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Ouro negro do Brasil (correioweb)Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros. |
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Autor: Sonia Palhares Marinho (soniapalhares(arroba)hotmail.com)
Data: Qua 09 Ago 2006 - 11:52:32 EST
Estou reencaminhando minha mensagem que chegou na lista com problemas de
formatação:
Oi, turma:
Bacana a Tribuna Livre do Samba & Choro ter voltado ao ar!!! Ontem mesmo na
roda de choro do Feitiço Mineiro eu e a Helenice comentávamos sobre isso.
Aqui aprendi muito e fiz bons amigos. Seria legal se os arquivos de novembro
de 2005 para cá também pudessem ficar disponíveis para os participantes. De
qualquer forma, espero que este fórum de discussão tenha vida longa. Segue
abaixo um artigo sobre o recém falecido maestro Moacir Santos publicado
hoje no jornal Correio Braziliense que só está disponível para os
assinantes.
Abraços a todos. Sônia Palhares (BsB-DF)
"Memória
Ouro negro do Brasil
Um dos mais importantes músicos do país, Moacir Santos deixa legado na
formação da MPB. Radicado nos EUa havia 40 anos, maestro recebeu o Prêmio
Shell pouco antes de morrer
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Daniela Paiva
Da equipe do Correio
Sabe o “lá-lá-lá” baixinho que os músicos gorjeiam quando mostram uma
harmonia a outra pessoa? O “lá-lá-lá” de Moacir Santos era um suave
“zen-zen-zen”, relembra Roberto Menescal, um dos ilustres discípulos do
saxofonista, arranjador, compositor e maestro, morto no último domingo, aos
80 anos, na Califórnia. “Ele era zen mesmo até quando não se falava em zen.
Me ensinou muito de música e da vida, sendo uma tão importante quanto a
outra.” Nara Leão, Sergio Mendes, Paulo Moura, João Donato, Dori Caymmi,
Baden Powell, os célebres discípulos representam apenas uma parte do espólio
que o chamado Duke Ellington brasileiro deixa para a música do país. “É um
dos grandes maestros que o Brasil já teve, com característica
afro-brasileira indiscutível e uma criatividade impressionante”, afirma João
Bosco.
O reconhecimento, porém, não é póstumo. Moacir Santos é um dos poucos gênios
celebrados ainda em vida. Neste ano, em julho, mês em que completou 80 anos,
o mestre, que há 40 anos deixou o Brasil para morar em Los Angeles, foi
contemplado com o Prêmio Shell de Música 2006 pelo conjunto da obra. Desde
2005, uma série de lançamentos busca popularizar o legado do mestre. Moacir
Santos – Choros & alegria traz uma coleção de 15 faixas (12 inéditas)
interpretadas por músicos de renome do país e conta ainda com a participação
do trompetista Wynton Marsalis. O DVD Ouro negro registra o encontro de 16
músicos prestigiados para interpretar as brilhantes composições de Moacir
Santos. Os songbooks Cancioneiros Moacir Santos resgatam partituras do
primeiro disco, Coisas, de 1965, que quase se perderam, além de Ouro negro e
Choros & alegria. No comando dos projetos, estão o violonista Mario Adnet e
o saxofonista Zé Nogueira. Para este ano, estão prometidos os lançamentos
nacionais dos dois discos gravados no lendário selo norte-americano Blue
Note, Maestro (1972) e Saudade (1974), ambos inéditos no Brasil. Choros &
alegria deve transformar-se em série e em DVD. Para que a obra estivesse
completa, faltam ainda Carnival of the spirits (1975), também da Blue Note,
e Opus 3 nº 1 (1978), pelo extinto selo Discovery, ambos fora de catálogo.
Trilhas de cinema
Coisas, o primeiro disco solo e único lançado no Brasil, é tido como
essencial por muitos artistas como Ed Motta e João Bosco. “Tinha uma vitrola
portátil e meia dúzia de discos, entre eles o Coisas. Admirava muito aquela
estranheza, a sofisticação, o ritmo tão peculiar e de melodia tão forte”,
lembra João Bosco. Moacir Santos nasceu no sertão de Pernambuco. Aos 14
anos, já tocava clarinete, saxofone, trompete e outros instrumentos. Fugiu
de casa para tornar-se um retirante em busca de sua música. Estudou com
Radamés Gnattali e Hans Joachim Koellreutter.
Passou pela Bahia, Ceará, Paraíba até que, em 1948, aportou no Rio de
Janeiro com a Orquestra Tabajara, de Severino Araújo. Em 1957, Roberto
Menescal – que gravou a canção Nanã, uma das mais consagradas – tornou-se
discípulo de Moacir. “Ele formou a minha direção na música. Deu para nós,
seus alunos, uma trajetória certa. Ele lutava pela boa música. Não falava de
bossa nova, mas de música.” Na Rádio Nacional, trabalhou por 19 anos como
maestro e arranjador.
O músico não foi apenas professor da nata da MPB. Foi parceiro de Vinicius
de Moraes (Menino travesso, Triste de quem, Se você disser que sim), que o
homenageou em Samba da bênção. Com Mário Telles, compôs Nanã. Também atuou
como arranjador de discos importantes da bossa nova, a exemplo de Vinicius &
Odette Lara e Elizeth interpreta Vinicius, ambos de 1963. Trabalhou com Nara
Leão, Sergio Mendes, Djavan. E é considerado uma das mais importantes fontes
da renovação harmônica na MPB.
As trilhas de filmes — entre eles Ganga zumba, de Cacá Diegues, e Os fuzis,
de Ruy Guerra, — o levaram aos Estados Unidos, onde construiu bela carreira
e tornou-se um dos grandes representantes da música brasileira. Moacir
estava internado desde sexta-feira, depois de sofrer o segundo derrame – o
primeiro foi nos anos 1990 e deixou seqüelas que o impediram de continuar a
tocar.
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Moacir Santos / Tu não é um só, és tantos / Como este meu Brasil de todos os
santos
Samba da bênção, de Vinicius de Moraes e Baden Powell
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Sobre todas as “coisas”
Teresa Albuquerque
Da equipe do Correio
Em 2005, quando veio ao Brasil para a gravação do DVD Ouro negro, Moacir
Santos ainda chorava de alegria ao ouvir o CD duplo lançado quatro anos
antes. Tocar, ele não podia mais, por conta do derrame sofrido em 1997. Mas
subir ao palco para extravasar a emoção, ah, isso ele podia. E como fez
bonito no especial do Canal Brasil, registrado em maio do ano passado, no
Sesc Pinheiros, em São Paulo. O espetáculo, que deu origem ao DVD, revisitou
a obra do compositor com um time de músicos de primeiríssima, dirigidos pelo
violonista Mario Adnet e o saxofonista Zé Nogueira. O final foi comovente: a
platéia de pé, Moacir no palco, os olhos cheios d’água: “Não tenho palavras.
Muito agradecido”.
O vídeo, que será reprisado no Canal Brasil, no sábado, às 21h, começa com o
maestro passeando pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro, dando risada com a
constatação: “Pois é, sou o Ouro Negro do Brasil”. Entre uma música e outra,
há cenas de bastidores, com ele comentando as obras – ou melhor, as
“coisas”. “Quem sou eu para fazer um opus? Eu faço coisas. Coisa número 1,
número 2, e assim por diante. Até hoje não faço opus. Mas um dia vou chegar
lá”, avisa. Sobre a Coisa nº 5 (Nanã), ele diz que compôs pensando numa
procissão de negros. Sobre Bluishmen, conta que a idéia veio de conversa com
um senhor da sociedade teosófica. “Ele dizia que via uns homens azuis, altos
e muito azuis. Fiquei impressionado com a história.”
Ed Motta, um dos convidados do especial, chega ao estúdio chamando-o de
“mestre”. “É um dos caras gigantescos. Ele, Villa-Lobos, Tom Jobim. É a mão
de proteção em cima das nossas criações, do que temos de fazer daqui para a
frente”, derrete-se o cantor, que participa de Orfeu. Djavan aparece um
pouco depois e também fala da alegria de estar ali, cantando Sou eu: “Moacir
é um músico raro, que mistura erudito e popular com uma categoria
impressionante. Deve ter ouvido muita música clássica e muita música do
Nordeste, Luiz Gonzaga, fonte que todos nós bebemos”.
Moacir acha graça de tudo. Quase no fim, lembra a velha promessa. “Um dia,
falei: ‘ô, minha Nossa Senhora, tenho dois problemas para resolver: comprar
um saxofone, porque não tenho, e casar com Cleonice, uma coisa de Romeu e
Julieta. E não é que ganhei o saxofone e me casei com Cleonice?”, ri. No fim
do espetáculo, depois de dividir os vocais de Bodas de prata dourada com
Muíza Adnet, ele não volta sozinho ao palco do Sesc para receber os
aplausos. Leva a musa, Cleonice, companheira por quase 60 anos. Ao lado
dela, o maestro chora de alegria."
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