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Correio Braziliense de 04/07: Artigo de Irlam Rocha Lima - "Falta dinheiro, sobram homenagens" (Pixinguinha/Projeto Pixinguinha)Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros. |
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Autor: Caio Tiburcio (caiotiburcio(arroba)terra.com.br)
Data: Seg 04 Jul 2005 - 09:17:42 BRT
Música
Falta dinheiro, sobram homenagens
Enquanto o renascido Projeto Pixinguinha sofre dificuldades financeiras, são constantes os tributos fonográficos à obra do mais importante compositor popular brasileiro
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Irlam Rocha Lima
Da equipe do Correio
Para alguns, uma lenda; para outros, um santo. Alfredo da Rocha Vianna Júnior, o Pixinguinha, é tido pelos historiadores como o criador do que viria a ser chamada de música popular brasileira. Compositor, arranjador e instrumentista, é autor de Carinhoso, o choro-canção recordista de gravações. Nascido em 23 de abril de 1897 e morto em 17 de fevereiro de 1973, ele não pára de receber tributos. Os mais recentes estão contidos em dois CDs que acabam de ser lançados: um da Orquestra Pixiguinha e o outro do duo formado pelos flautistas e saxofonistas Mário Sève e David Ganc.
Mas nem tudo é reverência. O projeto que leva o nome do genial músico carioca, retomado com pompa e circunstância em 2004 - depois de sete anos de interrupção -, corre o risco de não seguir em frente. Por carência de recursos, a Funarte, responsável por essa ação cultural, não pode colocar na estrada as caravanas artísticas para a apresentações em cidades do país. A diretora do Centro de Música do órgão, Ana de Hollanda, porém, garante: o Projeto Pixinguinha "não está de forma nenhuma cancelado". Mas, por outro lado, ela não sabe quando os shows voltam a ocorrer. (veja matéria nesta página).
Independentemente da indefinição quanto ao prosseguimento do Projeto Pixinguinha, pode-se apreciar discos em que, com diferentes abordagens, parte da obra do compositor é recriada. Pela gravadora Biscoito Fino, saiu o CD Orquestra Pixinguinha, produzido pelo multiinstrumentista e arranjador Henrique Cazes. "O que está havendo, na verdade, é um relançamento. O álbum foi lançado em 1998 pela Kuarup, quando da comemoração do centenário de Pixinguinha, e agora chega às lojas remasterizado e com nova capa. O conteúdo, porém, permanece inalterado", esclarece o músico.
Cazes lembra que, quando se pôs a conceber o disco, tomou por base arranjos originais de Pixinguinha, garimpados no arquivo da Biblioteca Nacional. "Encontrei uma série de arranjos escritos entre 1946 e 1949 e editados pela Irmãos Vitalle. Ele os havia escrito, mas não os gravou. A partir deles fiz os arranjos para o Orquestra Pixinguinha, seguindo o figurino criado pelo mestre, com modulações, ruídos e tal."
O produtor diz que isso valeu para a polca Segure ela, os choros clássicos Ingênuo e Vou vivendo, o Maxixe de ferro, a híbrida Festa de Nanã, que funde samba com a tradição afro-brasileira, e o pout-pourri de marchas carnavalescas de Braguinha e Alberto Ribeiro, que junta China pau, Tem gato na tuba e Touradas de Madri, além de Bengurlê (cantada por Wilson Moreira). "Pixinguinha criou arranjos para muitas marchinhas", afirma. "Quero completar o projeto lançando o livro Pixinguinha, um arranjador brasileiro, que estou começando a esboçar."
Liberdade criativa
Ao contrário de Henrique Cazes, que respeitosamente manteve fidelidade aos arranjos de Pixinguinha, Mário Sève e David Ganc, em Pixinguinha + Benedito, mesmo "buscando manter a essência do diálogo do mais importante duo do choro (Pixinguinha e Benedito Lacerda)", ressalta Mário, refizeram com harmonias modernas as criações de ambos. "Nos damos a liberdade de experimentar outras formas. O que era choro virou choro-forró ou choro-lundu. Tem levada de samba de roda. O CD redefine classificações e gêneros, sem preconceitos", comenta o instrumentista.
Mário Sève vê o choro bem próximo do forró e prova sua teoria em Descendo a serra. A ela se junta Cochichando, uma das músicas mais tocadas em rodas de choro - no disco, "num formato pagodeado" -, Os 8 batutas, em tom de maxixe, e Os 5 companheiros se transforma numa espécie de choro-bossa. Em Ainda me recordo, Séve e Ganc se alternam nos instrumentos. Na faixa que fecha o álbum, Urubu Malandro, os dois são mais reverentes ao mestre, respeitando as variações utilizadas por Pixinguinha, embora puxem uma levada afro. A elas se juntam duas inéditas: o baião Acorda garota e o frevo Água morna.
Nos acompanhamentos, Mário Sève e David Ganc (responsáveis também pela produção do CD) contam com um time de músicos de primeira: Dininho, Jorginho do Pandeiro, Celsinho Silva, Mingo Araújo, Oscar Bolão, Esguleba, Cláudio Jorge, Leandro Braga, Toninho Ferragutte, Roberto Marques, Nilton Rodrigues e Carlos Vega. Com produção independente, Pixinguinha + Benedito é distribuído pelo selo paulista Núcleo Contemporâneo.
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Pixinguinha + Benedito
Álbum dos intrumentistas e produtores Mário Sève e David Ganc em homenagem à dupla Pixinguinha e Benedito Lacerda. Lançamento: Núcleo Contemporâneo (www.nucleo.art.br).
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Orquestra Pixinguinha
Álbum da orquestra de mesmo nome, lançado originalmente em 1998. Produção: Henrique Cazes. Lançamento: Biscoito Fino (www.biscoitofino.com.br)
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Pobre prioridade
O quarteto de Henrique Cazes estava escalado para integrar a caravana que, quarta-feira da semana passada, iniciaria por Vila Velha (ES) mais uma série de shows pelo Projeto Pixinguinha. Oito dias antes, foi informado que a viagem havia sido adiada, "porque não havia passagens para os músicos e os técnicos". Segundo o violonista, isso acarretou prejuízo para ele e seus companheiros de quarteto.
"Deixamos de agendar outros shows para o período que corresponderia ao início dos ensaios até o último show da turnê pelo Pixinguinha, o que nos levou a tirar férias forçadas de 20 dias. Estávamos na maior expectativa em relação às apresentações, pois para todos nós fazer o projeto é muito importante. Na década de 80 participei do Pixinguinha ao lado de Elizeth Cardoso, Ademilde Fonseca, Marlene e Nara Leão, e foi o maior barato", relembra. Para Cazes, "as questões relacionadas com a política cultural precisam ser vistas com outros olhos pelo governo".
Participante da primeira caravana após a retomada do projeto, no primeiro semestre do ano passado, Mário Sève se apresentou em várias cidades com o grupo de choro Nó em Pingo D´Água. Ele vê "com muita tristeza" a interrupção do Pixinguinha. "É impressionante como no Brasil projetos artísticos não têm continuidade. Quem mais sofre com isso é o artista. Todos querem tomar parte de projetos como esse, mesmo recebendo cachê irrisório. O que vale a pena é levar nosso trabalho a platéias que dificilmente teriam acesso a propostas musicais mais ousadas."
Embora tenham surgido "boatos" dando conta do fim do Projeto Pixinguinha, Ana de Hollanda, diretora do Centro de Música da Funarte, nega com veemência a possibilidade. "O Pixinguinha é uma prioridade do Ministério da Cultura. Desde o relançamento, em 2004, tem alcançado grande sucesso de público, com apresentações em mais de 100 cidades de todas as regiões. Em média, há o registro de mil pessoas por espetáculo." Esse foi o público que esteve no Teatro Plínio Marcos, aqui em Brasília, em cada um dos três shows apresentados este ano. "A Funarte e o Ministério da Cultura têm trabalhado em conjunto para a superação dos problemas financeiros e o cumprimento da agenda do Projeto Pixinguinha, que também é prioridade do governo", afirma. (IRL)
Fonte: http://www2.correioweb.com.br/cbonline/cultura/cadc_mat_33.htm
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