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Calor no Norte (correioweb)Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros. |
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Autor: Sonia Palhares Marinho (soniapalhares(arroba)hotmail.com)
Data: Sáb 18 Dez 2004 - 11:00:14 BRST
http://www2.correioweb.com.br/cbonline/cultura/cadc_mat_1.htm
Calor no Norte
Canadenses se apaixonam pelos ritmos da MPB, aos quais se dedicam. E sonham
em vir ao brasil para aprender a tocar e cantar sem sotaque
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Gisele Dutra
Especial para o Correio
Fotos: Gisele Dutra/Divulgação
Ray Piper compôs e gravou sambas e chorinhos (foto)
Músicos canadenses de Vancouver reunidos em torno da paixão pela MPB: sonhos
e dedicação
Vancouver (Canadá) — O que leva alguém que não é brasileiro a amar a música
brasileira? ‘‘A riqueza da melodia e harmonia das músicas’’, respondem os
canadenses. Em Vancouver, na costa oeste do Canadá, a MPB tem ganhado cada
vez mais admiradores e praticantes. O instrumentista Ray Piper toca música
brasileira há quase 40 anos. Aos 15 ele ganhou o primeiro violão. O presente
foi da mãe, ansiosa por ver o filho tocar Garota de Ipanema. Na época Ray
Piper amava os Beatles e os Rolling Stones, mas satifez o desejo da mãe.
Para sua surpresa, gostou tanto de MPB que nunca mais deixou de tocar.
Aprendeu outros ritmos, mas se encantou mesmo pelo chorinho.
‘‘A formação em violão clássico ajudou a entender o complicado arranjo
musical’’, diz ele. O bom aluno virou compositor. Hoje Piper tem gravado o
CD Fantasea, com chorinhos, baião, samba e Bossa Nova, todos compostos por
ele. Crítico, Ray Piper fala com desenvoltura sobre músicos como os
clarinetistas Paulo Sérgio Santos e Paulo Moura. Gosta das bandas Nó em
Pingo d’Água, Rabo de Lagartixa e o conjunto Época de Ouro. Ray Piper já
esteve no Brasil dez vezes. A primeira foi em 1979. Já rodou quase todo o
país, só não conhece o Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
Em 1990 comprou seu primeiro cavaquinho no Rio de Janeiro, do músico
Marcos Pereira. Hoje acha graça ao contar a história de compra e venda do
instrumento. Na época, Marcos Pereira pediu US$ 200. O dinheiro Ray Piper
guardava no hotel. Correu para pegar os dólares e trocou tudo na casa de
câmbio pelos antigos cruzados novos. ‘‘Era um bolo de dinheiro’’, conta.
Feliz, foi comprar o desejado cavaquinho. Para sua surpresa, Marcos Pereira
queria o valor em dólares. Ray Piper suou para trocar os dinheiro de volta,
percorrendo de cima a baixo a avenida Rio Branco. ‘‘O meu medo era de ser
assaltado, ainda mais eu que tenho a maior cara de gringo.’’ Mas, no final,
tudo deu certo, e hoje Ray Piper guarda com carinho o cavaquinho.
Capoeira
Nic Apivor tambem é músico por formação e profissão. Exímio pianista, Nic
sempre preferiu a percussão aos teclados. Em 1993 conheceu em Vancouver o
projeto Axé Brasil, voltado ao ensino de capoeira. O som dos atabaques,
tantãs e pandeiros seduziu esse canadense e, desde então, não se afastou
mais da música brasileira. As apresentações de bar em bar levaram Nic a
conhecer a flautista profissional Jill Russell, outra admiradora da MPB. Se
os dois tanto gostavam da música brasileira, por que não formar uma banda?
Dito e feito. Assim nasceu Corcovado.
A banda tem quatro integrantes e nenhum deles é brasileiro. ‘‘Gostaríamos
de ter uma cantora brasileira, mas é muito difícil encontrar alguém aqui em
Vancouver’’, diz Nic. A opção foi o violonista e vocalista Steve Charles
aprender português. Ele é professor de música e se empenhou no aprendizado
das letras. Hoje, canta várias músicas, entre elas Leãozinho, de Caetano
Veloso, com um leve mas charmoso sotaque canadense. Nic e Steve sonham em ir
ao Brasil. Chegam a suspirar quando conversam sobre o assunto,
principalmente, com a flautista Jill Russell. Ela passou três meses no
Brasil em 1995 e conta boas histórias das experiências que teve tocando MPB.
‘‘Em Salvador um senhor me pagou o almoço só porque toquei Carinhoso.
Fiquei surpresa e feliz, porque não tinha muita grana naquela época.’’ Jill
também passou três semanas de graça, entre o Natal e ano-novo, num luxuoso
hotel em Santa Catarina, só tocando música — ‘‘na época, o gerente do hotel
queria que eu ficasse para sempre’’, conta. Em São Paulo, ela tocou com
diferentes bandas de chorinho em vários restaurantes da cidade. ‘‘O meu
pagamento era em comida e bebida. Não ganhei nenhum dinheiro, mas colecionei
vários pedidos de casamento’’, relembra, sorrindo.
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Sedução veio de um brasileiro no Canadá
Gisele Dutra/Divulgação
Kerstin Kapiztke toca pandeiro e se aprimora como percussionista (foto)
A cantora amadora Monalisa Amirsetia se deixou seduzir pela música
brasileira há muito tempo. Dona de voz forte e grave, dedicou horas e horas
ouvindo o álbum Ella abraça Jobim, no qual Ella Fitzgerald canta canções de
Tom. Em algumas passagens musicais, a interpretação de Monalisa chega a ser
similiar à da cantora norte-americana. Há dez canções brasileiras no seu
repertório. Questionada sobre qual delas é a melhor, responde: ‘‘É difícil
apontar uma, porque todas são tão boas... Mas eu diria que Dindi é especial.
Monalisa canta as versões em inglês e há apenas uma que apresenta na versão
original: Corcovado. O sotaque é acentuado, mas a interpretação impecável.
‘‘Se você canta em português, acho que pode colocar mais emoção. Você sente
melhor a música’’, acrescenta.
‘‘Quero cantar sem sotaque.’’ Esse é o sonho da alemã Kerstin Kapiztke.
Com formação em piano clássico, Kerstin se afastou de composições como
Concerto em lá menor e hoje toca pandeiro, surdo e tantã. ‘‘Acho que sou boa
percussionista’’, diz, orgulhosa. Ela está tendo aulas particulares de
português para aperfeiçoar a pronúncia. Já canta uma série de canções, entre
elas Na casa do Seu Humberto, de Márcio Faraco, que lhe enviou as cifras de
violão via e-mail, já que ela não encontrou na internet. Tanta dedicação tem
um objetivo: fazer apresentações com banda.
O conjunto, ainda sem nome, tem percussão, violão, cavaquinho, saxofone e
contrabaixo. Nenhum dos músicos é brasileiro. Os ensaios acontecem toda
terça-feira à noite na casa do casal japonês Ugui e Shinja Masahara. Ele
toca cavaquinho e faz bonito ao apresentar, com rapidez e perfeição, o
conhecido Brasileirinho. Shinja toca violão e faz backing vocal. Assim como
Kerstin, ela também recorreu a uma brasileira para ajudá-la a entender a
fonética da língua portuguesa. ‘‘O som da letra erre no final das palavras e
o ‘ão’ são muito difíceis de pronunciar’’, confessa Shinja. Mas diz que o
esforço vale a pena por causa da qualidade das letras, da harmonia e
melodia. Hoje, por exemplo, ela já canta Romaria sem precisar ler o papel.
Na semana passada começou a estudar Asa branca e se emocionou ao conhecer a
história de luta no sertão nordestino relatada na música.
Kerstin, Shinja e Ugui já estiveram no Brasil entre três e quatro vezes.
Kerstin já desfilou em duas escolas de samba do Rio e realizou um sonho:
participar dos ensaios da bateria da Império Serrano. ‘‘Era só ensaio, mas
eu estava feliz de poder tocar com eles’’, relembra.
Inspiração em comum
A história da maioria desses músicos de Vancouver tem uma inspiração em
comum: o músico brasileiro Celso Machado, que mora na Ilha de Gibson, perto
de Vancouver. Muitos deles já tiveram aulas de violão com esse paulista de
Ribeirão Preto, que há mais de 20 anos divulga os ritmos brasileiros pelo
mundo. Celso Machado já morou na França, Itália, Alemanha e Inglaterra. Ele
toca não só violão, mas também vários instrumentos de percussão, além de
compor. Em Vancouver, já abriu shows de vários cantores brasileiros, entre
eles João Bosco, Caetano Veloso e Bebel Gilberto.
Celso Machado já fez seu próprio nome no Canadá. Todo ano atua em
concertos em Montreal e participa dos festivais de Jazz de Vancouver.
Questionado sobre o porquê de não formar uma banda para tocar MPB, diz que é
difícil encontrar bons músicos, ‘‘porque, para tocar MPB, você não pode
pensar primeiro e depois tocar — não funciona’’, desabafa. E completa: ‘‘É
preciso tocar com o coração, e isso só os brasileiros sabem fazer
naturalmente’’.
Assim como a paixão de Ray Piper, Nic Apivor e Kerstin Kapistke pela MPB,
há tantos outros em Vancouver encantados pelos acordes e ritmos brasileiros.
Como Miro Dalí, violista de música flamenca que já correu o Brasil de ponta
a ponta nos anos 70 — e se apaixonou pela música e pelas mulheres do Brasil.
Ele toca de memória ao violão mais de 20 canções — e canta alguns refrões em
português. Ou Trevor Murray, que aprendeu a tocar cavaquinho e este ano
passou três meses no Brasil, viajando e conhecendo mais a MPB. Há ainda
Russel Horwitz, um sul-africano completamente seduzido pelos ritmos
brasileiros. Seu sonho é ver Djavan e João Bosco ao vivo. Há pouco tempo
descobriu o pagode e se refere a Jorge Aragão como ‘‘meu amigo Jorge
Aragão’’. Aprendeu que quando os brasileiros gostam muito de alguém, o
tratam como ‘‘meu amigo’’. Russel tem 15 livros dos songbooks produzidos por
Almir Chediak. No verão, organiza música na praia só para tocar MPB. Quem
passa por perto pára, gosta e arrisca passos de samba, nem sempre com
sucesso. (GD)
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