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Clodo Ferreira interpreta SINHÔ

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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Autor: Sonia Palhares Marinho (soniapalhares(arroba)hotmail.com)
Data: Qui 10 Ago 2006 - 21:19:15 EST

Alô moçada!!!

Em homenagem ao meu amigo Clodo Ferreira que, além de grande compositor,
intelectual e profissional da educação (professor da Universidade de
Brasília - UnB), é também um ser humano de raras qualidades, transcrevo
abaixo a crítica que o Jornal Correio Braziliense publicou em 05.12.2005
sobre seu mais recente lançamento, o cd "Clodo Ferreira interpreta Sinhô",
cujo projeto tive o privilégio de ver o nascimento. O cd é mesmo um primor,
todos os elogios a esse trabalho são poucos diante da importância do resgate
da memória do samba que Clodo Ferreira de forma magistral nos presenteou.
Vale conferir!

Fonte: http://www2.correioweb.com.br/cbonline/cultura/cadc_mat_29.htm

"Pilar da tradição

Clodo Ferreira resgata obra de Sinhô e lança CD com tiragem comercial de
apenas 2 mil cópias

Irlam Rocha Lima
Da equipe do Correio

Em busca de fundamentos para implantar o curso de Comunicação e música no
currículo da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB),
Clodo Ferreira mergulhou, no começo desta década, em pesquisa sobre as
raízes da MPB.

Uma de suas fontes foi o selo paranaense Revivendo, no qual descobriu disco
com gravações originais de sambas de Sinhô, interpretados por, entre outros,
Carmem Miranda, Mário Reis, Francisco Alves e Vicente Celestino.

Imediatamente, Clodo se apaixonou pela obra do compositor, "um dos pilares
da tradição da nossa música popular, ao lado de Donga, João da Baiana,
Heitor dos Prazeres e Pixinguinha", como explica o especialista. Sem
resistir à tentação, em junho de 2003, o cantor e compositor, que até então
só havia interpretado as próprias criações, se apresentou no Clube do Choro
com um show em que prestou tributo ao autor de clássicos como Jura e Gosto
que me enrosco.

"Quando me veio a idéia do show, pensei em reproduzir a sonoridade próxima
da que se ouvia naquela época. E busquei interpretar os sambas-amaxixados de
Sinhô, como faziam os cantores de então. Uma tarefa difícil para quem não é
exatamente um cantor", comenta. Para acompanhá-lo, convocou Fernando Machado
(clarineta), João Ferreira (violão), Luiz Henrique (tuba), Denilson
Nascimento (flugelhorn) e Pedro Ferreira (percussão). Em 2004, o show foi
reapresentado no Conjunto Nacional, no lançamento do livro Tem mais samba:
das raízes à eletrônica, de Tárik de Souza.

Diante da repercussão do espetáculo, Clodo decidiu transformá-lo em disco.
"Para colocar isso em prática, criei um projeto e o encaminhei ao Ministério
da Cultura, visando a receber o benefício da Lei Rouanet. O projeto foi
aprovado e saí, então, em busca de apoio para executá-lo. No final do ano
passado, consegui o patrocínio da Eletrobrás. Entre março e agosto últimos,
gravei o CD no Zen Studio, com produção executiva de Ruy Godinho", conta. Ao
seu lado estavam os músicos que o acompanharam no show e dois convidados
especiais: o mestre do violão Alencar Sete Cordas e o jovem bandolinista
Dudu Maia.

Clodo Ferreira interpreta Sinhô acaba de sair, trazendo 13 faixas e design
gráfico de Nanche Las-Casas, que utilizou fotos de Juan Pratginestós. Os
arranjos foram criados por Fernando Machado (sopros), João Ferreira e
Alencar Sete Cordas (violões). O engenheiro de som Andy Costa assina a
mixagem (juntamente com Alencar e João) e a masterização. Foram prensadas 8
mil cópias, sendo 2 mil destinadas ao patrocinador e 500 para o Ministério
da Cultura. "Três mil e quinhentos exemplares serão distribuídos para rádios
públicas e comunitárias, escolas de música, universidades e bibliotecas de
todo o país. Eu ficarei com 2 mil CDs para comercialização."

Pérolas
Para compor o repertório do álbum, Clodo escolheu músicas que abrangem o
período entre 1928 e 1931. Outras só chegaram ao disco depois da morte de
Sinhô. Mário Reis foi o intérprete original de pérolas como Cansei, A medida
de Senhor do Bonfim, Sabiá e a citada Gosto que me enrosco. Francisco Alves
gravou Amar a uma
só mulher, Que vale a nota sem o carinho da mulher?. Já o maior sucesso do
compositor, Jura, foi lançado simultaneamente por Aracy Cortes e Mário Reis;
enquanto Gastão Formenti registrou Confissões de amor.

As músicas, de acordo com Clodo, são apresentadas com arranjos que
reproduzem o estilo de interpretação do período no qual foram compostas. "O
Fernando, o João e o Alencar foram responsáveis por transformar arranjos
originalmente concebidos para piano, em partituras para violão e
instrumentos de sopro". O cantor gostou
muito do resultado e observou: "Acredito que, com esse tributo ao Sinhô,
ampliei minhas possibilidades de expressão. Estou feliz por poder contribuir
para despertar o interesse, principalmente das novas gerações, pela origem
da música popular brasileira".

Teresina
Piauiense de Teresina, Clodo Ferreira era adolescente quando chegou a
Brasília, com a família, em 1965. Naquela época, o programa Jovem Guarda,
comandado por Roberto Carlos na TV Record, fazia o maior sucesso. Logo ele
se juntou a uma amiga e formou a dupla Ana e Clodo, que fazia cover de Leno
e Lílian em programas da TV Nacional. No final da década de 60, tocou
guitarra nas bandas Os Geniais, Os Continentais e Os Quadradões.

Em 1969, conheceu o compositor Zeca Bahia, de quem se tornou parceiro. Com
ele, Clodo viria a ganhar o II Festival de Música do Ceub, com Placa
luminosa, defendida pela banda Os Matuskelas. "Fiquei, também, em segundo
lugar com Sino, sinal, alerta", relembra. "Naquela época, me tornei amigo do
Fagner, que integrou o júri do festival, depois de conquistá-lo um ano antes
com Mucuripe".

Clodo continuou compondo até que, em 1976, ao se apresentar no programa
Mambembe, da TV Bandeirantes, em São Paulo, foi convidado por Ednardo para
gravar um disco na RCA, juntamente com os irmãos Climério e Clésio. "Nos
viram no programa e sugeriram que formássemos o trio Clodo, Climério e
Clésio. Então, naquele ano, gravamos nosso primeiro LP, o São Piauí. Juntos
no grupo durante 20 anos, os três gravaram mais cinco discos.

Com o fim do trio, se lançou em carreira solo em 1998, lançando o CD Cordas
de aço. Antes, ele havia emplacado sucessos como Revelação (em parceria com
Clésio), gravada inicialmente por Fagner, e depois por Simone, Wando e
Engenheiros do Hawaii; Cebola cortada, lançado por Ednardo; Por um triz, que
ganhou registro no álbum Romance popular, de Nara Leão, e Carece de
explicação, parceria com Dominguinhos, com gravação do cantor e sanfoneiro.
Em 2002, o cantor lançou o CD Gravura, com canções inéditas. Os dois CDs
saíram pela UnB Discos. (IRL)

CRÍTICA - Clodo Ferreira interpreta Sinhô ****

Sinhô contagiante

Há discos que nascem vitoriosos no projeto. Clodo Ferreira interpreta Sinhô
é um desses álbuns de idéias. Resgata as composições esquecidas desse grande
mestre da MPB. Sinhô é um dos construtores da musicalidade brasileira,
criando série de samba-choro de 1930, década chave que abriu os caminhos
rumo à
identidade musical brasileira. O repertório é primoroso e traz o bom humor,
a crônica do cotidiano, os amores e desamores de Sinhô.

Gosto que me enrosco é uma das delícias trazidas no disco de arranjos sem
invencionices, respeitando a sonoridade original. "Dizem que a mulher é a
parte fraca/ Nisto é que eu não posso acreditar/ Entre beijos e abraços e
carinhos/ O homem não tendo é bem capaz de roubar". Os versos do tempo em
que as mulheres não tinham sequer representatividade política mostram a
sensibilidade do compositor. A maioria das canções estava perdida em algum
lugar do passado.

Professor de violão é outro achado que expõe a ousadia do compositor: "Já
pode um preto cantar/ Na casa do senador/ Que tem palminha/ Desde os filhos
ao doutor."

Com a voz que se presta perfeitamente às canções de 30, Clodo Ferreira
dribla limitações de alcance e extensão. Cai bem nas canções nas quais
letras e melodias têm pesos importantes. Destaque para arranjos, adaptações
e para a orquestra, que anima esse lançamento. (Sérgio Maggio)
(...) "

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