Filme sobre Cartola

Helion Povoa Neto (hpn59@HOTMAIL.COM)
Tue, 6 Apr 1999 11:11:27 -0300

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Jornal do Brasil de hoje:

Cartola com sotaque arretado - Paulo Caldas e Lírio Ferreira, diretores de ‘Baile perfumado’, refazem em documentário de
longa metragem a trajetória do compositor mangueirense

PAULO VASCONCELLOS

Há duas ou três coisas que o mundo todo já sabe sobre Cartola, mas o que
interessa é o intangível. É atrás disso que estão os diretores Paulo
Caldas e Lírio Ferreira. Os cineastas do longa Baile perfumado estão
mergulhados num trabalho de arqueologia para desvendar o universo
desconhecido de Agenor de Oliveira entre um verso e outro que legou para
a eternidade antes de começarem a rodar Peito vazio. O documentário vai
combinar o rigor do registro histórico à fantasia e à licença poética. A
vida de Cartola nem sempre foi uma sala de recepção.

"A história dele se parece com um filme recheado de momentos dramáticos
e gloriosos, mas o que nos interessa é o personagem sutil que por muito
tempo se sobrepôs ao poeta genial", diz Paulo Caldas, de 35 anos. "Nossa
intenção não é apenas ilustrar as biografias de Cartola que já foram
publicadas, mas refazer o perfil de um dos maiores pensadores
brasileiros que tem uma trajetória que se confunde com a do próprio
século", completa Lírio Ferreira, de 34.

O trabalho de garimpagem da vida de Cartola tem a consultoria de Elton
Medeiros, parceiro do poeta mangueirense na música que empresta o título
ao documentário. O Morro da Mangueira será o cenário básico. Uma réplica
do Zicartola, bar que o compositor abriu no Centro do Rio em parceria
com a mulher, Zica, servirá para reconstituir alguns dos momentos mais
marcantes do lugar que virou ponto de resistência do samba nos anos 60.
Imagens de arquivo e depoimentos vão se misturar a cenas ficcionais num
liquidificador criativo. Como diria Cartola: a vida é um moinho.

"Queremos fazer um filme vivo", diz Paulo Caldas. "Nossa intenção não é
realizar um documento histórico, uma obra acabada", completa Lírio
Ferreira. O que os dois têm a ver com Cartola é pouco mais profundo do
que a constatação de que o samba é parte da identidade nacional. Em
Recife, onde foram criados, ouviam aqui e ali a batida sincopada
produzida nos morros cariocas a quilômetros de distância.

Um maracatu-atômico ou um cavalo-marinho lhes cai mais sob medida. Tanto
que a primeira incursão da dupla num filme de longa metragem foi um
mergulho no cangaço. Baile perfumado narra a história verídica do
libanês Banjamin Abraão, autor de um documentário sobre Lampião e seu
bando de malfeitores.

Foi o ponto alto de uma trajetória cinematográfica que começou quase por
acidente. Paulo e Lírio foram colegas da faculdade de jornalismo, mas
sempre estiveram mais interessados no que se passava no escurinho do
cinema - de preferência no trabalho de quem se empenhava em produzir o
que viam. Não tinham nenhuma câmera na mão, muito menos uma idéia na
cabeça - pelo menos não que fosse boa: Paulo Caldas guarda dois roteiros
daqueles tempos, mas diz que um é infilmável. O outro, desconfia que
também seja.

A dupla, ainda assim, resolveu apostar no fenômeno cinematográfico
cíclico de Recife. A paixão esporádica da cidade registra um embrião nos
anos 20. Na década de 70 a febre de super-8 foi responsável pela
produção de 800 filmes. Nos anos 80, foi a vez do ciclo de
curta-metragens que se espalhou por todo o país. Os dois embarcaram
nessa onda - Lírio se revezava ainda com as ondas do mar de Recife em
sua prancha de surfe.

Os dois desembarcaram do mundo do cangaço para o universo do samba
graças ao projeto Rumos, Cinema e Vídeo do Itaú Cultural e à Produtora
Raccord. Se não têm o samba no pé, pelo menos pretendem mantê-los
fincados na realidade. O caso de Cartola vai servir como uma luva a
Paulo Caldas e Lírio Ferreira para tratar do desemprego.

De 1932, quando despontou para um relativo sucesso com Divina dama,
gravada por Francisco Alves, até os anos 60, quando foi descoberto
trabalhando como lavador de carros, Cartola foi um eclético
subempregado: de assistente de pedreiro a contínuo de repartição, de
vendedor de picolé a ajudante de pai de santo. Redescoberto, foi
cultuado pelos intelectuais, fez ponta em Ganga zumba, de Cacá Diegues,
foi homenageado no documentário Chega de demanda - Cartola, de Roberto
Moura.

"Temos um trabalho grande de pesquisa para fazer ainda", diz Lírio
Ferreira, que já leu bateladas de páginas de biografias, subiu a
Mangueira dezenas de vezes atrás de vestígios do poeta, ouviu alguns
depoimentos e desconfia ter pela frente uma empreitada interminável.
"Abordar o subemprego é uma forma de atualizar a trajetória de Cartola",
acredita Paulo Caldas.

Cartola continua sendo um enigma em parte 90 anos depois de seu
nascimento e nove depois que morreu. "Ainda não sabemos onde exatamente
vamos chegar", consola-se Lírio. "A vida de Cartola é um tiro no
escuro", arrisca Paulo. As três décadas de ostracismo entre o sucesso e
a redescoberta do poeta genial é que aguçam o faro dos dois cineastas
recifenses. "Esperamos ser surpreendidos", repetem em coro.