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Caro Rômulo,
Sua argumentação se baseia na premissa de que o que se vende nos meios de
comunicação de massa hoje é tão ruim pois é retrato fiel do povo, que "não
lê", nem assiste à Ópera de Milão ou ao Balé de Stuttgart, condições que
parecem necessárias a você para uma produção cultural popular satisfatória.
Tenho que discordar de você. O fato de o povo brasileiro não ter esse
refinamento requisitado pela cultura eurocêntrica, não faz de sua obra
cultural algo menor, muito pelo contrário. Suas asperezas e falta de técnica
(na ótica do colonizado) fizeram dessa obra algo genialmente original, e é o
que subsiste hoje como "novo", principalmente quando falamos de música, uma
vez que a hegemonia da Europa neste campo se foi com Debussy e
contemporâneos, e hoje aquele continente vive das glórias passadas.
Novos hoje, copiados mundialmente, são os ritmos dos povos "primitivos" do
Novo Mundo: o samba, a salsa, o blues (que originou o rock etc).
Letras são um assunto complexo que mereceria um estudo à parte. Não sei
dizer, e pra falar a verdade, nunca me interessei muito em saber se em
determinado instante, cantar "quero comer chuchu" seria uma reação popular
disfarçada contra o ditador Getúlio (que tinha esse apelido); da mesma
maneira, é
possível que muitos coronéis locais sem maior expressão tenham sido vítimas
da irreverência popular imortalizada em algumas canções (hoje tidas como
banais) que nos chegaram sem o registro das circunstâncias.
Seja como for, eu seria o último a discutir com você que a cultura popular
brasileira é deliciosamente e subversivamente lasciva. E importa muito
dizer que os aludidos Gonzagão, Jackson e todos os que hoje são lembrados e
reverenciados não compuseram apenas letras jocosas de duplo sentido, mas
também poesias de rara beleza e abstração. E mesmo que assim não fosse, vai
uma longa distância em comparar processos culturais sintetizados por
indivíduos que emergiram genuinamente da massa e, eleitos por ela de um a
um, conquistaram a mídia de baixo para cima - com indivíduos e produtos
(canções lascivas) que conquistam a população hoje de cima para baixo, isto
é, sendo impostos ao povo por uma gigantesca indústria que deflagra uma
operação poderosíssima de convencimento através de todos os canais de
massificação a seu soldo e à sua disposição, escritos, falados, televisados,
em shows etc.
E ainda falta falar da música.
Essa sim, de uma complexidade que posso apreciar na sua extensão. Meu
professor de Percepção compilou lá na origem com seu sacrifício sem
remuneração melodias populares nordestinas que usou em sua cadeira
(trabalhos como esse, genuinamente populares, não são tão facilmente
comerciáveis, e vão permanecer inéditos, porisso você não conhece), que são
a base do que você achou "hermético" e "difícil" no Elomar. É isso mesmo,
aquilo foi criação espontânea e anônima do povão analfabeto, nas poucas
horas de folga de trabalho braçal estafante. São melodias modais, que trazem
bem viva a influência européia da Idade Média, mas em meio a uma rítmica
exclusivamente nacional... O que Egberto Gismonti e Hermeto vêm fazendo com
tanto sucesso nos palcos da vanguarda mundial? Utilizando esse material com
seu toque pessoal de grande capacidade, mas o fundamental estava lá - no
povão.
Quer falar do choro? Do samba? Até da rítmica dos povos do Neolítico, os
nossos indígenas? Tudo isso é de uma complexidade e sofisticação tão grande
que nem eu nem você nem o melhor, o mais educado, o mais europeu, o mais
bitôvem músico vivo ou morto seríamos capazes de criar no intervalo de
nossas vidinhas miseráveis.
Mesmo sem querer cometer a covardia de comparar o que vai pelas ondas do
rádio atual com a verdadeira cultura popular, podemos constatar que desde
que a música se tornou fenômeno de massa no Brasil (e portanto objeto de
lucro - o que coincide com a época de ouro do rádio, ou os anos 30/40) até
este instante, a qualidade da chamada música popular(esca) vem decaindo
vertiginosamente.
Quando aludi às orquestras do Pixinguinha e do Radamés tocando nos 4 cantos
do país você quis zombar dizendo que isso só ocorria no Rio e SP e no resto
do país só dava bosta. Mas quem mais chegava pelo rádio aos 4 cantos do
país? Simplesmente só havia o padrão de qualidade das grandes rádios. Havia
Vicente Celestino, Francisco Alves, e todos aqueles nomes famosos,
acompanhados pelas ditas orquestras - e onde se estava criando pela primeira
vez arranjos nacionais, que antes não existiam, as músicas eram importadas
já arranjadas. Fora do rádio, não se pode falar em música como fenômeno
nacional muito menos como tendência no Brasil daquele tempo.
Certo, ao nosso gosto "pós-moderno" aquele estilo era piegas, simplório,
melodramático e meio ridículo. Mas musicologicamente falando, em relação às
melodias compostas, aos arranjos, à execução vocal e instrumental, não é
difícil de perceber que deixava essa mediocridade atual no chinelo.
Todos os períodos posteriores sustentam a comparação com os símbolos deste
"fenômeno recente de mobilização social" - Quem você quer comparar com
Alexandre Pires, Exaltasamba, Xuxa ou Fernanda Abreu?
Gonzagão? Jackson? Adoniram? Cartola? Tonico e Tinoco? Jararaca e Ratinho?
Lamartine? Tom Jobim? Vinícius? Ataulfo? Sílvio Caldas? Cite um só que tenha
conseguido tamanha aceitação generalizada no país como os atuais campeões de
vendas, e que possa ser também comparado com eles em termos de exploração
comercial sem o mínimo de qualidade artística, e eu retiro toda a minha
argumentação.
Amigo Rômulo, atente para o seguinte: tudo isto se deu em escala planetária.
A queda do nível da música oferecida às massas ocorreu em todos os países de
economia livre, à medida que o capitalismo se sofisticou na direção da
máxima eficácia e eficiência. Alguns se querem modernos e zombam do que
chamam de teorias conspiratórias. No meu entender, vejo como uma questão de
bom-senso. Há um mercado lá fora para um determinado produto. Para maximizar
os lucros, é necessário vender ao maior número de pessoas possível. Com a
sofisticação atual deste mercado, todos os diletantes, idealistas e amantes
da tradição popular foram retirados da indústria, e substituídos por jovens
com MBAs que são realmente muito competentes em criar estratégias, táticas e
produtos que apelam para o maior número possível de consumidores
(direcionando seus esforços visando o mínimo denominador comum), e
consequentemente geram o máximo de lucro. A qualidade artística não entra
nesta equação que não dispensa o rigor da qualidade técnica padronizada
mundialmente, em nenhum momento. A identidade cultural, a fidelidade à
tradição, o amor à cultura idem. Quem em sã consciência pode ver algo
diferente?
Veja que conceito mais perfeito sob esta ótica: a "world music". A rigor, um
rótulo que não significa nada, em termos de especificar a origem cultural ou
identidade daquele "produto". Na prática, de tão bom é um verdadeiro sonho
molhado de executivo de gravadora: como pegar elementos "típicos" e
"exóticos" de diversas culturas off-Europa e off-USA (quer dizer,
desconhecidas da massa compradora), com eles interpretar canções de padrão
aceitável para o comprador médio, misturá-los num molho pasteurizado de
instrumentos eletrônicos, técnicas de gravação e outras cosméticas
consagradas na prática corrente do mercado mundial de massa, que retirem a
"agressividade" (autenticidade) original e a tornem palatável, e voilà!
criamos um sucesso em escala mundial! Carmem Miranda do seculo XXI! Num
alcance estupendo, numa geração de lucro fenomenal como aqueles velhos
visionários que a lançaram não tinham idéia, de tão amadores que eram!
E o mesmo pode ser feito com o Cartola. Já vejo o clipe: a ala de baianas da
Mangueira evoluindo, ao fundo o mar de Porto Seguro ou Bahamas (o contador
decide), a banda Funk'n Lixo batendo um groove funk para acompanhar a
Fernanda Abreu cantando As Rosas Não Falam. Este é o verdadeiro retrato do
Brasil moderno para consumo interno e externo.
Temos que aceitar o fato de que vivemos numa época sem precedentes, em que
tudo tem um preço, um valor e um potencial de lucro. Tudo que tem um
potencial de lucro aceitável cria um mercado, que atrai profissionais em
desenvolver, ampliar e manter mercados. Tanto faz ser executivo de empresa
de adubo químico ou de gravadora. Nenhum é movido por nobres ideais de
erradicar a fome ou manter viva a cultura, e sim por desejos de gerar o
maior lucro possível. E isso É DIFERENTE das épocas passadas, SIM!
Uma vez aceito esse fato, podemos nos organizar para fazer frente a isso.
Sim, o processo de exploração comercial predatória da massa é irreversível,
mas ao invés de nos acharmos modernetes facilitando a destruição da nossa
cultura pela busca do lucro pelos que não a amam, podemos resistir.
Podemos criar os mesmos hábitos há muito responsáveis pela sobrevivência da
verdadeira cultura norte-americana (sim, eles também são vítimas da predação
cultural) que é o de anônimos do povo contribuírem com doações mensais
anônimas na medida do orçamento de cada um para viabilizar o funcionamento
de estações universitárias de rádio e TVs que se dediquem a uma programação
de qualidade; anônimos do povo lutando junto aos seus políticos para a
elaboração e promulgação de leis que visem à introdução do ensino sério da
cultura popular na mais tenra idade nas escolas; maior vigilância da
população às iniciativas de apoio oficiais; anônimos lutando pra editar cds
de anônimos argemiros; e assim em todos os níveis, chegando ao ponto em que
apologias da indústria predatória do entretenimento por parte de formadores
de opinião com ampla repercussão na mídia sejam alvo, não de aclamação, mas
de tamanha rejeição pela parte informada da sociedade que tenha orgulho de
sua herança cultural, que estas apologias sejam assim desestimuladas.