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Assis Valente no Correio da Bahia (2ª parte)Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros. |
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Autor: Sonia Palhares Marinho (soniapalhares(arroba)hotmail.com)
Data: Ter 14 Dez 2004 - 19:02:00 BRST
http://www.correiodabahia.com.br/2004/12/14/noticia.asp?link=not000102638.xml
Solidão de menino
Uma infância conturbada com episódios de pura genialidade deu contribuições
à obra de Assis Valente
Pablo Reis
O que seria viver na permanente aventura, na renovação diária da fama e da
adoração dos espectadores? O descobrimento de novos lugares, novas pessoas,
novos conhecimentos. Era tudo o que diferenciava da vida sem perspectivas,
sem cultura e, às vezes, sem comida de José. O alumbramento foi ao ver um
palhaço na perna-de-pau, que divulgava a presença da trupe. Era aquela
alegria, aquela graça, aquele barulho que José queria para sua vida. O
pirralho foi lá e se ofereceu para integrar o Circo Brasileiro. Não ouviu
nenhuma resposta. Mas na apresentação da noite, entrou no picadeiro e fez um
discurso:
- Essa gente é tal qual passarinhos que armam e desarmam seu ninho, sem
achar o lugar certo de construir...
O público aplaudiu, impressionado com a performance do mulatinho esperto. E
ele, notando que a simpatia geral tinha sido conquistada, fez o apelo
definitivo:
Vocês querem que os artistas trabalhem ou não?
A lotação máxima em todas as sessões na cidade estava garantida, do mesmo
jeito que a vaga de Assis Valente no grupo mambembe, o passaporte para fugir
da falta de perspectivas.
Essa trajetória começa anos antes, sem a precisão de uma historiografia
oficial. Quando se esperam confirmações sobre dados simples da origem de
José de Assis de Valente é possível apenas suposições. Há um consenso de que
ele tenha nascido em 19 de março (justamente o dia consagrado a São José),
mas até mesmo o ano é motivo de controvérsia. "Sobre a infância dele sei
pouco. O que mais pude confirmar através de pessoas amigas é que ele nasceu
em 1908", acredita a filha única Nara Nadyle Valente Ricardo, que não
conviveu com o pai, separado da mulher pouco depois do nascimento da filha.
Alguns pesquisadores, como o biógrafo Francisco Duarte, confirmam que, ao
morrer, em 1958, Assis Valente tinha 50 anos. Outros consideram que ele era
mais jovem. "É nascido em 1911, portanto tinha 47 anos", avisa o produtor
musical Roberto Sant´Anna. Em todos os escritos sobre a vida do artista as
duas datas aparecem com igual freqüência. Mas se o ano de nascimento já é
motivo de polêmica, as especulações sobre o local já dariam o mote para um
samba. O próprio personagem não fazia questão nenhuma de esclarecer, como
declarou em uma entrevista, em 1941: "Sou baiano, natural do Campo da
Pólvora, em Salvador. Mas dependendo do meu humor, posso ser também de
Patioba, ou Bom Jardim", desconversava. A filha Nara confia na origem
soteropolitana.
"Só que Assis nasceu no distrito de Bom Jardim, município de Santo Amaro",
refuta o radialista e pesquisador Perfilino Neto. Os membros da república
santo-amarense fazem questão de reafirmar esta naturalidade. "Todas as
evidências mostram isso", reforça o compositor Roberto Mendes, em uma
opinião referendada por Caetano Veloso. Roberto Sant´Anna, nascido em Irará,
dedica-se a provar que o gênio sambista é de Patioba (atualmente a cidade de
Ouriçangas), a alguns quilômetros de sua cidade natal. "Eu não consegui
achar o registro dele no cartório, mas tenho o depoimento de uma irmã de
criação dele confirmando isso", argumenta com a autoridade de quem passou
cinco anos pesquisando a vida deste baiano cada vez mais difícil de confiar.
Passadas as incertezas iniciais, surge o episódio do circo. Qual seria a
idade de José, qual a cidade, por quanto tempo ele integrou o grupo? São
mais indagações que tornam a vida do compositor uma sucessão de fragmentos
biográficos, um palimpsesto de numerosas versões. O webmaster carioca e
estudioso da música popular brasileira, Amadeu Bocatius, responde que o fato
foi em Senhor do Bonfim, em 1921, no Circo Brasileiro, de propriedade de
Francisco Salustiano. O dono, inclusive, teria ficado grato ao menino por
salvar todo o faturamento da atração na cidade. A narrativa foi feita pelo
próprio a Malba Tahan, filho do célebre matemático, quando Assis Valente
resolveu dizer que nascera em Senhor do Bonfim.
Só que em se tratando de Assis Valente nenhum fato tem atestado de
veracidade. "Foi mais uma história inventada por ele para enfeitar a própria
vida. Não há nenhum registro de ele ter entrado em nenhum circo em lugar
nenhum do Brasil. É mais um delírio, nesse caso, provocado pela convivência
com o contemporâneo Gordurinha, que realmente correu o mundo em um circo",
desaprova Roberto Sant''Anna.
Fantasia da infância
Dar o rumo fantasioso da infância era encontrar o refúgio para um período de
sofrimento e solidão. A certidão de nascimento só foi lavrada na juventude,
com dados fornecidos por ele próprio, que garantia ser filho de José de
Assis Valente e Maria Esteves Valente. Mas o depoimento de uma meia-irmã de
nome Beatriz, na biografia A jovialidade trágica de Assis Valente, escrita
por Francisco Duarte Silva e Dulcinéa Nunes Gomes e publicada em 1989,
revela que ele era filho bastardo de Maria Esteves Valente com um
descendente de portugueses chamado Antônio Teodoro dos Santos.
Um ponto consensual entre tantos que pesquisaram a conturbada infância do
autor é a sua criação. Assis foi adotado pela família Cana Brasil, em
Alagoinhas, como uma espécie de jovem mucamo. O patriarca, o dentista
Manuel, usou o pretexto de que aquele mulatinho inteligente não podia se
perder sem educação. "Em casa, nós temos dois discos dele, mas as
informações sobre a vida dele não são muito claras", diz a secretária
executiva Josenilda Medeiros Cana Brasil, neta do seu Manuel. "A memória da
vida dele aqui em Alagoinhas se perdeu com a morte de meu avô", lamenta ela,
que nem tinha nascido quando o avô morreu e que já foi consultada por um
francês sobre essa parte da biografia do compositor. Sabe-se que o menino
fazia serviços domésticos, mas aproveitou para aprender com o dono da casa o
ofício de protético. Essa será a primeira profissão a dar notoriedade ao
baiano.
A outra contestada vitória moral do órfão durante a infância é sua passagem
como farmacêutico mirim. Em Senhor do Bonfim, ele teria sido contratado para
lavar os frascos de uma botica. "Como sempre foi dotado de uma inteligência
fora do comum, aprendeu a misturar as substâncias químicas, até que alguém
decidiu colocar ele em uma enrascada", conta Perfilino Neto. Enviaram uma
fórmula para ele fabricar, mas o menino José pediu para o responsável
retornar e levar a receita de volta. Ele não aviaria aquilo, porque estaria
fabricando um veneno. Por ironia, o instinto de preservação da vida do jovem
Assis não funcionaria para ele mesmo na idade adulta.
Vocação médica
A vocação para os serviços médicos também seria expressa no curto período em
que morou em Salvador. Funcionário do Hospital Santa Izabel, ele impressiona
a todos por ser mais talentoso do que a maioria dos empregados. "Nisso,
ganha uma bolsa de estudos para o Rio de Janeiro do próprio governador Góes
Calmon", sustenta Perfilino Neto, sobre o político que comandou o estado em
1924-28, justamente no período da adolescência de Assis Valente. Para
Roberto Sant´Anna, a história tem menos adereços de glória. "Ele viajou para
o Rio com a família Cana Brasil, foi o que me falou pessoalmente a irmã
adotiva dele, há uns 10 anos, quando ela já tinha 81 anos", garante.
"Inclusive, ela ressaltou que, na capital carioca, Assis Valente nunca mais
quis ter contato com ela porque só ela sabia de suas verdadeiras origens",
apimenta Sant´Anna.
É dessa confusa mistura de desilusão e amargura que nasce a inspiração
futura para criar o que seria um sucesso de todos os natais, a canção Boas
festas: "Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel/e que a tal
felicidade fosse uma brincadeira de papel".
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Trágica composição
Assis Valente ignora o talento formidável e faz da suposição de seu fracasso
pessoal o drama para se matar
Pablo Reis
O que teria pensado Assis Valente naqueles últimos minutos no banquinho da
Praia do Russell, no Rio de Janeiro? Certamente, no fracasso de uma vida, na
desilusão por não ter conseguido virar o notável artista que sonhara para si
mesmo. Estava errado Assis Valente. Ali, sentado, seus pensamentos
contrariavam tudo o que se achava dele do ponto de vista artístico.
Compositor brilhante, criador de músicas que viraram sucessos de imensa
penetração popular, ele sequer imaginava que sua obra atravessaria o século
sendo regravada sempre com a atualidade das palavras de um profeta social.
Ao contrário, estaria pensando no ostracismo, que seria o passo seguinte às
notícias relatando a sua morte. Estava errado.
O que pensava Assis Valente prestes a beber dois goles de sua própria
tragédia? Certamente no abandono, uma recorrente palavra, um sentimento
sempre evocado, em seus quase 50 anos de vida. Pensava no menino saído do
interior da Bahia, errante, sem o zelo educador e a proteção amorosa de uma
família. Lembrava de toda a saga mítica, uma espécie de epopéia mulata que o
transformara de um baiano sem destino, sem lar nem parentes na infância, em
um dos mais conhecidos artistas do país. E, para além da fama, a solidão, o
abandono. Onde estavam Aracy de Almeida, Carlos Galhardo, Francisco Alves?
Para onde tinha ido Carmen Miranda que não estava ali para a última
despedida? Ninguém estava ali, só a incômoda presença de um sentimento quase
perene de rejeição.
O que pensa Assis Valente enquanto a vista fica turva, a boca começa a secar
e os ruídos das crianças brincando na grama em frente começam a ficar
inaudíveis? Pensa no orgulho pela filha única, a primeira colocada na
seleção para a Escola Nacional de Música e em como seria bom ter uma vida
tranqüila e acompanhar o crescimento dela. Valente pensa também se aquela
terceira tentativa daria certo e que se desse a última imagem que
registraria seria o mar do Rio de Janeiro. Lembra do circo na infância, da
farmácia na adolescência, do consultório de próteses já no início da fase
adulta. Locais marcantes para uma vida conturbada, cheia de endereços, mas
sem a residência da serenidade, sem a morada da tranqüilidade.
São muitas as perguntas sobre aquele momento, mais numerosas ainda são as
indagações sobre toda a vida do baiano José de Assis Valente. Falta colar as
peças de sua infância, falta solucionar uma incoerência sobre o local de
nascimento, definir qual seria a carreira predileta, imaginar de onde saíram
os subsídios para sua habilidade criativa, especular sobre a preferência
sexual, avaliar como uma vida guindada da mais completa carência (emocional,
física, até alimentar) ao estrelato pode ficar em parte obscurecida por um
sentimento de automutilação. Há muito mais enigmas do que certezas sobre
Assis Valente. Na melodia do hipotético, ao ritmo dos questionamentos e no
compasso da dúvida, a vida de quase 47 anos produziu a única convicção de
uma absoluta genialidade.
É esse o Assis Valente autor de sucessos atemporais como Camisa listrada,
canções tão díspares em sentimentos como Brasil Pandeiro e Boas festas, mas
que se destacou como protético afamado, desenhista talentoso e,
principalmente, um vencedor de todas as adversidades que lhe apareceram. Um
homem cuja complexa personalidade ainda não foi totalmente compreendida
pelos familiares, quase meio século depois da morte. "Meu pai foi uma
criança triste, um jovem batalhador que aproveitou as pequenas chances que a
vida ofereceu", reflete Nara Nadyle Valente Ricardo, a única filha do
artista.
Um homem cuja arte ainda arregimenta fãs, depois de décadas de criada. "Do
ponto de vista musical, ele entendia profundamente o que fazia, conhecia a
língua como ninguém. Sabia que a redondilha era sempre a solução e que a
língua é paroxítona", derrama-se o compositor Roberto Mendes. "Ele não podia
ser considerado um músico completo, porque não tocava instrumento. Mas era
um criador maravilhoso", assevera o médico legista e músico Tuzé de Abreu.
"A única desvantagem dele com relação a Caymmi, por exemplo, é o fato deste
saber usar muito bem o violão", completa Tuzé, que estudou toda a obra de
Assis para compor a trilha sonora de uma peça sobre a personagem.
"Assis era baiano, mas não fez nenhuma música que pudesse ser considerada
como retrato do estado", comenta o radialista e pesquisador Perfilino Neto.
"Mas há a hipótese do grande sucesso de Ary Barroso, Na Baixa dos
Sapateiros, ter sido escrito por ele e vendido para pagar dívidas. Os dois
não confirmavam e nem negavam este boato", adverte Perfilino, estudioso da
vida e da obra de Barroso. "Não há nenhuma comprovação, por isso nem tem
como se cogitar", rebate o produtor musical Roberto Sant''Anna, que
pesquisou o rastro de Assis Valente por cinco anos.
Esse é o artista de quem a vida foi tomada por um folhetim, cujos passos
estão em poucos documentos oficiais e mais no depoimento de quem conviveu
com ele. Nas próprias entrevistas que o compositor deu antes de morrer a
contradição dava a cadência. "Se era verdade ou mentira, se era invenção,
não vem ao caso, porque é a verdade do próprio Assis", adverte o webmaster
carioca e colecionador de biografias da música popular brasileira, Amadeu
Bocatius.
Uma existência cheia de incoerências e que até hoje sustenta polêmicas. Uma
complexa vida com mais sucessos do que fracassos, mas que foi difícil de
suportar. No fim de tarde de 11 de março de 1958, tomba Assis Valente, sem
vida, deixando para a posteridade o legado de um gênio. Quanto de alegria e
quanto de amargura pôde caber na vida deste homem?
http://www.correiodabahia.com.br/2004/12/14/noticia.asp?link=not000102641.xml
Ufanista do samba
Assis Valente abusa do patriotismo até na escolha de seu último ato
Pablo Reis
Quanto de uma vida pode ser destruído quando uma frustração profunda vira um
fantasma de um amor platônico? Muito da vida de Assis Valente se deteriorou
depois daquele "não" de Carmen Miranda. O compositor buscava a obra-prima,
já imaginando que ela pudesse ser cantada por sua musa. Seria justamente uma
canção que falava do orgulho patriótico, da vitória nacional de ver artistas
do país fazendo sucesso no exterior. A exaltação da irreverência e do
talento do brasileiro ficaria como contrapartida ao estilo seco do povo
americano. Seria uma reedição dos melhores momentos de ufanismo de Gonçalves
Dias. Nascia Brasil Pandeiro, a obra-prima.
No início da década de 40, a cantora passaria no Brasil para apresentações.
Assis levou a letra esperando nada menos do que a constatação de que era
genial. Carmen, então uma cosmopolita, candidata ao estrelato em Hollywood,
imaginou que não seria elegante gravar versos como "O Tio Sam está querendo
conhecer a nossa batucada/ Anda dizendo que o molho da baiana melhorou seu
prato/ Vai entrar no cuscuz, acarajé e abará/ Na Casa Branca já dançou a
batucada de ioiô e iaiá". Não gostara do encaminhamento anti-imperialista da
composição. Recusou, julgou uma obra sem importância. Neste caso, Carmen
estava errada. E o lançamento pelo grupo Anjos do Inferno, a regravação
pelos Novos Baianos, em 1972, a utilização como jingle na Copa do Mundo dos
Estados Unidos, em 94, e a apropriação, em 2003, como tema para o
aniversário de 50 anos da Petrobras ("orgulho do povo brasileiro") são
apenas exemplos de como a exaltação permaneceu atual ao longo de décadas.
Em julho de 2004, quando Caetano Veloso apresentava no Teatro Castro Alves o
show A foreign sound, a situação era, de alguma forma, irônica. Ele, um
santamarense com fama internacional, divulgando um disco e um espetáculo em
que cantava apenas músicas americanas. Resolveu fazer uma única concessão.
Ao explicar a idéia da turnê, falou, em resumo, que a essência da vontade do
artista é criar visando o universal e isso muitas vezes implica em usar
outros idiomas. Mas que "o brasileiro, o baiano, nascido em Santo Amaro,
Assis Valente pensava diferente", e que por pensar desse jeito fez um samba
que Carmen Miranda "considerou inadequado, sem graça, e ele, que já era
complicado, complicou-se ainda mais".
Trauma da rejeição
"A recusa da Carmen doeu muito nele, ele nunca mais esqueceu", declarou a
cantora Marlene, por ocasião do lançamento do primeiro LP, em 1956, não à
toa inteiramente feito com o repertório de Assis (Marlene Apresenta Sucessos
de Assis Valente). Magoado, Assis Valente iniciou a fase do rancor, em que
usava entrevistas para revelar a amargura. "Carmen esqueceu-se do tempo em
que ensaiava Camisa listrada dentro do galinheiro de sua casa em Santa
Teresa, pois seu casebre era muito pequeno. Abandonou o Brasil pandeiro, mas
não a condeno por isso, pois vi que ela não tinha voz suficiente para
interpretá-lo", disparou.
Além do amor próprio ferido, ele tinha o lamento de ver uma das coisas que
mais prezava - a identidade cultural brasileira -caindo na vala comum do
deslumbramento com o que é de fora. "Ele cuidava muito do seu povo. Tenho
isso do Assis como devoção. Por que preciso arrumar minha casa só para
receber visita, ou fazer a comida especial para a visita? Eu quero ter isso
é o tempo todo, porque eu moro em minha casa", acentua o compositor Roberto
Mendes. "Assis Valente foi um dos músicos que, na miséria da vida cotidiana
popular do Rio no antigo século XX, criou um ambiente musical no qual fluía
a poesia do homem comum como amor ao Brasil e, simultaneamente, como ironia
do lugar do povo na brasilidade", garante o cientista político e doutor pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro, José Paulo Bandeira da Silveira,
autor de tese sobre como a obra do baiano contribui para a definição da
estética da brasilidade.
É um símbolo do orgulho nacional que Assis escolhe para ser palco de seu
espetáculo de tragédia. Em 13 de maio de 1941, ele se joga do Corcovado. Mas
entre sua decisão de fugir de si mesmo e a completa destruição havia o
milagre de uma árvore. Setenta metros abaixo do Cristo, os galhos frondosos
evitaram que ele se espatifasse. Foi resgatado pelos bombeiros com duas
costelas quebradas e muitas escoriações. Nos jornais do dia seguinte, ficou
registrado que os policiais tinham ouvido declarações desconexas como "tenho
uma mulher e uma filha que não me têm". As páginas especulavam a separação
da esposa, dificuldades financeiras e o afastamento dos colegas de música
como razões para a surpreendente atitude de um compositor que fazia sucesso
com a música Brasil pandeiro, na época tocada por Anjos do Inferno.
Ruína em capítulos
Nos anos seguintes, mais um capítulo da ruína a que ele mesmo se apegava.
Assis Valente corta os pulsos, depois de cobranças públicas de uma dívida
por Elvira Pagã, que formava dupla com a irmã Rosina e, juntas, eram
intérpretes da freguesia do artista. Ele se salva do grave ferimento e passa
mais de dez anos sem tentar por fim à vida. Só que em 11 de março de 1958,
cede à definitiva vez ao seu destino trágico. De frente para o mar, ele bebe
o fim de sua conturbada trajetória. Dissolve todas as glórias em algumas
pitadas de veneno para rato. Engole o pirralho que revitalizou um circo, o
menino prodígio da farmácia, o desenhista de traços simples e caricatos.
Digere o protético afamado, o compositor de sucesso, o baiano vitorioso.
No dia 12 de março de 1958, o jornal A Tarde publica a reportagem de agência
de notícias dizendo que ele deixara dois bilhetes. O primeiro endereçado a
uma mulher de nome Júlia Maria: "Peço-lhe que não se identifique. Faça de
conta que não estou morto e que tudo foi, apenas, uma brincadeira sem graça.
Quanto ao dinheiro que lhe emprestei, fica sem efeito, pois rasguei os
títulos". Noutro, Assis pede desculpa aos credores por não poder pagar as
dívidas.
O sepultamento, no dia 15, tem a presença de artistas como Orlando Silva, Zé
Trindade, Black-Out, Russo do Pandeiro e Léo Gomes. Ary Barroso, que tinha
bancado as despesas do funeral, faz os discursos, onde clama contra a falta
de reconhecimento que impediu o corpo de ser velado na Câmara municipal:
"Não permitiríamos nós da Sbacem que levassem você para a Câmara, Assis,
porque o atual presidente daquela casa é um homem cujas atitudes sempre
foram contra os artistas, é um inimigo do direito autoral que sempre
defenderemos e por esse motivo preferimos fazer que somente os teus amigos
tivessem o direito de homenagear você pela última vez". A Sociedade
Brasileira de Autores Compositores e Escritores de Música, da qual Barroso
era o presidente, até hoje repassa os direitos autorais para a filha de
Assis Valente.
O último desejo do compositor era de uma mórbida ironia. Pedia ao povo, em
cartas, para cantar o samba de sua autoria gravado nas derradeiras semanas
pelo cantor Jairo Aguiar, de nome Lamento. Depois de tentar se matar duas
vezes sem êxito, Assis escrevia: "Felicidade afogada morreu/ A esperança foi
fundo e voltou/ Foi ao fundo e voltou/ Foi ao fundo e ficou". Era a
despedida. O fim de uma vida sorvido de forma bem brasileira: com um copo de
guaraná.
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