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DVD do Nelson Gonçalves...

Mensagem da Tribuna Livre, uma lista de discussão sobre samba e choro
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Autor: Eduardo S. Martins <edusima(arroba)uol.com.br>
Data: Ter 23 Jun 2009 - 11:42:32 BRT

No palco com Nelson

Canções e lembranças mais íntimas de Nelson Gonçalves são reunidas em DVD
com suas participações no Fantástico e em um especial glamouroso, dirigido
por Augusto César Vanucci, ainda na Rede Globo, no início dos anos 80
Entre convidados como Nelson Cavaquinho e Evaldo Gouveia, Nelson Gonçalves
ressurge em DVD, quando faria 90 anos

No último domingo, Nelson Gonçalves completaria 90 anos. Dono de uma vida
atribulada e de um vozeirão que igualava os mais diferentes ritmos e
gêneros, o cantor gaúcho, cuja gagueira era dominada com um jeito de falar
rápido que lhe rendeu o apelido de Metralha, se tornou um cantor de
multidões, cujas vendagens são estimadas em cerca de 65 milhões de cópias,
sem contar as vendas após sua morte, em 18 de abril de 1998. Marcando a
data, a Sony e a Globo Marcas lançam o DVD ´Eternamente Nelson´, que reúne
um show gravado em 1981 para comemorar seus 40 anos de carreira, além de
clipes exibidos no programa Fantástico e de duetos dos álbuns ´Ele & Elas´
(1984), ´Ele & Eles´ (1985) e ´Ele & Elas. Vol 2´ (1986), também divulgados
pela emissora. Há ainda um depoimento de 15 minutos em que o ídolo fala do
início e de seu envolvimento com as drogas.

Vale lembrar sua trajetória. Antônio Gonçalves Sobral saiu de Santana do
Livramento com a família, portuguesa, ainda criança para o bairro do Brás,
em São Paulo. Deixou o colégio na infância, virou engraxate, sapateiro,
pugilista (lutou até com ‰der Jofre) e garçom. Dizem que até cafetão. Por
sinal, exaltava sua virilidade até nas entrevistas de divulgação de seu
último álbum ´Ainda é cedo´ (1997), em que cantou de Legião Urbana a Lulu
Santos, Cazuza, Caetano Veloso, Herbert Viana e Paula Toller. Ao mesmo
tempo, depreciava as ´danças da garrafa´ de então. E pensar que, no final
dos anos 30, fora reprovado na Rádio Nacional e Mayrink Veiga. Dois anos
depois, em 41, estava sendo gravado pela RCA Victor, em uma história que
descreve, rapidamente, nos extras do DVD (veja ao lado). Também conta sobre
seu drama com as drogas, já nos anos 60, mas omite se um dos motivos seria o
´ostracismo´ suscitado pela Bossa Nova. Ostracismo que não combina com sua
vendagem.

Correndo para entrar no ringue, antes da homenagem, ele próprio sintetiza:
€œMeu nome é Antônio Gonçalves Sobral, gaúcho de Livramento. Minha vida
sempre foi uma luta; minha arma, minha voz. Meu escudo, minha mulher, Maria
Luiza. Meu destino: cantar€. Com regência do Maestro Cipó e texto de Hilton
Gomes, ´Nelson Gonçalves 40 Anos´ foi registrado em 1981, com direção de
Augusto César Vanuccci. Nelson aparece em grande estilo, recebendo seus
convidados com seu porte inabalável, entre roteiro ensaiado e um regional de
respeito, todos a black-tie, muitas câmeras, luz, cenário, holofotes no
público, efeitos, edição precisa em 22 minutos.

Começa por Nelson Cavaquinho, autor, com Guilherme de Brito, de ´Dono das
Calçadas´, música que, segundo o próprio xará do mundo do samba, fora feita
para Gonçalves, embora fale de um violão e uns ´cabelos prateados´ que
combinam mais consigo, enquanto os versos ´Eu que já vaguei nas madrugadas/
e já fui o dono das calçadas/ Pra todos aqueles que me estenderam a mão/
Dividi meu coração´ já soem familiares a ambos. Em seguida, homenageia
´Carlos Gardel´ (Herivelto Martins/David Násser), em tango com direito a
breque. O samba ´Mais um ano sem Noel´ (Wilson Falcão/Portinho) chega com
cordas e sopros. Ao lado do flautista Copinha, leva, com o restante do
regional, ´Meu vício é você´ (Adelino Moreira). Depois, com o violão de
Evaldo Gouveia sumido entre o naipe de cordas e uma vez feminina de
contraponto, agradece a homenagem do cearense e do capixaba Jair Amorim em
´Despedida´. Depois, canta ´Nem às paredes confesso´ (Artur
Ribeiro/Francisco Ferrer): ´o fado também corre em minhas veias´. E termina,
com o mesmo vozeirão e a postura inabalável, ao microfone, com o sucesso
´Negue´ (Adelino Moreira/Enzo de Almeida Passos).

Mais lembranças

Em primeiro de abril de 1979, uma mentirinha técnica, de péssimos gosto e
qualidade: um encontro ´virtual´ com Orlando Silva, morto desde o ano
anterior em ´šltima Estrofe´ (Cândido das Neves) e, na seqüência,
homenageado com imagens de seu enterro e do compositor Adelino Moreira, em
´Pedestal de Lágrimas´. Com Martinho em sua elegância meio black power, meio
do samba mesmo, Nelson dividiu, em 15 de setembro de 1985, a valsa
´Lembranças´ (Raul Sampaio/Belmil Santos), que na sua voz acaba, como
sempre, um bom samba-canção. Com Alcione cheia de ziriguidum, de coque e em
um vestido amarelo, ele chega cheio de charme, mas a escolha poderia ter
sido algo mais romântico que o samba ´Louco´ (Wilson Baptista/Henrique de
Almeida). Era 10 de março de 1985. Já em 14 de outubro de 1984, em um
arranjo mais moderno, ele caía na bossa com Fafá de Belém na ´O negócio é
amar´ (Dolores Duran/Carlos Lyra), que deve lhe ter constrangido um pouco
com o verso ´tem mulher maluca que atura porrada´...

Em 6 de janeiro de 1980, Ivor Lancellotti e Paulo César Pinheiro pintaram um
´Auto-Retrato´, que, entre imagens de Nelson entre um camarim e o palco
cantando o tango, diz que ´faria tudo de novo´... O bolero ´Fica comigo esta
noite´ (Adelino Moreira/Nélson) chega com ele sozinho no palco, em
pot-pourri com os sambas-canções ´Meu Dilema´ e ´Escultura´, também da lavra
com Adelino, e ainda ´Pensando em ti´ (Herivelto Martins/David Nasser).
Ainda na sessão dedicada aos clipes do Fantástico, dirigidos por José Mário
(?), ´Onde anda você´ (Vinicius de Moraes/Hermano Silva) o traz entre cenas
da noite carioca, ´na rotina dos bares e da boemia´, tomando um scotch em
busca de um amor do passado. Em ´Minha Rainha´ (Rita Ribeiro/Lourenço), não
se entende bem o porquê de tantas fotos do próprio Nelson, já que a música é
outro samba-canção cheio de fossa. Também não dá para entender, ao menos
hoje, o glamour de show, em boate, claro, com um desfile de fãs pelas mesas,
já que a canção nem é tão conhecida, como a seguinte, o maior de todos os
seus clássicos: ´A volta do boêmio´ (Adelino Moreira). Mais magro, como os
arranjos apenas entre violões, de camisa aberta, anel e medalhão de ouro,
Nelson o canta, em tom de despedida, em outro pot-pourri com os melancólicos
´Folhas Mortas´ (Ary Barroso) e ´Deusa do Asfalto´ (Adelino Moreira), com o
qual ´gostaria de ser lembrado´.

DVD

Eternamente Nelson
Nelson Gonçalves

R$ 39,90
73 MINUTOS
1981/2009
SONY/GLOBO MARCAS

FIQUE POR DENTRO

No ringue, o ´Metralha´ fala da carreira e drogas

Em depoimento de quinze minutos nos extras do DVD, em um ringue de boxe,
Nelson Gonçalves conta detalhes do início da sua trajetória, do sucesso e de
seu drama com as drogas. Primeiro, diz que queria mais do que cantar
profissionalmente em São Paulo, a meta era o Rio. Então, roubou uma grana do
irmão, e picou a mula para a Cidade Maravilhosa. Por lá, arrumou fama de
valentão da Lapa, motivado pelo interesse da mulherada. Mas a carreira não
vingou, não passou em nenhum teste, emagreceu, desistiu. Até Ary Barroso o
aconselhou a voltar ao boxe em São Paulo. ´Tu não canta nada!´, brada o
próprio Nelson, no ringue. ´Voltei pra São Paulo, voltei pro bar do meu
irmão´. Ser garçom, claro, não era a idéia. Gravou um acetato, e, de volta
ao Rio, conquistou um diretor da RCA Victor, que desistiu de lançá-lo ao ver
que Nelson era gago. Mas logo o imbróglio foi desfeito. Nelson gravou e
assinou contrato com o Cassino Copacabana, deixando de lado a Lapa em
direção à Zona Sul. Fez sucesso com ´Maria Bethânia´ (Capiba), ´Caminhemos´
(Herivelto Martins)... ´Passei a ser um dos melhores cantores do Brasil´,
descreve, sem modéstia. ´Fiquei assediado, muitos shows, aquela coisa. Mas,
sempre tem um mas... O meu foram os tóxicos´, acrescenta. Seu vício começou,
segundo ele, sem ter noção do que se tratava, induzido. Mas logo estava
´totalmente dependente da droga´. Separou-se, ´aí me entreguei mais ainda´.
Vendeu carros, apartamentos, ficou sem gravar, sem se apresentar. ´Fui a tal
ponto que eu, cantor famoso, Nelson Gonçalves, fui cantar várias vezes por
cinco gramas de cocaína na casa de um malandro qualquer no subúrbio´. Casado
outra vez, vai para São Paulo, mas continua na balada, chegando a espancar a
esposa Maria Luíza várias vezes, inclusive com a arma que levava para as
poucas apresentações que apareciam. ´Virei bandido, marginal. Passei a morar
de aluguel, me cobrindo com jornal e me alimentando de favor´. Após um mês
numa casa de detenção, decidiu parar, com o célebre jeito, digno de um filme
como toda a sua vida: se trancou em casa, depois de jogar um quilo de pó na
privada. Ainda apoiado pela mulher, viveu o drama da abstinência, descrito
em detalhes escabrosos. No final, faz uma profecia que não se concretizou:
´vocês vão me aturar até 2001, porque até lá é que vou cantar´, metralhou.


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Recebido em Tue Jun 23 20:09:06 2009

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