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A vida e as canções de Lupicínio Rodrigues (Revista "E" SESC)

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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Autor: Sonia Palhares Marinho (soniapalhares(arroba)hotmail.com)
Data: Ter 09 Ago 2005 - 19:15:26 BRT

http://www.sescsp.org.br/sesc/revistas/revistas_link.cfm?Edicao_Id=222&Artigo_ID=3457&IDCategoria=3756&reftype=2

Conta-se que no dia do nascimento de Lupicínio Rodrigues, em 16 de setembro
de 1914, em Porto Alegre, chovia tanto que a parteira só alcançou a casa de
barco. A chegada do quarto dos 21 filhos do casal Francisco e Abigail não
virou música, mas os fatos protagonizados por ele ao longo da vida, esses
sim, foram alçados a sucesso nacional. Os encontros e desencontros amorosos
vividos pelo compositor gaúcho serviram de inspiração para boa parte de sua
obra, cerca de 300 músicas. Segundo a historiadora Maria Izilda S. de Matos,
da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), autora, com
Fernando A. Faria, de Melodia e Sintonia em Lupicínio Rodrigues – O
Feminino, o Masculino e suas Relações (Bertrand Brasil, 1999), o compositor
costumava dizer que sofria muito nas mãos das mulheres por ser sentimental.
“Ele dizia que teve muitas namoradas e cada uma que lhe tinha feito uma
‘sujeira’ deixara uma inspiração para compor algo. ‘As que me fizeram bem,
eu logo esqueci. As que fizeram mal foram as que mais dinheiro me deram’,
dizia ele.”

A noite é uma criança

Aos 14 anos, Lupicínio compôs sua primeira música, Carnaval, para um cordão
chamado Prediletos. Nessa época o pai começou a notar a inclinação do garoto
para a boemia. A saída para tirar o filho das mesas dos bares não podia ser
mais extrema: das noitadas foi encarar a rígida disciplina do Exército, onde
chegou por volta dos 15 anos de idade. O músico deixou as Forças Armadas em
1935 e o primeiro sucesso veio três anos depois, com Se Acaso Você Chegasse.
Como nunca largou sua inclinação pela vida noturna, as músicas que escrevia
eram muito populares nos redutos da boemia. “Conta-se que foi pelos
marinheiros que a música chegou ao Rio de Janeiro, que passou a ser cantada
sem que se soubesse sua verdadeira autoria”, afirma Maria Izilda. Foi assim
que Cyro Monteiro, um dos maiores cantores da época, ouviu a canção e, mais
tarde, já com a autorização de Lupicínio, a gravou.

Foi o início de uma série de sambas-canção que durante as décadas de 30, 40
e 50 fizeram enorme sucesso. Na época, a cadência mais lenta do ritmo estava
em voga e se encaixava perfeitamente às letras rasgadas. “Ele vivia ali na
fronteira com os países platinos [Argentina e Uruguai] e a influência não só
do bolero, mas também dos dramas amorosos do tango era muito grande”,
explica a historiadora. “Muitos artistas circulavam pela boemia de cidades
como Buenos Aires e Mar del Plata e certamente trouxeram essa influência.” O
grande estouro na carreira de Lupicínio acontece mesmo em 1951, quando Linda
Batista, na época uma das mais famosas cantoras de rádio do Brasil, gravou
Vingança.

Amor rasgado

Suas letras intensas, que traduzem as desilusões de forma dilacerada,
inauguraram um novo gênero na música brasileira, o da dor-de-cotovelo. O
termo se refere à clássica cena boêmia de alguém sentado no bar, cotovelos
apoiados no balcão enquanto mexe a bebida no copo e chora o amor que perdeu.
Segundo o produtor e jornalista Carlos Rennó, que participou do projeto
Roteiro de um Boêmio, realizado em julho no Sesc Vila Mariana (veja boxe Ao
mestre com carinho), o estilo dor-de-cotovelo se caracterizou por esse
conjunto de canções marcadas por uma crueza sem paralelo na sua época – a
partir dos anos 30. “Com uma qualidade poética invulgar, as peças de Lupi
nos surpreendem com rasgos verbais inesperados, sensacionais; com metáforas
e lances de imagens imprevisíveis na exploração do tema das relações
amorosas”, afirma o jornalista. Como exemplo da genialidade dessa obra que
não teve medo dos clichês das desilusões, Rennó cita a clássica Nervos de
Aço, que teve uma de suas versões mais famosas gravadas por Paulinho da
Viola e hoje faz parte da trilha sonora da novela América, da TV Globo, na
voz do cantor Leonardo.

Tem futuro

Segundo conta o livro Melodia e Sintonia em Lupicínio Rodrigues ao ver o
compositor cantar com o grupo Catão, em 1932, Noel Rosa – que na época não
tinha mais que 20 anos, mas já vinha se consagrando como grande sambista –
previu: “Esse menino é bom, esse menino vai longe”. Mais de três décadas
após a morte do “menino bom”, seu extenso repertório é a prova de que foi
realmente longe. As músicas de Lupicínio estão imortalizadas por intérpretes
de diferentes gerações. Jamelão dedicou dois discos a ele, um de 1972 e
outro de 1987. Elza Soares gravou, em 1960, Se Acaso Você Chegasse. Nos anos
70, Caetano Veloso cantou Felicidade, Gal Costa, Volta, e Paulinho da Viola,
Nervos de Aço. Nos 80, Loucura fez sucesso na voz de Maria Bethânia, e Nunca
na de Zizi Possi. A lista ainda segue com Arrigo Barnabé, Adriana Calcanhoto
e outros. “Como qualquer clássico, a música de Lupicínio transcende sua
época, tem a capacidade de continuar soando atual, décadas mais tarde”, diz
o jornalista e pesquisador Carlos Calado. Como exemplo da contemporaneidade
da obra do compositor, Calado cita a regravação de Judiaria, em 1995, por
Arnaldo Antunes, que ganhou uma roupagem bem mais experimental. E não pára
por aí. No ano passado sua obra chegou até mesmo à música eletrônica, com o
lançamento do disco Loopcínio, lançado por Thedy Corrêa, ex-vocalista da
banda Nenhum de Nós.

Ao mestre com carinho - Homenagem a Lupicínio Rodrigues reuniu gerações para
celebrar a obra do compositor da boemia com shows, exposição e debates

Ninguém retratou a vida boêmia com versos mais singelos, sensíveis e de
maior carga passional do que Lupicínio Rodrigues. Traições, solidão,
vingança – título de uma de suas canções mais famosas – eram os principais
temas de seus românticos sambas-canção. Mas não os únicos: escreveu também
sambas carnavalescos, de malandragem e exaltação, músicas regionais e até o
hino do Grêmio Futebol Clube, tradicional time gaúcho. Toda a riqueza da
vida e obra do compositor pôde ser conferida em julho no projeto Roteiro de
um Boêmio, realizado no Sesc Vila Mariana, com shows, debates e uma
exposição de desenhos do chargista Jaguar. “Ele era o brasileiro mais
brasileiro de todos”, afirma o cantor Cauby Peixoto, um dos convidados do
evento. “Expressava a forma como o brasileiro sabe amar. Muita gente rotula
de música de dor-de-cotovelo, mas o brasileiro é assim mesmo: quente, o
sangue das veias ferve quando ele ama, ele fica desgraçado mesmo.” O cantor,
um dos que mais gravaram músicas de Lupicínio, se apresentou ao lado de
Carlos Fernando e Paula Lima num dos espetáculos que mostraram a atualidade
do repertório deixado pelo mestre. “Interpretar músicas de Lupicínio é antes
de mais nada desafiador”, comenta Paula Lima. “A responsabilidade é maior, a
curiosidade fica aguçada e a vontade de acertar no repertório e agradar é
grande.” Em outro show do projeto, foi a vez de Arrigo Barnabé, Virgínia
Rosa e ninguém menos que Jamelão se juntarem no palco para celebrar a música
do compositor. “O que eu acho muito interessante na obra dele é que ela fica
na fronteira entre o kitsch e o bom gosto”, diz Arrigo Barnabé.

Já a exposição do chargista Jaguar deu um toque diferenciado ao evento (veja
boxe Muitos Amores). Quinze músicas de Lupicínio foram selecionadas pelo
jornalista e produtor Carlos Rennó e “transformadas” em desenhos. “Escolhi
algumas que são as principais na obra dele”, explica o jornalista. “Ou por
serem as mais conhecidas ou por se destacar por sua qualidade. Além disso,
as histórias relacionadas a elas foram outro fator importante.”

Muitos amores - As mulheres e as histórias por trás da inspiração de
Lupicínio Rodrigues*

Nunca

“Nunca
Nem que o mundo caia sobre mim
Nem se Deus mandar, nem mesmo assim
As pazes contigo eu farei”

Canção motivada por Carioca. A moça vinha fazendo tentativas de
reconquistá-lo com “promessas vãs”, segundo Lupi. Nunca foi a resposta dele
às propostas dela. A referência a Deus ocorre na letra porque ela levara um
retrato dele para um pai-de-santo fazer um trabalho para que ficassem juntos
novamente.

Nervos de Aço

“Você sabe o que é ter um amor, meu senhor,
Ter loucura por uma mulher
E depois encontrar esse amor, meu senhor,
Nos braços de um outro qualquer”

Inspirada pela mulata Iná, a primeira namorada e a primeira noiva de Lupi,
que a conheceu em Santa Maria, nos tempos do Exército. Durou seis anos o
namoro, que a família dela acabou porque Lupi não queria deixar a boemia.
Tempos mais tarde, ele a reviu, já casada, de braços dados com o marido; a
forte dor-de-cotovelo que sentiu originou a canção. “Tudo o que eu canto é
verdade. A minha vida”, revelou ele, certa vez, ao poeta Augusto de Campos.

Se Acaso Você Chegasse

“Se acaso você chegasse
No meu chatô e encontrasse
Aquela mulher que você gostou
Será que tinha coragem
De trocar nossa amizade
Por ela que já lhe abandonou”

Lupi estava de caso com a ex-namorada de um amigo de nome Heitor. O
compositor nunca viria a contar a história direito, mas, ao que parece, a
tinha roubado dele. Não sabendo como lhe contar o que tinha feito, acabou
fazendo-o por meio do samba – em que sugeriu que eles não brigassem. De
fato, continuaram amigos.

* Textos de Carlos Rennó

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