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De: Romulo Roberto B. Provinzano <provinza@KEYNET.COM.BR>
Felizmente o Caetano gravou a extensa lista de grandes compositores
brasileiros que vc citou. Isso foi decente da parte dele.
> Vc ficou emputecido por ele afirmar que
>as cancoes de Zeze de Camargo ou Claudinho e Buchecha representam uma
>faceta do povo do Brasil, coisa mais obvia...
1. N=E3o representam. Como j=E1 disse, acorde para a realidade - essas me=
rdas
representam uma imagem estereotipada, aguada, pasteurizada, idealizada p=
or
produtores, executivos, pesquisas de opini=E3o e marqueteiros visando ape=
nas o
maior lucro poss=EDvel. Ele diz essas coisas pois ele quer principalmente=
o
cacau, a madeira e os terninhos Armani tamb=E9m. Desde que ele entrou no
mercado na Tropic=E1lia, ele e sua igrejinha fomentam a id=E9ia de uma MP=
B-pop
que inseriu guitarras no samba para esc=E2ndalo dos puristas - n=E3o meu.
Acontece que junto com uma id=E9ia pretensamente iconoclasta e liberadora=
,
estava l=E1 o
desejo de comercializar sua m=FAsica o m=E1ximo poss=EDvel. Fica at=E9 di=
f=EDcil de
entrar em detalhe, mas pra mim =E9 um absurdo o artista (palavra abastard=
ada e
que perdeu o sentido pelo uso indiscriminado e impr=F3prio) se interessar=
pela
opini=E3o de seus f=E3s. =C9 rid=EDculo. Sucesso? N=E3o se mede em discos=
vendidos,
mas pela qualidade art=EDstica. O artista deve na minha opini=E3o fazer o=
que
seu interior mais =EDntimo manda mesmo que s=F3 venda 6 discos - pra fam=ED=
lia -
e isso n=E3o =E9 o que a igrejinha baiana preconiza. Eles levam =E0s =FAl=
timas
consequ=EAncias a id=E9ia de se antenar com as =FAltimas modas e adaptar =
sua
"produ=E7=E3o" pra atender isso. Ali=E1s, esse jarg=E3o neoliberal foi as=
sumido por
todos os pretensos artistas que acham que Arte =E9 um "produto", uma
commodity. Produto o rabo deles.
Amparado por uma ret=F3rica que busca defender o uso de uma pretensa
"liberdade" frente =E0 m=FAsica mais "dif=EDcil", seja por ser muito regi=
onal
(samba VERDADEIRO, choro etc), seja por ser herm=E9tica, a igrejinha grit=
ou
fundo na alma da classe m=E9dia brasileira h=E1 d=E9cadas. Pela primeira =
vez um
brasileiro n=E3o precisava se sentir culpado de n=E3o gostar de samba do =
morro e
de gostar dos Bee Gees, ou da famigerada discoteca cujo ritmo Caezinho
promoveu em diversos megasucessos. A ordem =E9 "liberar geral", ser "oda=
ra".
Nada de "encuca=E7=F5es", "repress=F5es" ou "patrulhas". "Liberdade" foi =
um
poderoso argumento para
mascarar a realidade: o interesse asqueroso de se utilizar do que estava
mais =E0 m=E3o para promover aumento das vendagens de seus discos e shows.
Apelando para o m=EDnimo denominador comum a igrejinha alcan=E7ou a f=F3r=
mula do
sucesso: utilizar algum cheiro envergonhado de ritmo brasileiro, adiciona=
r
generosas por=E7=F5es do =FAltimo modismo em termos de timbres sintetizad=
os,
processadores de efeitos e t=E9cnicas que copiam dos discos de pop de suc=
esso
mundial, untar tudo isso com o ritmo do momento (pop, funk, rap, hip-hop,
balada =E1gua-com-a=E7=FAcar) bater no liquidificador das r=E1dios pagas =
pelas
multinacionais e pronto: mais um sucesso saindo da linha de montagem.
Amparando toda a arma=E7=E3o, uma defesa perfeita contra a meia-d=FAzia d=
e chatos
que n=E3o engolem essa treta: imediatamente eles s=E3o tachados de retr=F3=
grados,
puristas, velhos, chatos, saudosistas, etc - e assim anulados imediatamen=
te,
transformados em motivo de riso.
Toda essa poderosa estrutura envolve todo o mercado com uma unanimidade
fabricada por jornalistas que ou s=E3o pagos para adular e mentir louvand=
o e
enaltecendo merda e fazendo-a cheirar melhor, ou que n=E3o s=E3o pagos, d=
e t=E3o
est=FApidos e criados que foram nessa inoc=EAncia n=E3o possuem cultura s=
uficiente
para perceber o engodo e se juntam ao coro dos contentes achando-se parte=
de
uma desejada "modernidade"; h=E1 publicit=E1rios, h=E1 rep=F3rteres, h=E1
divulgadores, promotores, enfim, h=E1 uma mentira institucionalizada que
envolve poderos=EDssimos interesses financeiros. Caezinho e sua igrejinha=
s=E3o
uma institui=E7=E3o. Tudo que eles dizem =E9 verdade, e enche as almas da=
classe
m=E9dia de um g=F4zo org=E1smico, pois =E9 o que elas querem ouvir - afin=
al as
pesquisas de opini=E3o j=E1 mostraram o que querem ouvir - estamos na =E9=
poca da
"interatividade" - liberando-as para chafurdarem no pior da excresc=EAnci=
a
f=E9tida malcopiada das paradas de sucesso mundiais que, se por um lado c=
ausam
um efeito colateral "menor" que =E9 o esquecimento da rica cultura popula=
r
brasileira, no entanto tem uma suprema qualidade - d=E1 dinheiro.
>mas ele nao disse em lugar
>nenhum que tais composicoes fossem do mesmo nivel dos classicos...
Nada como ser politicamente correto. Diz-se o que quer, aproveita-se a on=
da,
ganha-se dinheiro, evita-se mexer no que =E9 consagrado e quando =E9 cob=
rada
coer=EAncia, sai-se queixando de sofrer patrulhamentos.
>no meu pa=EDs, na mesma epoca se ouvia muito
>mais Roberto Carlos, os Incriveis, Wanderlei Cardoso, Marcio Greik,
>...sera que nos anos trinta a musica ouvida era
>toda da qualidade da de Noel? Ou a porcariada foi esquecida?
como j=E1 disse, vivemos h=E1 umas 2 d=E9cadas um fen=F4meno in=E9dito de
transforma=E7=E3o de tudo em objetos com potencial de lucro. Isso faz com=
que a
=F3bvia busca de sucesso em todas as =E9pocas se revista de um significad=
o
pr=F3prio hoje, n=E3o se podendo comparar estes dois momentos t=E3o difer=
entes
assim t=E3o leviananmente. =C9 comparar alhos com bugalhos.
>pra mim tambem, ao contrario de voce, =F3 abnegado Alvaro, nao me amarra=
o
>dinheiro nao, so as coisas que ele pode comprar...
Tamb=E9m adoro dinheiro e todas as coisas boas da vida que ele pode compr=
ar.
S=F3 acho que minha consci=EAncia me impede de fazer coisas imorais s=F3 =
pra
ganh=E1-lo. Fazer m=FAsica que est=E1 na moda =E9 uma destas coisas imora=
is. Como
sou muito pregui=E7oso pra trabalhar e muito nervoso pra roubar, me dedic=
o =E0
atividade de gigol=F4, pois =E9 moralmente mais aceit=E1vel para mim, e b=
em
lucrativa.
> Em outro mail vc que critica tanto a americanizacao reclama da
pouca
>quantidade de lancamentos de cds de jazz no pais...curioso, nao?
N=E3o =E9 curioso n=E3o. =C9 que, contaminado pelo simplismo alardeado pe=
lo seu
=EDdolo, vc esquece que m=FAsica boa pode vir de qualquer lugar e temos q=
ue
estar abertos para receb=EA-la e valoriz=E1-la como merece, utilizando-a =
como
influ=EAncia e para realmente somar com nossa m=FAsica e faz=EA-la evolui=
r,
progredir. Esse falso dualismo - ou somos caetitas papa-lixo sem crit=E9r=
io ou
somos tinhor=F5es - s=F3 existe na cabecinha de vento do seu =EDdolo de b=
arro
fedorento, que a vendeu para todo o Brasil.
> Pra mim o que ocorre e a democratizacao do pais,
Caramba, ainda outra vez... Esses caras s=E3o g=EAnios, eles metem no fi=
l=F3 dos
brasileiros uma peroba ardida da peste e todo mundo fica achando que
escolheu esse destino, e ainda fica feliz de levar a mandioca.
Isso me traz =E0 mente... Desculpe louvar a cultura americana de novo, ma=
s
adoro o Mark Twain, e num seu livro (Tom Sawyer) um menininho louco pra
brincar na rua =E9 obrigado a pintar o muro de casa, para seu desespero.
Quando seus coleguinhas v=EAm, ele finge ter o maior prazer pintando o mu=
ro, e
logo eles exigem que ele os deixe faz=EA-lo, pelo que ele cobra deles v=E1=
rios
ped=E1gios e vai brincar alegre, enquanto os idiotas fazem fila pra pinta=
r seu
muro.
>(no Rio) se ouvia os discos de Orlando Silva
>com arranjo do Radames...o resto ouvia a mesma porcaria que se ouve ate
>hoje...
Isso contraria o que foi expressamente dito por aquele tribuneiro e que d=
eve
estar registrado nos "anais" da tribuna.
> Esse mito da educacao precisa ser revisto, e claro que pro
>pais evoluir e crescer quanto mais gente educada melhor, mas nesse nosso
>assunto eu duvido que mude muito...
Pronto! de tanto insistir, achei uma frase com a qual concordo 100%! Com =
a
merda da elite que s=F3 quer tirar proveito, e uma classe m=E9dia sem esp=
=EDrito
cr=EDtico e sem vontade de melhorar, nosso destino =E9 piorar! =E9 isso m=
esmo!
>os fas da musica sertaneja que eu
>conheco nao sao somente pessoas ignorantes, ou sem formacao...quem danca
>balancando o tchan a mesma coisa.
De novo, concordo 100%. Hoje todas as pessoas da classe m=E9dia que conhe=
=E7o
AMAM pelo menos um sen=E3o todos da seguinte lista: pagodinho, sambunda,
pseudosertanejo neobrega, pop raqu=EDtico - o que faz de mim um exilado =
no
meu
pr=F3prio pa=EDs.
A prop=F3sito, a essa altura voc=EA j=E1 deveria estar achando estranho q=
ue essa
merda emanasse da cabe=E7a do pov=E3o, n=E9? Desde quando a classe m=E9di=
a
brasileira em peso acompanhou o pov=E3o no gosto ao partido alto, ao bai=E3=
o
(neoforr=F3brega n=E3o conta hem), =E0 literatura de cordel, ao siriri, a=
o
bai=E3o-de-dois, =E0 Folia de Reis, ao maracatu, ao jongo, ao bumba-meu-b=
oi...
Acorda, R=F4mulo, acorda...