Re: O que faz um bom samba de bloco?

Luis Filipe de Lima (lfilipel@OPENLINK.COM.BR)
Mon, 1 Feb 1999 18:50:08 -0200

Clique aqui para responder esta mensagem

At 03:24 01/02/99 +0000, Paulo Eduardo Neves wrote:
>Pessoal,
>
>A pergunta do titulo me veio `a cabeca neste final de semana. Nestes
>dias assisti duas disputas de samba de bloco, a do "Simpatia e' Quase
>Amor" e a do "Nao Muda nem Sai de Cima".

Pois é, Paulo, atendendo 'a pergunta do Ricardo de SP sobre o Simpatia e demais blocos cariocas, aproveito para me estender sobre o assunto. Ha' cinco anos saio tocando violao junto com o Simpatia, ha' tres estou no juri, venho me envolvendo com a organizacao do bloco a cada ano e estou escrevendo um livro contando a historia do Simpatia, que neste 99 esta' completando quinze carnavais.

Em 85, 'as vesperas da Nova Republica, foram fundados dois blocos carnavalescos na Zona Sul do Rio de Janeiro: Simpatia E' Quase Amor e Bloco do Barbas. Foram os primeiros - junto com o Bloco do Clube do Samba, do Joao Nogueira, fundado em 84 - de toda uma familia de blocos que acabaram por revitalizar o carnaval de rua na cidade. Primeiro, por conta de romperem com a estrutura das "bandas" em voga desde os anos 60, da qual a arquiceleberrima Banda de Ipanema e' o principal modelo: presenca de instrumentos de sopro, bateria reduzida para nao abafar os sopros que tocam sem amplificacao, execucao de varios sambas e marchas. Nos blocos (na verdade um modelo bem mais antigo de agremiacao carnavalesca), nao ha' sopros, a bateria pode ter mais ritmistas, ha' um, dois ou no maximo tres sambas cantados durante o desfile, compostos especialmente para a ocasiao e acompanhados de cavaquinho e violao.

Mas a retomada no carnaval de rua carioca pelos blocos da Zona Sul nao tem tanto a ver com este formato recuperado, e sim com a participacao popular mais intensa e espontanea, substituindo, no ambito da Zona Sul, o papel das escolas de samba, que num incrivel paradoxo foram se distanciando do povo. Nao por acaso, o Simpatia foi fundado por um grupo ligado ao movimento pro'-diretas. O Barbas "eh" do Nelsinho Rodrigues, militante e ex-preso politico. Suvaco, Bloco de Segunda, Nao Muda Nem Sai de Cima, Meu Bem Eu Volto Ja', Bloco do Bip-Bip e Imprensa que Eu Gamo guardam o mesmo espirito. E todos sao organizados na base da "acao entre amigos": na maioria dos blocos nao ha' uma diretoria formalmente estabelecida, nao ha' estatutos, nao ha' registro de pessoa juridica - ao contrario, por exemplo, do que acontece com os blocos afro de Salvador. E ninguem ganha dinheiro com isso. Ao contrario, 'as vezes e' preciso tirar do bolso para que o bloco saia. Por outro lado, ninguem paga para desfilar, nao ha' cordao de isolamento. As camisetas, em muitos casos principal fonte de receita do bloco, nao sao obrigatorias para o foliao. O aluguel do carro de som, a cerveja da bateria e os segurancas sao pagos com a ajuda de pequenos comerciantes do bairro, com a renda de ensaios (caso do Simpatia e do Suvaco), alem da venda de camisetas. E mais: tudo feito por gente que gosta de samba o ano inteiro.

O Simpatia e' hoje o maior bloco da cidade. Desfila em Ipanema, partindo da Praca General Osorio, no sabado anterior 'a semana de carnaval e novamente no domingo de carnaval. Ano passado, no segundo desfile, sempre mais concorrido, o Simpatia arrastou 'as ruas cerca de dez mil folioes, pelas contas dos principais jornais cariocas. Mais do que qualquer escola de samba. O CD comemorativo dos 15 anos do bloco, com os sambas que ja' desfilaram pelo Simpatia, contou com a colaboracao de nomes como Martinho da Vila, Beth Carvalho, Zeca Pagodinho, Monarco, Walter Alfaiate, Luiz Carlos da Vila, Moacyr Luz e outros, sem cobrar um tostao. O disco foi produzido na base da "vaquinha": 180 cotistas bancaram o estudio, o cache dos musicos e a prensagem. Capa e encarte foram feitos pelo prestigiado Elifas Andreato, tambem de graca. E, ja' que temos falado de criticos aqui na lista, o CD recebeu elogios rasgados do JB (Tarik de Souza) e Globo (Braulio Neto)... Depois dessa propaganda toda sobre o CD :-), aviso que ele esta'  'a venda, por R$ 15, por enquanto so' na Modern Sound, em Copacabana, no bar Bip-Bip, ou com o pessoal do bloco, inclusive o tribuneiro que vos escreve. Em breve vamos distribui-lo por mais lojas aqui no Rio. Quem estiver interessado, em especial quem nao for do Rio, pode entrar em contato comigo.

Encerrando o capitulo: informacoes mais detalhadas sobre o "amarelo e lilas de Ipanema" podem ser encontradas no site do bloco, da responsabilidade de nosso amigo Alberto: www.sitesbrasil.com/simpatia. O CD tambem pode ser encomendado la'.

>No Simpatia eu prestei bastante atencao na disputa, por acaso o samba
>que eu mais gostei na final foi o primeiro a rodar. O samba foi tambem o
>mais mal "puxado". Na Muda deu para perceber bem a importancia do
>puxador. La' eu estava distraido, sem prestar atencao nos sambas
>concorrentes, o unico que me chamou a atencao foi o interpretado pelo
>Paulinho Mocidade. Era o do Edmundo Souto e Eduardo Goldenberg que
>ganhou a disputa. O samba era bom, nao sei nem dizer se era melhor ou nao,
>mas com certeza foi o melhor interpretado. Isto fez uma enorme diferenca.
>
>Uma vez vi uma entrevista do Martinho da Vila falando como era dificil
>compor samba-enredo. Isto porque alem da musica ser boa, ela tinha ainda
>que ser legal de cantar em coro, e ainda tinha que boa para cantar em
>movimento (com as pessoas andando). Dai ele so' sabia se um samba que
>ele tinha composto era bom mesmo qdo era cantado na quadra e as pessoas
>acompanhavam.
>
>E entao, o que faz um bom samba de bloco? Ou pelo menos o que faz ele
>ser escolhido.
>
>Filipe, fala ai sua opiniao ja' que voce foi jurado do Simpatia:-)

Essa discussao tem a ver com os papos sobre critica que tem rolado aqui na lista. E sobre as diferencas entre "sucesso de critica" e "sucesso de publico". E', Paulo, posso falar por mim apenas. Esse ano minhas opinioes nao combinaram muito com a dos demais jurados - excecao feita ao Edmundo Souto, no juri ha' alguns anos, com quem sempre concordo. E o juri votou no que considerou o "sucesso de publico". O samba vitorioso, de Noca da Portela, Roberto Serrao e outros, e' um bom samba: vibrante, animado, letra bem construida, tudo a ver com o bloco. Feito nas regras da arte, vai desfilar honrosissimamente pelo Simpatia. Os outros dois finalistas apresentavam melodias mais trabalhadas (em especial o do Jorgito, Agenor e Wanderley, que ficou para desempate com o do Noca). Tambem gostava mais do samba que ficou de fora desse desempate, o do Lefê, Serginho Meriti e Luizinho. Belissima melodia (talvez com reparos 'a estrofe do meio) e a melhor letra, sem duvida. Como vc observou, ele nao foi bem apresentado. Ai' esta' o x do problema.

Na condicao de jurado, mesmo abstraindo ao maximo a questao da apresentacao do samba, sempre procuro observar a reacao do publico, que, e' claro, depende muito de como o samba e' defendido. Afinal, nao posso julgar so' pelo meu gosto. Ainda estava comentando ontem com amigos no Bip: se fosse por mim, no Simpatia so' ganhava valsa, marcha-rancho ou choro-cancao... :-)

Alias, um parentese dedicado ao tribuneiro que queria saber das composicoes do Sergio Cabral: ele fez uma belissima marcha-rancho em parceria com Rildo Hora, que concorreu no segundo ano do Simpatia. Nao ganharam, mas tiveram a composicao gravada no LP comemorativo dos cinco anos do bloco (hoje uma raridade).

Claro que, como o Simpatia e' um bloco feito por pessoas que gostam de samba e conhecem o assunto, seus sambas nao tem como caracteristicas o apelo facil, letras de axe' music e tudo o mais. Basta ouvir o CD dos 15 anos. Mas, por outro lado, nao ha' como nao prestar atencao 'a reacao da quadra - e, no geral, o samba do Noca empolgou mais, foi o mais cantado e aplaudido. Reconheco, a vantagem nao era la' muito grande, mas nao acharam assim meus colegas de juri. E ainda estou dando o desconto para a questao das torcidas; procuro sempre olhar mais para quem nao esta' proximo ao palco.

Por isso tudo a disputa de sambas de bloco ou sambas-enredo, quando feita a serio e em condicoes ideais, tem de acontecer numa serie de eliminatorias, durante varios ensaios. Isso porque, aliando a qualidade da composicao 'a interpretacao que lhe e' dada, o samba tem chances de ir "pegando" ou nao. Claro, cada bloco tem suas caracteristicas, elas devem ser observadas. O Barbas sai com sambas de cronica politica, muitas vezes. O Bloco de Segunda tambem, suas letras costumam ser ainda mais escrachadas. O Suvaco, que nos ultimos anos mudou um pouco seu perfil, atraindo mais adolescentes, ousa nos sambas. O Meu Bem Eu Volto Ja' apresenta letras satiricas. Os sambas do Simpatia, por sua vez, costumam vir com melodias elaboradas para o padrao, sem fixar muito sua atencao na cronica do ano. O que nao quer dizer que um bom samba que fuja 'as caracteristicas do bloco nao tenha chances de ganhar.

O que acontece e' que muitas vezes acaba mesmo ganhando quem "joga pra galera". Um excelente samba que acabou sendo cortado na primeira eliminatoria do Simpatia foi o de Eduardo Medrado, vencedor no bloco em 97 e este ano na Imperatriz. Melodia bastante elaborada, de primeirissima qualidade, porem de dificil assimilacao imediata, o samba nao foi bem defendido. Caiu, talvez injustamente. O contrario, porem, aconteceu com o chamado samba "das meninas", assinado por onze compositoras. Defendido pelo segundo puxador da Imperatriz, foi de longe o mais bem apresentado de toda a competicao. Mas nao chegou 'as finais, apesar de ser bem escrito. Misterios do samba...

Alem do Paulo, assistiram 'a final Helion, Ricardo Mello, Cid Benjamin e Ana Meirelles (uma das onze "meninas"), todos aqui da lista. Nao sei se alguem mais. Aproveito e pergunto: o que voces acharam? "Sucesso de critica" ou "sucesso de publico"? :-)

Abracos pre-carnavalescos,
Filipe