Re: Alvaro Neder

Alvaro Henrique (psicodelico@NUTECNET.COM.BR)
Tue, 6 Apr 1999 21:50:22 -0300

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Xara, essa foi de chorar. Essa aqui e seria concorrente ao premio=
Pablo
Nieves de mensagem do ano. Como o conteudo dela e grande vou ter de dar u=
ma
comentada (esse povo e fogo....)
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> De: Alvaro Neder <soundmaker@GEOCITIES.COM>
> Para: L-DISCUSSAO@SAMBA-CHORO.COM.BR
> Assunto: Re: [S&C] Alvaro Neder
> Data: Ter=E7a-feira, 6 de Abril de 1999 20:04
>
> depois de 200 tentativas frustradas de mandar esta msg p/ a lista, esto=
u
usando o formul=E1rio do site.

Tambem tive esse problema. Vai ver a lista nao esta gostando muit=
o dos
Alvaros.

> Caro R=F4mulo,
>
> Sua argumenta=E7=E3o se baseia na premissa de que o que se vende nos me=
ios de
> comunica=E7=E3o de massa hoje =E9 t=E3o ruim pois =E9 retrato fiel do p=
ovo, que
"n=E3o
> l=EA", nem assiste =E0 =D3pera de Mil=E3o ou ao Bal=E9 de Stuttgart, co=
ndi=E7=F5es que
> parecem necess=E1rias a voc=EA para uma produ=E7=E3o cultural popular
satisfat=F3ria.
>
> Tenho que discordar de voc=EA. O fato de o povo brasileiro n=E3o ter es=
se
> refinamento requisitado pela cultura euroc=EAntrica, n=E3o faz de sua o=
bra
> cultural algo menor, muito pelo contr=E1rio. Suas asperezas e falta de
t=E9cnica
> (na =F3tica do colonizado) fizeram dessa obra algo genialmente original=
, e
=E9 o
> que subsiste hoje como "novo", principalmente quando falamos de m=FAsic=
a,
uma
> vez que a hegemonia da Europa neste campo se foi com Debussy e
> contempor=E2neos, e hoje aquele continente vive das gl=F3rias passadas.

Ja faz um bom tempo que o nacionalismo domina a cena musical e ch=
ama a
atencao dos povos que so olham pro seu umbigo. Na Formula 1 da musica, on=
de
as invencoes e inovacoes chegam primeiro isso ja e coisa do final do secu=
lo
retrasado. Engracado que so tenha chegado por agora na musica popular....
Bem, essa mensagem chegou na hora certa (ainda bem que voce nao c=
onseguiu
antes, xara) porque antes de abrir essa mensagem recebi outra de um "foru=
m
dedicado exclusivamente aos intelectuais", com alguem os chama, onde um
americano da California me faz varias perguntas sobre a nossa cultura: um
repertorio basico, uma passada rapida nos estilos daqui, quais sao so
nossos grandes, etc. E no minimo estranho uma pessoa de fora, especialmen=
te
daquele pais, fazer isso. Se ha pessoas fazendo o caminho contrario - el=
e
nao e o unico caso -, e ainda mais fazendo no que temos de bom, isso
significa alguma coisa, E QUE COISA! Ou sera que vamos ter de esperar que=
a
nossa cultura faca sucesso no exterior pra ser vendida como importado pra
ai gostarmos?? Essa mania por importado e fogo...
(observacao curiosa, mais uma cultura inutil: sabia que o maior a=
cervo de
literatura de cordel no mundo esta na biblioteca do Congresso
Norte-americano?)
Quanto a questao do Bale, etc. e tal, concordo com meu xara: pra =
ter
musica popular boa, quantos mais longe disso melhor. Pra ter musica erudi=
ta
boa e que tem de se estar perto disso.

> Seja como for, eu seria o =FAltimo a discutir com voc=EA que a cultura
popular
> brasileira =E9 deliciosamente e subversivamente lasciva. E importa mui=
to
> dizer que os aludidos Gonzag=E3o, Jackson e todos os que hoje s=E3o lem=
brados
e
> reverenciados n=E3o compuseram apenas letras jocosas de duplo sentido, =
mas
> tamb=E9m poesias de rara beleza e abstra=E7=E3o. E mesmo que assim n=E3=
o fosse,
vai
> uma longa dist=E2ncia em comparar processos culturais sintetizados por
> indiv=EDduos que emergiram genuinamente da massa e, eleitos por ela de =
um a
> um, conquistaram a m=EDdia de baixo para cima - com indiv=EDduos e pr=
odutos
> (can=E7=F5es lascivas) que conquistam a popula=E7=E3o hoje de cima para=
baixo,
isto
> =E9, sendo impostos ao povo por uma gigantesca ind=FAstria que deflagr=
a uma
> opera=E7=E3o poderos=EDssima de convencimento atrav=E9s de todos os can=
ais de
> massifica=E7=E3o a seu soldo e =E0 sua disposi=E7=E3o, escritos, falado=
s,
televisados,
> em shows etc.

Uma coisa e totalmente diferente da outra. Quando Gonzagao diz qu=
e "na
danca do cossaco tem que ta cossaco fora" aquilo era mais uma brincadeira
do povo, uma piada, como outras que ele contava no publico (quem nunca
ouviu ele contar a estoria da Karolina nao e feliz) e contamos no nosso
grupo de amigos, e que nao causava uma coreografia ou qualquer outra reac=
ao
do publico pornografica. Com a pagodeira de hoje, palavras simples com
embaixo e em cima dao efeitos incrivelmente pornograficos nas pessoas. M=
e
perdoem pelo que vou dizer, mas o que as "dancarinas" fazem ao ouvir essa=
s
duas simples palavras e algo que so via antes em filme porno.

> Essa sim, de uma complexidade que posso apreciar na sua extens=E3o. Meu
> professor de Percep=E7=E3o compilou l=E1 na origem com seu sacrif=EDcio=
sem
> remunera=E7=E3o melodias populares nordestinas que usou em sua cadeira
> (trabalhos como esse, genuinamente populares, n=E3o s=E3o t=E3o facilme=
nte
> comerci=E1veis, e v=E3o permanecer in=E9ditos, porisso voc=EA n=E3o co=
nhece), que
s=E3o
> a base do que voc=EA achou "herm=E9tico" e "dif=EDcil" no Elomar. =C9 =
isso
mesmo,
> aquilo foi cria=E7=E3o espont=E2nea e an=F4nima do pov=E3o analfabeto, =
nas poucas
> horas de folga de trabalho bra=E7al estafante. S=E3o melodias modais, q=
ue
trazem
> bem viva a influ=EAncia europ=E9ia da Idade M=E9dia, mas em meio a uma =
r=EDtmica
> exclusivamente nacional... O que Egberto Gismonti e Hermeto v=EAm fazen=
do
com
> tanto sucesso nos palcos da vanguarda mundial? Utilizando esse material
com
> seu toque pessoal de grande capacidade, mas o fundamental estava l=E1 -=
no
> pov=E3o.

O livro que uso na universidade comumente na hora de dar um exemp=
lo usa
melodias e cancoes populares em vez de so os velhos conhecidos. O autor
dele - pasmem - e tcheco. So ha duas vezes citadas musicas tchecas.

> Mesmo sem querer cometer a covardia de comparar o que vai pelas ondas d=
o
> r=E1dio atual com a verdadeira cultura popular, podemos constatar que d=
esde
> que a m=FAsica se tornou fen=F4meno de massa no Brasil (e portanto obje=
to de
> lucro - o que coincide com a =E9poca de ouro do r=E1dio, ou os anos 30/=
40)
at=E9
> este instante, a qualidade da chamada m=FAsica popular(esca) vem decain=
do
> vertiginosamente.

Frank Zappa, nos anos 70, dizia que a maior contribuicao daquele =
tempo foi
a firmacao de uma industria de massa. Na verdade ele sonhava com um siste=
ma
em que qualquer pessoa pudesse lancar sua musica e facilmente distribuir =
no
globo. Foi so passar um tempinho que ele foi morder a lingua, ja perceben=
do
que o que estava pra acontecer era exatamente o contrario...

> Veja que conceito mais perfeito sob esta =F3tica: a "world music". A ri=
gor,
um
> r=F3tulo que n=E3o significa nada, em termos de especificar a origem cu=
ltural
ou
> identidade daquele "produto". Na pr=E1tica, de t=E3o bom =E9 um verdade=
iro
sonho
> molhado de executivo de gravadora: como pegar elementos "t=EDpicos" e
> "ex=F3ticos" de diversas culturas off-Europa e off-USA (quer dizer,
> desconhecidas da massa compradora), com eles interpretar can=E7=F5es de
padr=E3o
> aceit=E1vel para o comprador m=E9dio, mistur=E1-los num molho pasteuriz=
ado de
> instrumentos eletr=F4nicos, t=E9cnicas de grava=E7=E3o e outras cosm=E9=
ticas
> consagradas na pr=E1tica corrente do mercado mundial de massa, que ret=
irem
a
> "agressividade" (autenticidade) original e a tornem palat=E1vel, e voil=
=E0!
> criamos um sucesso em escala mundial! Carmem Miranda do seculo XXI! Num
> alcance estupendo, numa gera=E7=E3o de lucro fenomenal como aqueles ve=
lhos
> vision=E1rios que a lan=E7aram n=E3o tinham id=E9ia, de t=E3o amadores =
que eram!

Esse e o nosso unico ponto de discordancia aqui. Ha casos e casos=
. Muita
gente se enquadra nesse caso, concordo com voce, mas uma Nacao Zumbi algo
assim (tudo bem, esse exemplo ainda nao esta 100% bom)?? Um Cascabulho, q=
ue
vende embolada aos milhares na Alemanha com esse titulo assim?

> Temos que aceitar o fato de que vivemos numa =E9poca sem precedentes, e=
m
que
> tudo tem um pre=E7o, um valor e um potencial de lucro. Tudo que tem um
> potencial de lucro aceit=E1vel cria um mercado, que atrai profissionais=
em
> desenvolver, ampliar e manter mercados. Tanto faz ser executivo de
empresa
> de adubo qu=EDmico ou de gravadora. Nenhum =E9 movido por nobres ideai=
s de
> erradicar a fome ou manter viva a cultura, e sim por desejos de gerar o
> maior lucro poss=EDvel. E isso =C9 DIFERENTE das =E9pocas passadas, SI=
M!

Aqui e que esta o nosso maior valor. Ha varias regioes do globo c=
om uma
cultura tao chinfrim - mas uma estrutura inacreditavel - que vivem basica=
e
exclusivamente do turismo cultural. Ainda nao deu pra entrar na minha
cabeca como so uma regiao do nosso pais - a Bahia - vive do turismo
cultural, faz da cultura popular um meio de se ganhar dinheiro. Talvez se
conseguimos notar que da pra ganhar dinheiro com cultura, com riqueza, os
MBAzados colocariam esse povo no Gugu e similares.

> Uma vez aceito esse fato, podemos nos organizar para fazer frente a iss=
o.
> Sim, o processo de explora=E7=E3o comercial predat=F3ria da massa =E9
irrevers=EDvel,
> mas ao inv=E9s de nos acharmos modernetes facilitando a destrui=E7=E3o =
da nossa
> cultura pela busca do lucro pelos que n=E3o a amam, podemos resistir.
> Podemos criar os mesmos h=E1bitos h=E1 muito respons=E1veis pela sobre=
viv=EAncia
da
> verdadeira cultura norte-americana (sim, eles tamb=E9m s=E3o v=EDtimas =
da
preda=E7=E3o
> cultural) que =E9 o de an=F4nimos do povo contribu=EDrem com doa=E7=F5e=
s mensais
> an=F4nimas na medida do or=E7amento de cada um para viabilizar o
funcionamento
> de esta=E7=F5es universit=E1rias de r=E1dio e TVs que se dediquem a uma
programa=E7=E3o
> de qualidade; an=F4nimos do povo lutando junto aos seus pol=EDticos par=
a a
> elabora=E7=E3o e promulga=E7=E3o de leis que visem =E0 introdu=E7=E3o d=
o ensino s=E9rio
da
> cultura popular na mais tenra idade nas escolas; maior vigil=E2ncia da
> popula=E7=E3o =E0s iniciativas de apoio oficiais; an=F4nimos lutando pr=
a editar
cds
> de an=F4nimos argemiros; e assim em todos os n=EDveis, chegando ao pont=
o em
que
> apologias da ind=FAstria predat=F3ria do entretenimento por parte de
formadores
> de opini=E3o com ampla repercuss=E3o na m=EDdia sejam alvo, n=E3o de ac=
lama=E7=E3o,
mas
> de tamanha rejei=E7=E3o pela parte informada da sociedade que tenha or=
gulho
de
> sua heran=E7a cultural, que estas apologias sejam assim desestimuladas.

Falar e tao facil...a resposta esta aqui em cima, mas esse povo s=
o sabe
reclamar...
[]s de Brasilia;
Alvaro Henrique