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Mais flor do que raiz (O Globo Online)Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros. |
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Autor: Sonia Palhares Marinho (soniapalhares(arroba)hotmail.com)
Data: Qui 09 Jun 2005 - 11:32:15 BRT
http://oglobo.globo.com/jornal/suplementos/segundocaderno/168603568.asp
Mais flor do que raiz
João Pimentel
Muita gente que freqüenta a Lapa carioca associa erroneamente o nome de
Nilze Carvalho à geração que surgiu com a revitalização do bairro boêmio.
Não apenas por ter sido lançada no início dos anos 80, com apenas 11 anos,
como a “menina-prodígio” do cavaquinho e do bandolim — gravando discos com o
grupo Época de Ouro e com mestres como o violonista Zé Menezes e o flautista
Copinha — mas também por ter rodado o mundo durante 15 anos tocando
acompanhada de seu pai, pode-se dizer que ela já brilhava quando a turma da
Lapa, literalmente, engatinhava. Ao gravar agora o seu primeiro CD como
cantora, “Estava faltando você” (Fina Flor), com lançamento no dia 20, no
Rival BR, Nilze se distancia ainda mais de seus pares nas noites do Carioca
da Gema e do Centro Cultural Carioca. Não apenas pela voz firme, afinada e
de timbre instigante, mas por apostar numa nova geração de compositores, sem
cair no repertório, bonito mas batido, que parece se repetir de bar para
bar.
— Tivemos mesmo essa preocupação, evitar o óbvio. Por isso fizemos poucas
regravações. Nilze até sugerira gravar “Ultimo desejo”, de Noel Rosa, e
“Linda flor”, de Henrique Vogeler, Luiz Peixoto e Marques Porto — conta o
produtor e violonista Ruy Quaresma. — Mas o material que recebemos era tão
bom que optamos por gravar inéditas de mestres como Nei Lopes, Paulo César
Pinheiro e Délcio Carvalho e também uma nova e talentosa geração, que inclui
Mario Lago Filho, Wanderley Monteiro e Marceu Vieira.
Tímida, de poucas palavras, mas conhecida no meio pela generosidade, Nilze
realmente não aparenta ter uma bagagem tão grande. Ao ser descoberta pelos
radialistas Adelzon Alves e Rubem Confete na Portela, aos 7 anos, já
empunhando o cavaquinho nas famosas feijoadas de Tia Vicentina — o bandolim
seria um brinquedo para mais adiante — ela passou a freqüentar programas de
rádio, a fazer shows e apareceu no “Fantástico”. O pai, Cristino Ricardo,
contínuo na sociedade arrecadadora UBC (União Brasileira de Compositores) e
trompetista de orquestras suburbanas, vislumbrando no talento da filha um
futuro melhor para a família, aprendeu a tocar violão. Depois dos quatro
volumes do disco “Choro de menina”, gravados de 1981 a 1984, Nilze, com 15
anos, acompanhada do pai, Cristino, e da irmã, Lene, foi rodar o mundo pelas
mãos do empresário italiano Franco Fontana — o mesmo que levara Toquinho,
Chico Buarque e Vinicius de Moraes para a Itália.
— Era um show sobre o Brasil que misturava música, dança e capoeira. Tinha
um quadro de bossa nova. Ali eu comecei a cantar — conta Nilze.
Cantora viveu sete anos no Japão
A partir daí foram 15 anos rodando por países como França, Suíça, Estados
Unidos, Argentina, Austrália, até ser convidada para ir para o Japão:
— Numa das nossas vindas ao Brasil, em 1990, fomos tocar no restaurante de
uma japonesa, Keiko Taichi. Ela cismou que eu dava sorte. Quando foi para o
Japão, dois anos depois, para montar uma churrascaria, resolveu que iríamos
também — conta a sambista. — O negócio deu certo e acabamos ficando sete
anos por lá.
De volta ao Rio de Janeiro em 1999, Nilze achou que já era hora de deixar a
vida nômade e voltar a estudar. Entrou para a UNI-Rio para aprender na
teoria o que, parece, nasceu sabendo e sempre praticara. Lá encontrou Camila
Costa, outra cabeça do Sururu na Roda (que tem ainda os percussionistas
Sílvio Carvalho e Fabiano Salek), grupo responsável por trazê-la de volta à
cena musical carioca. Depois de dois discos, Ruy Quaresma resolveu investir
na voz da cantora, para muitos, a grande revelação do samba. Como o bamba
Nei Lopes confirma:
— O que emociona na Nilze é constatar o capital que ela acumulou, contra
tudo e contra todos. Lembro-me do esnobismo de um certo pessoal do choro com
relação a ela, principalmente quando começou a cantar samba. “Coisa de
preto”, talvez tenham pensado — diz. — Nilze, vindo de onde veio e como
veio, pode ostentar tudo isso: cancha, técnica, suingue, talento e
sensibilidade. Coisa de quem ralou, viveu, sofreu. Coisa de um tempo em que
cantora era cantora, mesmo.
http://oglobo.globo.com/jornal/suplementos/segundocaderno/168603586.asp
Opção clara pela atualidade do samba
Hugo Sukman
É significativo que Nilze Carvalho tenha regravado o jongueado “Candeeiro da
vovó” (Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho). É que o samba mais festejado da
nova geração da Lapa é “Candeeiro”, no qual Teresa Cristina trata a velha
luminária com comovente intimidade. Trata-se, no caso da nova Lapa, de uma
cristalina opção estética pelo passado.
Nilze, como Dona Ivone, vê o candeeiro como uma coisa do tempo da vovó. A
opção estética de Nilze é clara, pois, pela atualidade.
“Estava faltando você” (Fina Flor) é moderno. A começar pelo samba-título,
um instant classic , a melodia das mais bonitas de Wilson das Neves e a
letra de Délcio Carvalho com aquele lirismo característico (“Meu sangue
fervia e todo o meu ser/Girava em torno da melancolia”), parceria tão
representativa do samba que é feito hoje, mais flor que raiz.
É com faro para o novo que Nilze grava a maior revelação de compositor dos
últimos anos, Wanderley Monteiro (em parceria com Mario Lago Filho e
Paulinho do Cavaco), o manifesto “Somos nós”. A letra — “Somos mensageiros
de vocês/Mistura de loucura e lucidez/Somos todo mundo e cada um/Todos os
lugares, lugar nenhum” — ganha especial sentido cantada por artista tão
cosmopolita.
É no faro que Nilze dá à dupla Tuninho Galante e Marceu Vieira o privilégio
da estréia no samba extaltação “Samba ao samba” que, por entre imagens que
definem o gênero, cita conjuntos da nova velha Lapa: “É um grande sururu na
roda” (grupo de Nilze), “É pau da braúna, é minha fé”.
Há modernidade em regravar “Ilusão à toa”, moderno samba-canção de Johnny
Alf, com linda introdução no sax tenor do arranjador Humberto Araújo, no
qual Nilze mostra sua capacidade de intérprete. Bem como na amplitude
estética de um repertório que vai de tocante toada “Andarilho” (uma das três
composições de Nilze com seu pai, o ótimo Cristino Ricardo) à “Valsa do
sonho” (Paulinho Lemos e Agenor de Oliveira), do samba de roda baiano (“O
cavalo de São Jorge”, um Roque Ferreira e Paulo César Pinheiro que Clara
Nunes gravaria) ao samba de terreiro do Salgueiro “Pra lá pra cá” (Dauro e
Nei Lopes).
Há modernidade na opção pela orquestra (e não o regional lapiano) e na
elegância de arranjos e produção de Ruy Quaresma, recém-premiado por
“Partido ao cubo”, de Nei Lopes.
É de Nei, aliás, o mais fino acepipe do CD, “C’est fini”, inédita parceria
com o saudoso Padeirinho, da Mangueira, bem humorada defesa da atualidade do
samba: “Eu sou o samba/E ninguém vai me derrubar/Já subi na torre Eiffel/Já
cantei no Olympia/Por isso eu digo mes amours e mes amis/Naquele papo
cretino de urubilino eu já dei c’est fini”.
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