho otimo ele ser
assim...

São melodias modais, que trazem
>bem viva a influência européia da Idade Média, mas em meio a uma rítmica
>exclusivamente nacional... O que Egberto Gismonti e Hermeto vêm fazendo com
>tanto sucesso nos palcos da vanguarda mundial? Utilizando esse material com
>seu toque pessoal de grande capacidade, mas o fundamental estava lá - no
>povão.

Sucesso pra quem? Pra meia duzia de entendidos? Agora me desculpe a
ignorancia, mas ja fui em show do Hermeto em que ele tocava ate um porco
vivo, e sabe como soava o porco? como um porco mesmo...e os entendidos
diziam.... puxa, ele tira som ate de porco!!!

>
>Quer falar do choro? Do samba? Até da rítmica dos povos do Neolítico, os
>nossos indígenas? Tudo isso é de uma complexidade e sofisticação tão grande
>que nem eu nem você nem o melhor, o mais educado, o mais europeu, o mais
>bitôvem músico vivo ou morto seríamos capazes de criar no intervalo de
>nossas vidinhas miseráveis.

Nao tenho essa ilusao de que os povos indigenas criaram coisas mais
sofisticadas que a musica europeia...mas tambem nao posso discutir isso
porque sou completamente analfabeto em musica indigena..

>
>Mesmo sem querer cometer a covardia de comparar o que vai pelas ondas do
>rádio atual com a verdadeira cultura popular, podemos constatar que desde
>que a música se tornou fenômeno de massa no Brasil (e portanto objeto de
>lucro - o que coincide com a época de ouro do rádio, ou os anos 30/40) até
>este instante, a qualidade da chamada música popular(esca) vem decaindo
>vertiginosamente.

Eu ja ti passei a teoria da evolucao democratica, mas essa palavra ti da
urticaria...pra mim quem mandava no radio e em tudo no comeco do seculo
tinha uma cultura muito superior a quem domina hoje...nao e possivel falar
seriamente que a populacao brasileira nos anos trinta era mais culta que a
de hoje...a questao e que, como dizia Nelsom Rodrigues, os cretinos
fundamentais se limitavam antigamente a babar na gravata. Hoje eles sao
genios de marketing, diretores de tv, cantores, musicos, criticos e
artistas...
>
>Quando aludi às orquestras do Pixinguinha e do Radamés tocando nos 4 cantos
>do país você quis zombar dizendo que isso só ocorria no Rio e SP e no resto
>do país só dava bosta.

Eu nao quis zombar de ninguem...mas minha mae que era fa de carteirinha de
Chico Viola jamais ouviu falar em Radames, ou mesmo Pixinguinha...e anos
depois nos cinquenta, ela morava em SP, e posso afirmar ser ela uma pessoa
bem representativa do povo, nunca ouviu falar em Joao Gilberto por
exemplo...

Mas quem mais chegava pelo rádio aos 4 cantos do
>país? Simplesmente só havia o padrão de qualidade das grandes rádios. Havia
>Vicente Celestino, Francisco Alves, e todos aqueles nomes famosos,
>acompanhados pelas ditas orquestras - e onde se estava criando pela
primeira
>vez arranjos nacionais, que antes não existiam, as músicas eram importadas
>já arranjadas.

Meu Deus do ceu...Vicente Celestino com seus dos de peito era um cantor
operistico que copiava tudo que se fazia la fora...Mario Reis infelizmente
nao conseguiu erradicar completamente esses tipos...de resto, me emociono
ao extremo sempre que ouco Coracao Materno ou Patativa...

Fora do rádio, não se pode falar em música como fenômeno
>nacional muito menos como tendência no Brasil daquele tempo.
>
>Certo, ao nosso gosto "pós-moderno" aquele estilo era piegas, simplório,
>melodramático e meio ridículo. Mas musicologicamente falando, em relação às
>melodias compostas, aos arranjos, à execução vocal e instrumental, não é
>difícil de perceber que deixava essa mediocridade atual no chinelo.

Sem duvida, eu tambem sou fa da epoca de ouro da cancao...porra Alvaro,
parece que vc ta querendo me convencer que Ary Barroso e melhor que Netinho
do Negritude...ai e foda...
>
>Todos os períodos posteriores sustentam a comparação com os símbolos deste
>"fenômeno recente de mobilização social" - Quem você quer comparar com
>Alexandre Pires, Exaltasamba, Xuxa ou Fernanda Abreu?

Alexandre Pires tem algumas gravacoes que eu gosto, Exaltasamba tambem...ja
Fernanda Abreu eu simplesmente ADORO...Rio 40 Graus eu acho genial...ta
vendo? Nos vemos musica popular de uma maneira muito diferente....

>
>Gonzagão? Jackson? Adoniram? Cartola? Tonico e Tinoco? Jararaca e Ratinho?
>Lamartine? Tom Jobim? Vinícius? Ataulfo? Sílvio Caldas? Cite um só que
tenha
>conseguido tamanha aceitação generalizada no país como os atuais campeões
de
>vendas, e que possa ser também comparado com eles em termos de exploração
>comercial sem o mínimo de qualidade artística, e eu retiro toda a minha
>argumentação.
>
Vc vai discordar, mas pra mim o Gil, Caetano, Chico, Elis, Gal, Bethania,
Djavan...sao do mesmo nivel que esses que vc citou...os mais novos tem
pouca estrada ainda para poder fazer uma apreciacao razoavel...mas a
discussao nao e essa, eu nunca disse que os autores atuais sao melhores que
os antigos...nossa discussao era uma entrevista do Caetano....

Amigo Romulo, atente para o seguinte: tudo isto se deu em escala planetária.
>A queda do nível da música oferecida às massas ocorreu em todos os países
de
>economia livre, à medida que o capitalismo se sofisticou na direção da
>máxima eficácia e eficiência.

E tambem na medida que se democratizou os meios de comunicacao...ou vc vai
me dizer que nao e muito mais facil hoje, como observou o amigo Jorge,
adquirir cultura do que em qualquer outra epoca? a Net ta ai pra provar
isso...

>
>Veja que conceito mais perfeito sob esta ótica: a "world music". A rigor,
um
>rótulo que não significa nada, em termos de especificar a origem cultural
ou
>identidade daquele "produto". Na prática, de tão bom é um verdadeiro sonho
>molhado de executivo de gravadora: como pegar elementos "típicos" e
>"exóticos" de diversas culturas off-Europa e off-USA (quer dizer,
>desconhecidas da massa compradora), com eles interpretar canções de padrão
>aceitável para o comprador médio, misturá-los num molho pasteurizado de
>instrumentos eletrônicos, técnicas de gravação e outras cosméticas
>consagradas na prática corrente do mercado mundial de massa, que retirem a
>"agressividade" (autenticidade) original e a tornem palatável, e voilà!
>criamos um sucesso em escala mundial! Carmem Miranda do seculo XXI!

E...pra vc a Carmem voltou americanizada, ne? Discordo completamente
disso...

Num
>alcance estupendo, numa geração de lucro fenomenal como aqueles velhos
>visionários que a lançaram não tinham idéia, de tão amadores que eram!
>
>E o mesmo pode ser feito com o Cartola. Já vejo o clipe: a ala de baianas
da
>Mangueira evoluindo, ao fundo o mar de Porto Seguro ou Bahamas (o contador
>decide), a banda Funk'n Lixo batendo um groove funk para acompanhar a
>Fernanda Abreu cantando As Rosas Não Falam. Este é o verdadeiro retrato do
>Brasil moderno para consumo interno e externo.
>
>Temos que aceitar o fato de que vivemos numa época sem precedentes, em que
>tudo tem um preço, um valor e um potencial de lucro. Tudo que tem um
>potencial de lucro aceitável cria um mercado, que atrai profissionais em
>desenvolver, ampliar e manter mercados. Tanto faz ser executivo de empresa
>de adubo químico ou de gravadora. Nenhum é movido por nobres ideais de
>erradicar a fome ou manter viva a cultura, e sim por desejos de gerar o
>maior lucro possível. E isso É DIFERENTE das épocas passadas, SIM!
>
>Uma vez aceito esse fato, podemos nos organizar para fazer frente a isso.
>Sim, o processo de exploração comercial predatória da massa é irreversível,
>mas ao invés de nos acharmos modernetes facilitando a destruição da nossa
>cultura pela busca do lucro pelos que não a amam, podemos resistir.
>Podemos criar os mesmos hábitos há muito responsáveis pela sobrevivência
da
>verdadeira cultura norte-americana (sim, eles também são vítimas da
predação
>cultural) que é o de anônimos do povo contribuírem com doações mensais
>anônimas na medida do orçamento de cada um para viabilizar o funcionamento
>de estações universitárias de rádio e TVs que se dediquem a uma programação
>de qualidade; anônimos do povo lutando junto aos seus políticos para a
>elaboração e promulgação de leis que visem à introdução do ensino sério da
>cultura popular na mais tenra idade nas escolas; maior vigilância da
>população às iniciativas de apoio oficiais; anônimos lutando pra editar cds
>de anônimos argemiros; e assim em todos os níveis, chegando ao ponto em que
>apologias da indústria predatória do entretenimento por parte de formadores
>de opinião com ampla repercussão na mídia sejam alvo, não de aclamação, mas
> de tamanha rejeição pela parte informada da sociedade que tenha orgulho
de
>sua herança cultural, que estas apologias sejam assim desestimuladas.

I
>-----Mensagem original-----
>De: Romulo Roberto B. Provinzano <provinza@keynet.com.br>
>Para: Alvaro Neder <soundmaker@GEOCITIES.COM>;
>L-DISCUSSAO@SAMBA-CHORO.COM.BR <L-DISCUSSAO@SAMBA-CHORO.COM.BR>
>Data: Sábado, 3 de Abril de 1999 16:42
>Assunto: Alvaro Neder
>
>
>>Voce diz que as cancoes de, por exemplo, Zeze de Camargo, nao representam
>>parcela nenhuma do povo brasileiro. Sinto muito, aqui na minha terra
>>representam sim, as pessoas andam de bota e chapeu, adoram um rodeo e
acham
>>esse tipo de musica o maximo...aquele romantismo piegas, aquelas letras
mal
>>escritas...quer saber? Tem tudo a ver com o povo brasileiro, um povo que
>>nao le, nao ve, nao escuta. Podemos ate discutir o desmantelamento das
>>escolas, a indigencia dos nossos governantes, a cretinice da nossa midia.
>>Mas achar que o povo brasileiro nao tem nada a ver com a pobreza dos
>>pagodeiros ou dos setanejos e desconhecer muito desse povo. E curioso,
>>muitas pessoas se referem aqui na lista ao povo brasileiro como se fosse
um
>>povo usurpado, maltratado e destituido de sua propria cultura. Mas, quando
>>aparece alguem fazendo sucesso cantando o que esse povo quer ouvir,
talvez,
>> pela propria ignorancia, as pessoas automaticamente tacham o cara que faz
>>sucesso de aproveitador, sem-vergonha, mau-carater ou algo que o valha.
>>Vide Alexandre Pires: pomba, se o povo anda emburrecido por culpa das
>>elites, odeio essa palavra, estou usando porque vi no seu ultimo mail, o
>>Alexandre tambem e vitima...mas aqui teve ate tribuneiro de Portugal
>>pedindo a cabeca dele.
>> Alvaro, musica popular e pra ser isso, musica popular...esses artistas
que
>>voce diz que nao devem ligar para o publico nao podem ser chamados de
>>populares. Todo artista tem de ir aonde o povo esta e uma dos versos mais
>>estupidos da mpb, mas se vc pensar em arte popular e isso mesmo...agora se
>>formos falar de conde de lautreamont ai o assunto e outro. Ou voce pensa
>>que o Noel quando compos um refrao tao luminoso quanto o de O Orvalho vem
>>Caindo ele nao estava com um olho na arte e outro no mercado? e e normal
>>que assim seja, vejo muito mais musica popular em um Luis Gonzaga cantado
>>por todos do que em um Elomar hermetico e desconhecido.
>> Ja que falei no mestre vou falar tambem no Jackson do Pandeiro. Pra mim,
e
>>pra muita gente boa ele e um dos pilares da musica popular brasileira. Sua
>>divisao, seu ritmo, faz a gente pensar que a lingua tambem e um
instrumento
>>de percussao...pois bem, de uma olhada nas letras de muitas de suas
cancoes
>>e o vc vai ver sabe o que? Alusoes a sexo de toda maneira, as vezes muito
>>parecido com as baixarias do tchan...e uma heresia dizer isso, nao? Mas e
a
>>pura verdade, o Luiz Gonzaga tambem...o forro, o xote, o coco, o xaxado,
>>sao um manancial de musicas que brincam com a sexualidade duma maneira
>>muito parecida com esse pessoal do pagode...vc ja ouviu aquele xote que a
>>Gal gravou como Gonzagao? O nome me foge agora, mas e uma brincadeira
>>absolutamente preconceituosa com lesbicas...mas e divertidissimo...estou
>>escrevendo tudo isso so pra dizer que o povo e assim...gosta muito da
>>sacanagem, nao precisa ninguem impingir nada a ninguem, essa baixaria e
>>intrinseca. Eu tambem adoraria que o Chico fosse o grande idolo do povao,
o
>>Pixinguinha, o Noel...gostaria que o povo brasileiro tivesse pelo Orlando
>>Silva um respeito semelhante ao que os argentinos tem por Gardel...mas
isso
>>nao e o povo brasileiro, e achar que somos assim por imposicao externa e
>>nao querer encarar a coisa como ela e...
>> Voce em outro momento diz que eu, contaminado pelo simplismo de Caetano,
>>esqueco que boa musica pode vir de qualquer lugar do mundo. Olha so, logo
>>eu, que sou fa de Racionais mcs a Pepino de Capri...Ninguem mais que
>>Caetano alardeou isso na midia...ele ensinou, ao menos pra mim, a beleza
do
>>canto cubano de Bola di Nieve, a beleza das composicoes de Cole Porter, a
>>maravilha de Billie cantando, a grandeza de Noel, a genialidade de Joao
>>Gilberto, Henri Salvador de Martinica, Cesaria Evora...tanta gente, por
>>isso muito me adimira ver, e ler as pessoas dizerem que Caetano busca a
>>facilidade e o sucesso facil, que e um vendido, que nao entende nada de
>>musica, como pode?
>> Tenho certeza que aqui mesmo na tribuna as pessoas sao capazes de achar
>>qualquer sambista do morro, desde que faca samba de raiz, mais importante
>>que Caetano pra cultura brasileira, e isso e lamentavel...eu tambem ja vi
e
>>li ele dizer muita besteira, discordo muito do que ele fala, mas da sua
>>obra, como discordar? Como discordar de suas interpretacoes que chegam a
>>melhorar ate Joao Gilberto? Em Buenos Aires perguntei a um apaixonado por
>>musica popular o que ele tinha achado da interpretacao de Caetano para
Mano
>>a Mano e , veja bem, estamos falando do simbolo popular maximo dos
>>argentinos....ele disse que era do nivel da gravacao de Carlos Gardel!!!
>> Por essas coisas que eu nao entendo porque Caetano suscita tanto
>>odio...seu argumento nessa entrevista de que pessoas que cantam ala-la-o,
e
>>mamae eu quero ha muitos carnavais dizer que as letras das musicas de
>>carnaval baianas nao fazem sentido e ridiculo me parece incontestavel.
>> Voce coloca que a cultura popular do Brasil criou o samba do Cartola, do
>>Monarco, do Wilsom das Neves...quando algum desses tres foi idolo popular?
>>o Cartola foi cult quase que a vida inteira...alias que cinismo a
>>propaganda do governo, para a vacinacao da terceira idade, colocando o
>>Cartola como exemplo de homem velho que ainda produz, diz assim: o Cartola
>>gravou seu primeiro disco aos 66 anos...como se fosse opcao dele...mas,
>>divaguei demais, e to meio bebado e de saco cheio...
>> So mais uma coisa, um show de Caetano e uma aula sobre a historia da mpb,
>>ultimamente ate sobre a musica popular do continente, como o de nenhum
>>outro artista, so posso pensar que seja por ma-fe que insistam em
>>desqualificar um trabalho tao grandioso. Me ocorre tambem que o meu jeito
>>de gostar de musica popular seja diferente do seu, eu nao consigo ter essa
>>analise tecnica que o pessoal da lista tem. Pra mim ouvir o Caetano cantar
>>uma bobagem brega como Paloma e uma experiencia fantastica e vejo que em
>>termos de arte popular a fronteira do que o bom gosto chama de ruim com o
>>que e a propria alma do povo e muito fina. O novo sucesso do Caetano, essa
>>musica do Peninha, nao e uma cancao absolutamente deliciosa ? E simples,
>>facil, comum...mas mesmo assim linda. Isso e musica popular pra mim.
>>
>>
>>
>
>
>