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Assis Valente no Correio da Bahia (1ª parte)

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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Autor: Sonia Palhares Marinho (soniapalhares(arroba)hotmail.com)
Data: Ter 14 Dez 2004 - 18:56:37 BRST

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Sambista da incerteza

preis@correiodabahia.com.br
Pablo Reis

Biografia de Assis Valente conserva enigmas típicos da sua genialidade
incomum

Acontece que ele era baiano. Talentoso compositor, Assis Valente sucumbiu à
angústia típica dos grandes gênios. E a sua biografia, repleta de enigmas, é
desconhecida de quem cantarola sucessos seus sem o saber. Brasil pandeiro,
imortalizada nos anos 70 pelos Novos Baianos, é considerada a obra-prima do
compositor. Nascido na primeira metade do século XX, morreu em 11 de março
de 1958, confirmando seu destino trágico. Mas deixou seu nome reconhecido na
história da música popular.

http://www.correiodabahia.com.br/2004/12/14/noticia.asp?link=not000102639.xml

Canções eternas

Dois estilos de música nacional brotaram da fértil imaginação sonora do
mulato baiano
Pablo Reis

Qual o sentido do Natal para alguém absolutamente só, sem família, em uma
cidade que não lhe pertence? Aliás, qual o sentido do Natal, uma comemoração
de forte carga consumista, em um país com milhões de miseráveis, repleto de
crianças alienadas da chance de um brinquedo na forma de carinho, um mimo
representado por uma vida digna? As perguntas atormentavam Assis Valente
naquele fim de ano de 1932. Mas foi a solidão pessoal, a chaga do
isolamento, que motivou a composição de Boas festas.

O autor estava em Icaraí, em Niterói, mais afastado de seu círculo de
amizades. Um desenho no quarto do hotel com uma garota observando um sapato
em cima da cama foi a imagem que determinou o estopim criativo do baiano.
"Aos poucos, fui tomado de uma grande tristeza. Pensei na alegria de ser
feliz e não estar só no mundo, como eu, como aquela menina. Quando passou a
tarde, a música já estava feita", declararia, anos depois, para um encarte
de um de seus discos.

A letra é uma sucessão de imagens melancólicas, a infelicidade vai brotando
em um carrossel de sons harmoniosos: "Anoiteceu/o sino gemeu/e a gente
ficou/feliz a rezar/Papai Noel!/ Vê se você tem/ a felicidade/ pra você me
dar". A excessiva lamúria não impediu a canção de ser, nas décadas
seguintes, a melodia preferida de crianças e adultos na época do Natal.
Gravada por Carlos Galhardo, em 1933, a música seria escolhida, em 1956,
como o "hino oficial dos festejos natalinos" pela prefeitura do Rio,
possivelmente a maior homenagem em vida recebida pelo compositor. "Papai
Noel não tinha vindo, mas eu ganhara um grande presente - a melhor de minhas
composições", relatou Assis Valente. Ele não queria que a canção fosse
gravada por Galhardo (que julgava pouco famoso para um sucesso), mas por
Francisco Alves ou Orlando Silva. Contrariando o criador, o cantor precisou
voltar ao estúdio da RCA duas vezes, na década de 40 e 50, para regravar a
música, porque a matriz que fazia as cópias do disco tinha sido desgastada
por tantas prensagens.

Estréia

O ano de 1932 fora especial na vida do então protético. Era justamente a
estréia dele como compositor. O estímulo foi dado por Heitor dos Prazeres,
um carioca de origem humilde que ficou famoso escrevendo músicas para Noel
Rosa. Ele foi o primeiro a notar o talento do baiano e praticamente
obrigá-lo a investir na carreira artística. Antes de sequer imaginar fazer
sucesso na capital carioca, Assis Valente conseguiria incluir mais capítulos
nebulosos em sua biografia. A própria mudança para o Rio de Janeiro é
cercada de controvérsias. O radialista Perfilino Neto afirma que a viagem
fora um prêmio do governador Góes Calmon para que ele estudasse as técnicas
odontológicas na capital da República. Roberto Sant´anna considera mais
plausível o fato dele ter ido com a família Cana Brasil, de Alagoinhas.
"Conversei com a meia-irmã dele, Jovina, no Rio de Janeiro, e ela disse que
ele se desligou de todos depois de ficar famoso, porque a família conhecia
sua origem", relata.

O ano dessa transferência de domicílio é incerto, sabe-se apenas que foi no
final da década de 20. Os dois primeiros ofícios em que se destacou eram
originários da habilidade com as mãos. Na maior parte do tempo, dedicava-se
a polir as coroas, esculpir com esmero as dentaduras dos melhores clientes
do Rio de Janeiro. Em horas vagas, fazia desenhos que vendia para as
revistas Fon Fon e Shimmy. Com as charges, ele tinha certo destaque. Com as
próteses, era considerado o melhor do Distrito Federal. Mas o destino dele
era ganhar a boca dos brasileiros de outra forma.

A facilidade para fazer versos encantou Heitor dos Prazeres, o tutor inicial
de Assis. Heitor levou a letra de Tem francesa no morro para ser gravada por
Araci Cortes. O estilo satírico do baiano já ficava expresso naquele disco
de 78 rotações, lançado pela Columbia, em 1932. Era uma crítica bem humorada
ao uso indiscriminado do galicismo pelos eruditos da alta sociedade: "Donê
muá si vu plé lonér de dance aveque muá/ Dance ioiô/ Dance iaiá". "Você vê
como o sucesso é atual, apenas se mudarmos o uso do francês pelo inglês.
Hoje, temos muitos cantores que querem fazer sucesso para americano ver",
reflete Perfilino Neto, justamente no momento em que o santamarense Caetano
Veloso grava disco e faz show apenas com músicas americanas.

O sucesso relativo muda a rotina no consultório instalado no Edifício
Regina, na Rua da Carioca, com o sócio Aguiar Dantas. Assis abraça a boemia
e cada vez menos bate ponto no trabalho. "Tínhamos um campo grande de
trabalho pela frente, mas àquela altura com o Assis não dava", lembrava
Aguiar. Maior veículo de comunicação da época, o rádio supria uma privação
sentimental do mulato carregada desde o conturbado nascimento. "Tinha uma
necessidade pessoal de projetar-se, de ser visto, aquela carência famigerada
de afeto de órfão saudoso da família desconhecida", escreveu o biógrafo
Francisco Duarte.

Adereço do artista

A profissão consolidada de protético vira apenas um adereço para o sonho de
ser famoso e reconhecido. "O que ele recebia dos clientes pelas próteses
dentárias imediatamente aplicava na compra de roupas novas para
apresentar-se elegante nos palcos dos auditórios e shows", recorda a filha
Nara Nadyle, uma pedagoga aposentada de 63 anos, moradora de Copacabana.
Usando os melhores ternos da época, sempre com o bigode bem aparado e o
cabelo engomado, Assis Valente torna-se figura conhecida do rádio. Para ele,
não era suficiente.

No país governado por Getúlio Vargas, a Revolução Constitucionalista de 1932
motiva o jornal O Globo a publicar, durante meses, uma série de artigos com
o tema Para onde vai o Brasil. Numa antevisão do que, décadas posteriores,
seria chamado de marketing pessoal, Assis Valente compõe um samba e o
oferece ao jornal. O título é Para onde vai o Brasil. A estratégia rende a
ele publicidade gratuita, e o melhor, muitas fotos em diversas edições.

Na fase mais criativa e mais intensa de sua carreira, Assis Valente foi
responsável pela criação de dois gêneros musicais. O primeiro, a marchinha
natalina, originada em Boas festas. O outro estilo, que faz dele um
desbravador de tendências musicais na história cultural do país, é içado em
1933, com a música Cai, cai, balão. É a inauguração das marchinhas juninas.
"Até ali, não se conhecia este tipo de música para São João. Nessa época,
tocava-se muito músicas estrangeiras, como polca, rancheira, fox, valsa e
modinha", corrige Perfilino Neto.

A inspiração atinge Lamartine Babo, Ari Barroso, Luís Peixoto, até virar, na
década de 40, o estilo próprio de Luiz Gonzaga. Setenta anos depois, a
cantiga ainda é lembrada em festinhas escolares. "Um autor que compôs duas
músicas como essa não precisava nem mais de Brasil pandeiro", comenta
Perfilino, sobre a canção que desdenha da condição dos que experimentam o
sucesso fugaz e ascendente e depois fenecem com o apagar da chama da
notoriedade.

Vivendo na fase de vôo a estratos cada vez mais altos, Assis Valente não
imaginava, na época, que a lição de moral de sua letra pudesse ser aplicada
ao criador. Ao longo da década de 30, ele plana no auge de um sucesso sem
divisas. Em 1935, recebe o convite do governo da Bahia para organizar e
presidir um concurso de composições para o São João. As autoridades
justificam a homenagem como uma retribuição ao "conterrâneo ilustre e
vencedor". Ele é recebido em Salvador com status de astro por políticos e
artistas.

Era o que faltava para perceber que jamais a profissão de protético poderia
lhe dar uma fama de tão grande proporção. Assis Valente, o mulato baiano que
tinha ido para o Rio de Janeiro tentando apagar o rastro de uma história de
amargura e abandono, voltava como ídolo, como referência do sucesso. Só que
o balão de sua vida ainda tinha uma outra parte da curva para executar.

http://www.correiodabahia.com.br/2004/12/14/noticia.asp?link=not000102640.xml

Cronista do cotidiano

A inspiração do artista surgia nas cenas simples e divertidas do dia-a-dia

Pablo Reis

O que fazer para demonstrar que o amor a uma filha não pode ser apagado em
nenhum momento? Assis Valente sentia a paixão incomensurável e resolveu
tatuar o nome Nara Nadyle mais de uma vez na pele. A vontade de fazer uma
exposição epidérmica de sua afeição filial surgia em um tempo em que a
atitude não tinha virado um modismo capaz de fazer namorados com dois meses
de relacionamento trocarem declarações gravadas no tornozelo ou no pulso.
"Era o jeito de ele provar para mim um amor paternal profundo e eterno como
o que sinto por ele também", emociona-se Nara Nadyle, mãe de Fernando e
Marcelo, avó de João Vítor.

Até o nascimento da filha, em 31 de janeiro de 1941, a vida de Assis Valente
pouco tinha dos dogmas familiares tradicionais. Gostava de festas, de
apresentações na rádio, de participar de coquetéis, de estar no meio de
gente importante. A maioria das fotos mostram o largo sorriso e o traje
impecáveis. "Ele usava terno de linho Braspérola, elegantérrimo. Era só
parar na esquina que o vento chegava a balançar o tecido", sustenta Roberto
Sant´anna. "O que meu pai ganhava no consultório imediatamente comprava
roupas novas para apresentar-se elegante nos palcos dos auditórios e shows.
Aliás, uma de suas grandes características era o seu bom gosto no trajar",
garante, orgulhosa, a filha Nara Nadyle.

Sexualidade

Mais do que a fama de requintado nas roupas, o dândi do samba atraiu todo o
tipo de comentário sobre sua sexualidade. "Assis Valente era homossexual e
quem convivia com ele respeitava isso", afirma o baiano Valter Levita,
famoso cantor no Rio de Janeiro nas décadas de 40 e 50, e que acompanhou um
período da vida do compositor. "O problema eram as pessoas que não eram
próximas dele e, de certa forma, discriminavam", completa Levita, hoje com
84 anos. "Eu tenho a teoria de que se ele conseguisse resistir à idéia de se
matar por mais uns três anos, certamente seria menos angustiado. Porque nos
anos 60 as pessoas eram mais abertas aos relacionamentos homossexuais e
Assis teria menos problemas. Ele apanhou muito por causa disso, inclusive,
literalmente", revela Roberto Sant´anna. "Ser gay hoje dá ibope, é status, é
currículo. Naquela época, o cara fazia as coisas escondido, bem reprimido",
justifica Perfilino Neto.

A opção sexual de Assis Valente se confrontava com um amor platônico, uma
paixão artística pela grande musa de sua obra: Carmen Miranda. A visão
deslumbrante da performance da cantora, atriz e vedete no Teatro João
Caetano, ainda em 1932, foi decisiva: "Esta é a pessoa para dar vida aos
meus sambas", pensou Assis. Faltava a chance de dizer a ela que nenhuma
composição soaria tão verdadeira em sua voz quanto as que ele fizesse.

Assis Valente foi ardiloso. Começou a ter aulas de violão com Josué de
Barros, o descobridor de Carmen, na esperança de que ela compartilhasse da
mesma classe. Mas a cantora não tinha interesse no conhecimento teórico de
instrumentos. Em alguns eventos, os dois chegaram a se cruzar, mas o
acanhamento diante do ídolo e a esperança de que alguém os apresentasse
impedia Assis Valente de fazer o primeiro contato. Até o compositor resolver
forjar um pretexto com a linguagem que mais dominava: a música. Criou a
letra de Etc e levou para a estrela. Carmen gostou imediatamente e lançou a
canção pelos microfones da Rádio Mayrink Veiga.

Glória e perdição

Era o início da parceria entre o compositor e sua principal intérprete.
Carmen gravaria 24 das quase 150 músicas de Assis Valente, fazendo de
praticamente todas sucessos populares. Ela seria a glória e também a
perdição do baiano. O jeito irreverente, a voz maliciosa, combinavam de
forma incomum com as letras debochadas. Na posição de cronista do cotidiano,
ele pensava em muitas de suas obras batucando no balcão do consultório,
revivendo algumas cenas populares, ou temas de ampla discussão pública. Como
a zombaria diante dos vaticínios apocalípticos por causa de um eclipse
total, no final da década de 30, expressa em E o Mundo não se acabou
(Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar/ Por causa disso a minha
gente lá de casa começou a rezar/ E até disseram que o sol ia nascer antes
da madrugada/ Por causa disso nessa noite lá no morro não se fez batucada).

A parceria entre a voz de Carmen e a originalidade de Assis também produziu
o monopólio das músicas carnavalescas da época. Na festa de 1938, não se
tocava outra coisa a não ser Camisa listrada: "Vestiu uma camisa listrada e
saiu por aí/ Em vez de tomar chá com torrada/ Ele bebeu Parati (...) Tirou o
seu anel de doutor/ Para não dar o que falar/ E saiu dizendo: Mamãe, eu
quero mamar". "Naquela época do Carnaval de rua, quando a multidão escolhia
uma música não dava outra coisa. O cantor dizia, eu ganhei o Carnaval",
recorda Valter Levita, 85 anos, que em 1960 deu esse grito com o sucesso de
Maria tá.

Geralmente solitário na vida e na arte, Assis Valente juntou sua
musicalidade intuitiva com a contribuição de parceiros em encontros
considerados instantâneos. Foram 46 músicas em co-autoria. Os mais
freqüentes sócios musicais foram Leandro Medeiros (seis letras), Júlio
Zamorano (cinco letras), Zequinha Reis e Álvaro da Silva (três letras,
cada). As parcerias extemporâneas mais importantes foram com Lamartine Babo
(em Janete, de 1936), Humberto Porto (Batuca no chão) e Luiz Gonzaga (com
Pão duro, de 1946). Esta música, inclusive, seria praticamente toda
creditada ao Rei do Baião, apesar de ele fazer questão de dizer que só a
harmonização e a melodia não eram de Assis. É que nesta época, o baiano já
não gozava do mesmo destaque dos anos 30.

Fator determinante para o início das trevas a que o compositor se
auto-exilou foi a viagem de Carmen Miranda. Em 1939, o empresário americano
Lee Schubert assiste a uma apresentação dela no Cassino da Urca. Decide que
a América precisa conhecer aquela adorável pequena. Ela muda para os Estados
Unidos, junto com o grupo Bando da Lua, que freqüentemente gravava as
músicas de Assis. A ação de Schubert foi como um assalto na carteira
sentimental do baiano. Ele perdia dois intérpretes favoritos, a grande musa
e ainda a inspiração para compor pensando na voz que entoaria as frases.

"Tem essa coisa do intérprete estimular o compositor. Carmen era assim pra
ele", reflete Roberto Mendes, que tem boa parte da obra feita
especificamente para a voz de Maria Bethânia. "Só que Caymmi quando chegou
ao Rio também fez música para ela. E dizem que namorou com ela, o que
despertou o ciúme de Assis", considera Mendes, para quem há duas formas de
fazer música: "Copiando bem ou copiando mal Caymmi e Gonzaga". A despedida
levou à tona a própria certeza de que Assis tinha nascido para ser
abandonado, um predestinado a sofrer.

Em 23 de dezembro de 1939, sem avisar aos amigos, sem fazer festa ou alarde,
ele casa com a datilógrafa Nadyle da Silva Santos, que ainda nem completara
20 anos. Um ano e um mês depois, nascia Nara Nadyle. Mas o que era a
promessa do primeiro núcleo familiar na vida de Assis Valente virou apenas
mais uma lembrança fugaz da felicidade. A separação é pouco tempo depois do
nascimento da filha, que passa a ser criada pelos avós, com permissões para
visitas ligeiras. "Meu pai sempre aceitou as regras e os limites que minha
família impôs, pois não tinha a menor intenção de criar atritos familiares",
reflete Nara Nadyle. "À medida que fui crescendo e com maior compreensão dos
fatos, passamos a nos encontrar com mais freqüência", completa.

Mesmo a distância, pai e filha continuam a compartilhar o carinho mútuo.
Desde os 7 anos, ela chega da escola e vai direto para a radiola colocar
algum de seus discos da coleção. Assis fica radiante ao saber que, aos 13
anos, ela é aprovada em primeiro lugar para a Escola Nacional de Música, com
nota máxima. A menina que era exímia pianista, definitivamente herdara uma
aptidão que era motivo de orgulho paterno. "Nunca o tinha visto daquela
maneira. Parecia que queria gritar ao mundo que a filha tinha uma veia
musical igual à dele", emociona-se Nara Nadyle. A alegria com o progresso da
filha era um domínio passageiro da claridade sobre as sombras que ele
reservara a si mesmo. A inata predisposição para a tragédia era um motivo.
Carmen Miranda seria o outro.

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