Clique para a página principal

Cem anos de perdão para os piratas (Por: Maestro Jorge Antunes)

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
 Página principal » Tribuna Livre » Arquivo das mensagens » Indice mensal
Nova mensagem Responder Mensagens por data Mensagens por discussão Mensagens por assunto Mensagens por autor

Autor: Sonia Palhares Marinho (soniapalhares(arroba)hotmail.com)
Data: Qua 09 Ago 2006 - 17:23:30 EST

Texto de autoria do maestro Jorge Antunes, militante político, compositor,
arranjador e professor da Universidade de Brasília - UnB

"Cem anos de perdão para os piratas

Por: Jorge Antunes

Compositor, maestro, professor titular da UnB

  Uma luta renhida pelo monopólio do disco vem sendo travada nos bastidores
internacionais. A luta tem conseqüências graves para a cultura brasileira,
mas nossa imprensa não tem divulgado a questão com o destaque devido.

No dia 27 de julho a gravadora EMI divulgou sua decisão: desistiu,
temporariamente, de comprar a Warner Music. A decisão da EMI foi
conseqüência da corajosa decisão do Tribunal Europeu de Justiça, que no dia
13 de julho anulou a autorização da fusão entre o grupo japonês de música
Sony e o alemão BMG, que havia sido concedida pela Comissão Européia em
2004. A fusão entre as duas empresas gerara a segunda maior companhia
mundial do setor, atrás apenas da Universal. A decisão inédita da primeira
instância da Corte Européia acatou a contestação de gravadoras independentes
à transação. Mas como ainda cabe recurso, o rumo ao monopólio pode ser
retomado futuramente.

O mercado fonográfico é capitaneado por seis grandes empresas gravadoras de
discos, sendo que nenhuma delas é brasileira. A tendência dessa indústria é
cruel e perniciosa, porque a monopolização gradual é a marca nesse mercado.
A fusão da Sony com a BMG e a anunciada fusão da EMI com a Warner seriam as
mais novas jogadas que amedrontam aqueles que defendem a democratização da
cultura e de sua fruição.

A gravação sonora vem se revelando, cada vez mais, meio de enriquecimento
desenfreado de grupos financeiros que controlam e comandam o planeta Terra.
O sucesso se deve à adesão de governos e de legisladores à luta dos
empresários contra a pirataria. A todo momento ouvimos a denúncia de que a
pirataria prejudica os artistas, pois que estes deixam de receber os 2% a
que têm direito sobre a venda dos discos. O Estado também se vê prejudicado,
tendo em vista que, com a pirataria, impostos deixam de ser arrecadados.

Mas é sabido que nem todos os discos lançados são pirateados. Só são
pirateados aqueles que contêm músicas de sucesso. Mas, quais são as músicas
que fazem sucesso? Todos sabem que não podem fazer sucesso as músicas
desconhecidas do grande público. Ou seja, só podem fazer sucesso as músicas
que tocam nas rádios e nas televisões. De todas as músicas novas, poucas são
levadas à antena das rádios e e das TVs.

O público que ouve rádio sabe que a programação não varia muito. Os sucessos
se repetem tocados implacavelmente, em diferentes estações, com freqüência
assustadora. Qualquer ouvinte desavisado é levado a crer que aquela música
muito tocada é sucesso, porque é repetidamente tocada. Outros ingênuos dirão
que ela é muito tocada porque é sucesso. O gosto do público é construído, de
modo covarde e criminoso, dando lugar a um círculo vicioso que estabiliza a
tolerância de um crime de lesa-cultura e, portanto, também de lesa-pátria.

As multinacionais do disco, não satisfeitas em monopolizar o mercado da
música, compram programas e programadores de rádio, para que as músicas que
elas querem vender se repitam continuamente nos alto-falantes de cada
residência, de cada radinho de pilha e de cada carro. Essa compra de
programas radiofônicos e de radialistas, aliada à divulgação massificante,
encarece demasiadamente a produção, fazendo com que o preço de venda do
disco seja altíssimo.

A pirataria chega até mesmo a fabricar cópias ilegais de discos que ainda
não chegaram às lojas e às rádios, porque já sabe de antemão o que vai ser
sucesso. Claro, todos sabem que terão sucesso as músicas que estão nos
discos cuja difusão radiofônica massificada, através do jabá, será paga
pelas gravadoras.

Os artistas chamados independentes, que ainda não foram adotados pelos
proxenetas internacionais do som, não têm suas músicas tocadas no rádio.
Assim, eles não têm suas obras ouvidas, conhecidas, massificadas e,
portanto, não fazem sucesso: não são pirateadas.

Artistas independentes começam a se organizar repudiando energicamente a
prática do jabá. A criminalização dessa prática antiética já conta com
projetos de lei, mas estes andam a passo lento na Câmara. Os artistas que se
organizam para combater a pirataria e que, com esta, deixam de ganhar 2% nas
vendas dos produtos originais, sabem da existência do jabá e, portanto, são
coniventes com o espúrio e antiético procedimento.

Talvez não devamos ainda chamar de ladrões as gravadoras, as rádios, os
radialistas e os músicos que participam da cadeia produtiva que inclui o
jabá, pois que esta prática imoral ainda não foi criminalizada. Mas dentro
em pouco deveremos leniência a certos malandros: pirata que pirateia ladrão
tem cem anos de perdão."

_______________________________________________
Para CANCELAR sua assinatura:
        http://www.samba-choro.com.br/tribuna/cancela
Para ASSINAR esta lista:
        http://www.samba-choro.com.br/tribuna/assina
Antes de escrever, leia as regras de ETIQUETA:
        http://www.samba-choro.com.br/tribuna/netiqueta

Nova mensagem Responder Mensagens por data Mensagens por discussão Mensagens por assunto Mensagens por autor

Este arquivo foi gerado por hypermail 2.1.4 : Qua 09 Ago 2006 - 17:25:00 EST