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Rosinha de todo o Brasil (JB Online)

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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Autor: Sonia Palhares Marinho (soniapalhares(arroba)hotmail.com)
Data: Sáb 18 Dez 2004 - 10:59:41 BRST

http://jbonline.terra.com.br/jb/papel/cadernob/2004/12/16/jorcab20041216001.html

Rosinha de todo o Brasil

Maria Bethânia e Miúcha lançam disco-homenagem à violonista e compositora
Rosinha de Valença

João Bernardo Caldeira

Falecida em 11 de junho após 12 anos em coma, em decorrência de lesão
cerebral provocada por parada cardíaca, a violonista e compositora Rosinha
de Valença começa a receber as primeiras homenagens desde que partiu, aos 62
anos. O período foi doloroso para amigos, fãs e parentes da artista nascida
em Valença, no interior do estado. Nos últimos tempos, Maria Bethânia não
teve forças para visitar a amiga e companheira de palco, tamanho o
sofrimento. Mas sua admiração por Rosinha está entranhada em cada faixa de
Namorando a Rosa, produzido por Bethânia, que reúne amigos da violonista
como Martinho da Vila, Dona Ivone Lara, Alcione e Miúcha, a co-produtora
(leia crítica abaixo).
– Rosinha era uma amiga muito próxima. Mais tímida só a Cássia Eller. Nos
finais de tarde ela gostava de tocar violão com radinho de pilha ligado
fazendo torresminho. Tinha uma relação interiorana e isso nos aproximou
muito porque também sou do interior. Em seus últimos anos de vida, Miúcha
estava mais perto dela do que eu. Logo no princípio, eu fiquei muito
próxima, mas depois... Foram 12 anos... Eu nunca mais tive coragem – diz
Bethânia, que lança o CD por seu selo, Quitanda.

Miúcha demorou a visitar a amiga em Valença, mas se emocionou quando o fez.
Convencida pela violonista Célia Vaz, que participa do disco, a cantora
resolveu levar a versão de Bethânia para Cabocla Jurema, que Miúcha já havia
tocado em shows com a violonista, para Rosinha escutar.

– Já tinham me falado que ela reagia com música. Eu botei Cabocla Jurema,
Rosinha abriu o olho e aí eu vi que tinha uma lágrima escorrendo no rosto.
Eu disse: Rosa, se lembra? – conta Miúcha.

Bethânia afirma que optou por mostrar o lado mais brejeiro da violonista,
uma amante das modas de viola caipira. Por isso, ela pescou a maioria das
canções presentes em Namorando a Rosa do LP Cheiro de mato (1976). Além dos
supracitados, figuram ainda no álbum Caetano Veloso, Chico Buarque, Joanna,
Bebel Gilberto, Hermeto Pascoal, Turíbio Santos e Yamandú Costa. Miúcha
descreve o resultado:

– É um disco dos mais emocionantes. No estúdio, a cada momento as pessoas
reviviam sua relação com Rosinha. Havia mesmo afeto.

Rosinha reclamava da falta de prestígio do músico brasileiro. Cultuada no
meio artístico, ela não conseguia repetir o mesmo sucesso conquistado no
exterior. Começou muito bem, em 1963, depois que veio para o Rio disposta a
inscrever-se num concurso da Prefeitura para um cargo de datilógrafa. Quando
chegou, não havia mais vagas e logo foi levada pelo jornalista Sérgio Porto,
impressionado com o talento da moça, para a boate Au Bon Gourmet. Baden
Powell, habitué do lugar, viu e aprovou, como reza a lenda: “Não é possível!
Parece que sou eu que estou tocando!”

Anos depois, em 1972, a violonista comentou, em entrevista ao JB, as
dificuldades do começo, época em que tocava escondido da família. Não foi
nada fácil para uma mulher do interior, de pouco mais de 20 anos, desbravar
horizontes: “Eu era uma mulher que precisava de sorte, porque era a única
contra um número enorme de violonistas, um bando de homens que não estava a
fim de me ceder um lugar. Precisava quase arrancar as cordas do violão para
que as pessoas compreendessem que eu sabia tocar. Quantas vezes fazia
acordes fortíssimos para acordar as pessoas, para que calassem um pouco a
boca e prestassem atenção: quando um artista toca ele tem que ser ouvido.
Não importa que esteja de saia ou de cuecas”.

http://jbonline.terra.com.br/jb/papel/cadernob/2004/12/16/jorcab20041216002.html

Carreira de sucesso no exterior

Em 1964, um ano depois de ter seu talento descoberto no Rio, Rosinha de
Valença já estava excursionando com o pianista Sérgio Mendes pelos Estados
Unidos. Logo iria também à Europa, destacada como novo ícone da bossa nova.
Ao longo dos anos 60, 70 e 80, a violonista gravou mais de dez discos. Fez
também turnês em países como Israel, Portugal, África do Sul, Estados Unidos
e França, onde chegou a morar.

No Brasil, Rosinha integrou a banda de Martinho da Vila e fez shows com Nana
Caymmi, Dona Ivone Lara, Miúcha e João Donato. Bethânia comenta a carreira
que não chegou a deslanchar junto ao grande público, mas que deixa saudades:

- Quando eu fazia um show com Rosinha, tinha uma hora que ela tocava umas
músicas sem mim. A platéia delirava, mas em shows solo ela não tinha o mesmo
efeito. Como é que pode? Talvez hoje fosse diferente, porque o Brasil tem
uma leitura diferente do instrumentista. Era uma carreira que oscilava
muito, mas ela estava sempre tão feliz com a música que superava qualquer
dificuldade.

Dona Ivone Lara batia ponto nas muitas residências que Rosinha firmou em
Copacabana. Juntas elas fizeram shows em lugares como Angola e Argentina.
Foi a violonista quem a apresentou a Miúcha e Bethânia.

- Rosinha telefonava para eu ir comer torresmo na casa dela e toda tarde eu
estava lá. Eu chegava e ela dizia: quais são as novidades? Ela tocava violão
e eu então cantava as novidades. Nossa amizade era muito grande.

http://jbonline.terra.com.br/jb/papel/cadernob/2004/12/16/jorcab20041216010.html

Faltaram acordes vanguardistas

Tárik de Souza

Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, humorista e crítico musical, batizou
a fluminense Maria Rosa Canellas como Rosinha de Valença porque ela tocava
''por uma cidade inteira''. Seu desaparecimento doloroso este ano, após uma
enfermidade que a prendeu em coma durante 12 anos, ganha um contraponto
afetivo com o lançamento do coletivo Namorando a Rosa (Quitanda). Liderado
por sua amiga Maria Bethânia, o disco envolve participações estelares de
Chico Buarque a Martinho da Vila, Alcione e Bebel Gilberto.

E, além de homenagens autorais dos participantes, desvela o lado compositor
da violonista. Abre o disco a única faixa que conta com o violão da própria
Rosinha, no clássico choro Pedacinho do céu (Waldir Azevedo), degustado como
um lamento, extraído do disco Cheiro de mato, de 1976. O erudito Turíbio
Santos assina outra faixa apenas instrumental, a autoral Prelúdio de Rosa,
com acordes reiterativos numa ode onírica à homenageada.

Também instrumental é a jam encordoada dos chorões Yamandú Costa e Marcelo
Gonçalves (violões 7 cordas), Zé Paulo Becker (violão) e Ronaldo (bandolim)
na curvilínea e bela composição de Paulinho da Viola Rosinha essa menina. Já
a face compositora da violonista cintila na toada Os grilos são astros, de
letra premonitória (''dou boa-noite às dormideiras/ cuido pra não tocá-las/
tomo rumo indefinido/ vou ao encontro das fadas''), nas vozes bem casadas de
Chico Buarque e da sobrinha Bebel Gilberto.

Maria Bethânia realça dois outros temas líricos de Rosinha, Usina de prata e
Madrinha lua, com sua voz tépida. Vocal sinuoso, Martinho da Vila introduz
uma atmosfera ''gay chique'' na parceria com Rosinha Pro amor de Amsterdã,
um inesperado blues. Miúcha acaricia a quase modinheira Meus zelos. Já a
folk A pescaria, levada pelos irmãos Veloso, Caetano e Bethânia, em terças,
remete para um regionalismo consolidado em Interior e exacerbado na
releitura da surrada Chuá chuá (Ary Pavão/ Pedro de Sá Pereira), em duo por
Bethânia e Joanna.

Outra revisita excessiva, a da clássica Sonho meu, só ganha sentido no
prefácio musicado da co-autora D. Ivone Lara (''cantar pra mim foi
privilégio/ ao som de sua viola''). Mesmo que tenha merecido uma daquelas
homenagens típicas de Jorge Ben, a ladina Bicho de mato, Rosinha não foi
apenas a bucólica interiorana retratada em Namorando a Rosa, em boa parte
(seis faixas) inspirado no repertório do supracitado Cheiro de mato.

Sua estréia em 1964, no selo Elenco (Apresentando Rosinha de Valença), a
bordo de um violão batuqueiro ao lado de Dom Um Romão, Oscar Castro Neves e
Jorginho (flauta), colocava-a na vertigem sincopada da bossa, uma ''Baden
Paowell de saias'', como foi apelidada. E a porção vanguardista do CD ficou
confinada à faixa de Hermeto Pascoal, que, como de hábito, entorta tudo ao
piano em Mais uma Rosa. Faltou esse aroma ao sensorial buquê do CD.

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