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RES: O samba da BahiaLista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros. |
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Autor: Gabriel Gomes (gabrielg(arroba)fnde.gov.br)
Data: Sex 01 Set 2006 - 08:56:27 EST
Mário, vou discordar um pouco de você.
Apesar de existirem as tais fórmulas, acredito que não seja a simplicidade e falta de lirismo que leva as pessoas a gostarem desse tipo de "música". O que acontece é uma espécie de lavagem cerebral coletiva conseguida as custas de muito jabá.
Funciona assim: a música toca umas 20 vezes (estou chutando, não sei se é isso) por dia em cada emissora de rádio. No fim de semana o grupo/cantor/cantora aparece em todos os programas populares (Faustão, Gugu, Sabadaço, etc...). Sem contar outros meios de divulgação.
Não acredito que seja necessário nenhum conhecimento para gostar de música boa. Essa educação musical que muitos falam, deve impreterivelmente passar por estudo musical ou mesmo lingüístico. Acredito que o grande problema seja a falta de acesso à boa música.
Quer ver? Coloque na vitrola o Carinhoso ou Rosa de Pixinguinha. Todo mundo sabe a letra (mesmo que mais ou menos). São letras difíceis. As harmonias então... e isso não impede que gostem da música.
Repare que há alguns anos o que se ouvia nas rádios eram músicos do nível de Chico, Caetano, Gilberto Gil, Jobim , João Gilberto, não dá pra citar nem uma fração. O que se tinha de mais popular (a simplicidade musical da época) eram do nível de Roberto e Erasmo. Experimente voltar ainda mais no tempo e verá que os artistas que tocavam nas rádios são exatamente aqueles mestres que tanto reverenciamos atualmente.
As pessoas naquela época não tinham mais educação musical do que hoje. O que faz com que sejamos privilegiados é o fato de que, um dia, alguém nos apresentou à música boa. Um dia tivemos a oportunidade de conhecer outras freguesias musicais, deixando o reino da bestialidade e massificação cultural.
Vou contar uma história. A professora de música de minha neta de oito anos,
que está na segunda série, está usado duas músicas populares -- A Banda
(Chico Buarque) e o Samba de Uma Nota Só (Antonio Carlos Jobim/Newton
Mendonça) em suas aulas, ao lado das canções infantis mais tradicionais.
Outro dia, estava dando uma mão para a mocinha, com uma vizinha de 15 anos
perto. Toquei no computador o Samba de Uma Nota Só numa versão instrumental
(do próprio Jobim, no primeiro Lp que ele gravou nos Estados Unidos, The
Composer of Desafinado Plays, com o Edison Machado na bateria). A mocinha
ficou espantada. Nunca tinha ouvido algo semelhante. Pediu para ouvir com a
letra. Só tinha uma versão bem jazzística, com a Leny Andrade. A mocinha
detestou.Notei que ela não entendia toda a letra, Com A Banda, foi ainda
pior, apesar de ela ter gostado muito do ritmo.
Bom, as harmonias do maestro Jobim não são fáceis -- embora em muitos casos
as melodias o sejam. Mas me pergunto, às vezes. Gostar de música não seria
um conhecimento adquirido? Uma pessoa que não tenha a base de conhecimentos
necessária, inclusive do idioma, vai conseguir aproveitar nossos sambas,
choros e etcéteras? Até que ponto somos privilegiados?
Obviamente, super-simplifiquei. Mas é isso. Gostaria de ter uma maneira de
dar a mais gente acesso ao mesmo prazer que sinto com a música. Mas está
difícil. Parece que cada vez mais.
Abraços.
Mário
----- Original Message -----
From: "SANDRA FARÁ" <sbfara@oi.com.br>
To: "Tribuna Samba-Choro" <tribuna@samba-choro.com.br>
Sent: Thursday, August 31, 2006 12:50 PM
Subject: RES: [S-C] O samba da Bahia
Caros tribuneiros,
Toda essa conversa sobre axé , me lembrou um texto curioso e
equivocadamente atribuído à Luís Fernando Veríssimo, mas cujo autor é Vítor
Trucco.
Sem querer ofender aos amantes de pagodes e axés, acho que contempla um
pouco aqueles que são mais exigentes quanto a qualidade daquilo que ouvem.
Reproduzo uma parte do texto abaixo (acredito que muitos de vocês já devam
conhecer):
"Tudo começou quando eu tinha uns 14 anos e um amigo chegou com aquele
papo de
"experimenta, depois quando você quiser é só parar..." e eu fui na dele.
Primeiro ele me ofereceu coisa leve, disse que era de "raiz", da terra, que
não fazia mal, e me deu um inofensivo disco do Chitãozinho e Xororó e em
seguida um do Leandro e Leonardo.
Achei legal, uma coisa bem brasileira. Mas a parada foi ficando mais
pesada, o consumo cada vez mais freqüente, comecei a chamar todo mundo de
"amigo" e acabei comprando pela primeira vez.
Lembro que cheguei na loja e pedi: " Me dá um CD do Zezé de Camargo e
Luciano."
Era o princípio de tudo! Logo resolvi experimentar algo diferente e ele me
ofereceu um CD de Axé. Ele dizia que era para relaxar; sabe, coisa leve...
Banda Eva, Cheiro de Amor, Netinho, etc. Com o tempo, meu amigo foi me
oferecendo coisas piores: o Tchan,Companhia do Pagode e muito mais. Após o
uso contínuo, eu já não queria saber de coisas leves, eu queria algo mais
pesado, mais desafiador,que me fizesse mexer os quadris como eu nunca havia
mexido antes."
Aos mais curiosos, posso enviar em pvt o texto na íntegra.
Um abraço ,
Sandra.
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