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Ouro Negro do Brasil (correioweb)

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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Autor: Sonia Palhares Marinho (soniapalhares(arroba)hotmail.com)
Data: Qua 09 Ago 2006 - 11:06:34 EST

   Oi, turma:

   Bacana a Tribuna Livre do Samba & Choro ter voltado ao ar!!! Ontem mesmo na
   roda de choro do Feitiço Mineiro eu e a Helenice comentávamos sobre isso.
   Aqui aprendi muito e fiz bons amigos. Seria legal se os arquivos de novembro
   de 2005 para cá também pudessem ficar disponíveis para os participantes. De
   qualquer forma, espero que este fórum de discussão tenha vida longa. Segue
   abaixo um artigo sobre o recém falecido maestro Moacir Santos publicado hoje
   no jornal Correio Braziliense que só está disponível para os assinantes.

   Abraços a todos. Sonia Palhares (BsB-DF)

   "Memória
   Ouro negro do Brasil
   Um dos mais importantes músicos do país, Moacir Santos deixa legado na
   formação da MPB. Radicado nos EUa havia 40 anos, maestro recebeu o Prêmio
   Shell pouco antes de morrer
     _________________________________________________________________

   Daniela Paiva
   Da equipe do Correio

                                             Epitácio Pessoa/AE - 11/9/92
                                                        [c-0908-0501.jpg]
   Moacir Santos foi professor de músicos do porte de João Bosco, Roberto
                        Menescal, Nara Leão, Sergio Mendes, Dori Caymmi e João Donato
                                                                         

   Sabe o lá-lá-lá baixinho que os músicos gorjeiam quando mostram uma harmonia
   a outra pessoa? O lá-lá-lá de Moacir Santos era um suave zen-zen-zen,
   relembra Roberto Menescal, um dos ilustres discípulos do saxofonista,
   arranjador, compositor e maestro, morto no último domingo, aos 80 anos, na
   Califórnia. Ele era zen mesmo até quando não se falava em zen. Me ensinou
   muito de música e da vida, sendo uma tão importante quanto a outra. Nara
   Leão, Sergio Mendes, Paulo Moura, João Donato, Dori Caymmi, Baden Powell, os
   célebres discípulos representam apenas uma parte do espólio que o chamado
   Duke Ellington brasileiro deixa para a música do país. É um dos grandes
   maestros que o Brasil já teve, com característica afro-brasileira
   indiscutível e uma criatividade impressionante, afirma João Bosco.
   O reconhecimento, porém, não é póstumo. Moacir Santos é um dos poucos gênios
   celebrados ainda em vida. Neste ano, em julho, mês em que completou 80 anos,
   o mestre, que há 40 anos deixou o Brasil para morar em Los Angeles, foi
   contemplado com o Prêmio Shell de Música 2006 pelo conjunto da obra. Desde
   2005, uma série de lançamentos busca popularizar o legado do mestre. Moacir
   Santos Choros & alegria traz uma coleção de 15 faixas (12 inéditas)
   interpretadas por músicos de renome do país e conta ainda com a participação
   do trompetista Wynton Marsalis. O DVD Ouro negro registra o encontro de 16
   músicos prestigiados para interpretar as brilhantes composições de Moacir
   Santos. Os songbooks Cancioneiros Moacir Santos resgatam partituras do
   primeiro disco, Coisas, de 1965, que quase se perderam, além de Ouro negro e
   Choros & alegria. No comando dos projetos, estão o violonista Mario Adnet e
   o saxofonista Zé Nogueira. Para este ano, estão prometidos os lançamentos
   nacionais dos dois discos gravados no lendário selo norte-americano Blue
   Note, Maestro (1972) e Saudade (1974), ambos inéditos no Brasil. Choros &
   alegria deve transformar-se em série e em DVD. Para que a obra estivesse
   completa, faltam ainda Carnival of the spirits (1975), também da Blue Note,
   e Opus 3 nº 1 (1978), pelo extinto selo Discovery, ambos fora de catálogo.
   Trilhas de cinema
   Coisas, o primeiro disco solo e único lançado no Brasil, é tido como
   essencial por muitos artistas como Ed Motta e João Bosco. Tinha uma vitrola
   portátil e meia dúzia de discos, entre eles o Coisas. Admirava muito aquela
   estranheza, a sofisticação, o ritmo tão peculiar e de melodia tão forte,
   lembra João Bosco. Moacir Santos nasceu no sertão de Pernambuco. Aos 14
   anos, já tocava clarinete, saxofone, trompete e outros instrumentos. Fugiu
   de casa para tornar-se um retirante em busca de sua música. Estudou com
   Radamés Gnattali e Hans Joachim Koellreutter.
   Passou pela Bahia, Ceará, Paraíba até que, em 1948, aportou no Rio de
   Janeiro com a Orquestra Tabajara, de Severino Araújo. Em 1957, Roberto
   Menescal que gravou a canção Nanã, uma das mais consagradas tornou-se
   discípulo de Moacir. Ele formou a minha direção na música. Deu para nós,
   seus alunos, uma trajetória certa. Ele lutava pela boa música. Não falava de
   bossa nova, mas de música. Na Rádio Nacional, trabalhou por 19 anos como
   maestro e arranjador.
   O músico não foi apenas professor da nata da MPB. Foi parceiro de Vinicius
   de Moraes (Menino travesso, Triste de quem, Se você disser que sim), que o
   homenageou em Samba da bênção. Com Mário Telles, compôs Nanã. Também atuou
   como arranjador de discos importantes da bossa nova, a exemplo de Vinicius &
   Odette Lara e Elizeth interpreta Vinicius, ambos de 1963. Trabalhou com Nara
   Leão, Sergio Mendes, Djavan. E é considerado uma das mais importantes fontes
   da renovação harmônica na MPB.
   As trilhas de filmes entre eles Ganga zumba, de Cacá Diegues, e Os fuzis, de
   Ruy Guerra, o levaram aos Estados Unidos, onde construiu bela carreira e
   tornou-se um dos grandes representantes da música brasileira. Moacir estava
   internado desde sexta-feira, depois de sofrer o segundo derrame o primeiro
   foi nos anos 1990 e deixou seqüelas que o impediram de continuar a tocar.
     _________________________________________________________________

   [aspaabre.gif] Moacir Santos / Tu não é um só, és tantos / Como este meu
   Brasil de todos os santos [aspafecha.gif]

                   Samba da bênção, de Vinicius de Moraes e Baden Powell
     _________________________________________________________________

   Sobre todas as coisas
   Teresa Albuquerque
   Da equipe do Correio

                                                    Guto Costa/Divulgação
                                                       [c-0908-0502.jpg]
                       Moacir Santos E Djavan no especial do Canal Brasil
                                                                         

   Em 2005, quando veio ao Brasil para a gravação do DVD Ouro negro, Moacir
   Santos ainda chorava de alegria ao ouvir o CD duplo lançado quatro anos
   antes. Tocar, ele não podia mais, por conta do derrame sofrido em 1997. Mas
   subir ao palco para extravasar a emoção, ah, isso ele podia. E como fez
   bonito no especial do Canal Brasil, registrado em maio do ano passado, no
   Sesc Pinheiros, em São Paulo. O espetáculo, que deu origem ao DVD, revisitou
   a obra do compositor com um time de músicos de primeiríssima, dirigidos pelo
   violonista Mario Adnet e o saxofonista Zé Nogueira. O final foi comovente: a
   platéia de pé, Moacir no palco, os olhos cheios dágua: Não tenho palavras.
   Muito agradecido.
   O vídeo, que será reprisado no Canal Brasil, no sábado, às 21h, começa com o
   maestro passeando pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro, dando risada com a
   constatação: Pois é, sou o Ouro Negro do Brasil. Entre uma música e outra,
   há cenas de bastidores, com ele comentando as obras ou melhor, as coisas.
   Quem sou eu para fazer um opus? Eu faço coisas. Coisa número 1, número 2, e
   assim por diante. Até hoje não faço opus. Mas um dia vou chegar lá, avisa.
   Sobre a Coisa nº 5 (Nanã), ele diz que compôs pensando numa procissão de
   negros. Sobre Bluishmen, conta que a idéia veio de conversa com um senhor da
   sociedade teosófica. Ele dizia que via uns homens azuis, altos e muito
   azuis. Fiquei impressionado com a história.
   Ed Motta, um dos convidados do especial, chega ao estúdio chamando-o de
   mestre. É um dos caras gigantescos. Ele, Villa-Lobos, Tom Jobim. É a mão de
   proteção em cima das nossas criações, do que temos de fazer daqui para a
   frente, derrete-se o cantor, que participa de Orfeu. Djavan aparece um pouco
   depois e também fala da alegria de estar ali, cantando Sou eu: Moacir é um
   músico raro, que mistura erudito e popular com uma categoria impressionante.
   Deve ter ouvido muita música clássica e muita música do Nordeste, Luiz
   Gonzaga, fonte que todos nós bebemos.
   Moacir acha graça de tudo. Quase no fim, lembra a velha promessa. Um dia,
   falei: ô, minha Nossa Senhora, tenho dois problemas para resolver: comprar
   um saxofone, porque não tenho, e casar com Cleonice, uma coisa de Romeu e
   Julieta. E não é que ganhei o saxofone e me casei com Cleonice?, ri. No fim
   do espetáculo, depois de dividir os vocais de Bodas de prata dourada com
   Muíza Adnet, ele não volta sozinho ao palco do Sesc para receber os
   aplausos. Leva a musa, Cleonice, companheira por quase 60 anos. Ao lado
   dela, o maestro chora de alegria."
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