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O homem que sabia djavanês

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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Autor: valldir_menga (valldir_menga(arroba)terra.com.br)
Data: Ter 09 Nov 2004 - 08:45:18 BRST

 Caros,
O texto abaixo chegou de forma apócrifa`a outra lista de discussão da qual participo e causou vivo interesse entre os internautas de plantão naquelas plagas. Pelo estilo e referências literárias desconfio vagamente que seja de nosso amigo Fernado Toledo.
Se não for, por favor informem-me a procedência, se possível.
Desculpem-me se o texto é meio off, mas é muito engraçado.

Valdir

Homem que sabia djavanês
Eu tinha chegado fazia pouco ao Rio de Janeiro e estava literalmente
na miséria. Vivia fugindo de casa de pensão em casa de pensão, sem
saber onde e como ganhar dinheiro. Até que um dia, lendo "O Globo",
deparei com este anúncio: "Precisa-se de um professor de djavanês".
A audição das músicas de DJ Avan sempre provocou em mim puro mal-
estar físico. Mas, enfim, precisava de grana e decidi fazer o possível
para vencê-lo.
Naquela semana, fui a todos os barezinhos com música ao vivo da
idade. Perdi a conta de quantas vezes escutei "e o meu jardim da
vida ressecou, morreu" ou "amar é um deserto e seus temores". Foram sete dias de tortura; contudo, saí deles com o djavanês na ponta da
língua. Em vez de mandar meu currículo, achei que conviria visitar
o endereço indicado no anúncio.
Era um tríplex de cobertura, decorado com muito dinheiro e mau gosto ainda maior, num dos bairros mais caros do Rio. Apresentei-me comoprofessor de djavanês e, após ser submetido a inquérito pelos empregados, fui levado à presença do patrão, o doutor Albernaz. Ele me recebeu com um sorriso visivelmente irônico.
"Então o senhor é professor de djavanês, hein?"
"Sim, sou. Formado em djavanês e com mestrado em beregüê. Tive dez
com louvor na minha tese sobre a influência de Carlinhos Brown na
obra de James Joyce." A tese, obviamente, não existia, mas o doutor
Albernaz pareceu acreditar na conversa.
"Então, só o senhor pode me ajudar. Ouça isto, por favor" - e pôs
nas minhas mãos uma coletânea do DJ Avan em CD. Ao notar minha cara de ponto de interrogação, ele contou sua história.
"Pouco antes de morrer, meu pai me entregou esse CD e disse:
'Filho, tenho certeza de que DJ Avan canta coisas muito profundas,
mas ouvi suas músicas durante anos e nunca consegui entender porra
nenhuma. Só podem ser segredos iniciáticos transmitidos da maneira
mais hermética possível. Descubra o significado e você obterá a
chave da felicidade'."
O doutor Albernaz abriu o encarte do CD e me mostrou uma das letras:
"'Obi, obi, obá. Que nem zen, czar. Shalom Jerusalém, z'oiseau'. O
que é isso?". Eu estava tenso com a pergunta do doutor Albernaz.
Tantas músicas do DJ Avan e o velho tinha de querer saber o que
significava a letra de "Obi"? Desgraçado. Se ainda fosse aquela
do "o amor que é azulzinho", mas era tarde. Ele tinha os olhos fixos em
mim: queria respostas. Todo o sucesso da minha empreitada dependia
de uma explicação convincente e imediata.
De repente, uma idéia. Começo: "Veja bem. 'Obi' é certamente uma
referência a Obi-Wan Kenobi, o sábio de 'Guerra nas Estrelas'
interpretado por sir Alec Guinness. 'Obá', por sua vez, remete
a 'Djobi Djobá', sucesso dos Gipsy Kings. DJ Avan buscou contrastar
o lado luminoso e britânico da força com os mistérios nômades da alma
cigana. A mesma tensão dialética pode ser verificada no verso
subseqüente, 'que nem zen, czar': a contemplação espiritual dos
monges budistas e o poder absoluto dos czares. Perceba como tese e
antítese se resolvem lindamente na síntese do verso
seguinte: 'shalom Jerusalém' é a paz do espírito na divina cidade. É ela que faz a
alma se elevar aos céus, como um pássaro ('z'oiseau')".
Os olhos do doutor Albernaz se arregalaram enquanto eu falava.
Dois segundos depois de eu terminar, ele gritou: "Que maravilha!
Sabia que havia algo de muito profundo nessa letra! O senhor é um
gênio da hermenêutica, um mestre do djavanês!".
Passei a tarde inventando explicações para todas as outras letras do
CD - Açaí guardiã..., Kremlin-Berlim-pra-não-dizer-Tel-Aviv...,
índio cara-pálida cara de índio... Citei Joyce, Pound, Oswald, Glauber,
Zé Celso, Hélio Oiticica e Odair Cabeça de Poeta: name-dropping é
comigo mesmo.
Daí por diante, minha ascensão social estava garantida. Eu era o único intelectual do país capaz de traduzir a transcendência da inguagem de DJ Avan. Tinha prestígio acadêmico e subsídio do Ministério da Cultura; gostosíssimas estudantes de lingüística rasgavam as roupas e se atiravam aos meus pés. Mas troquei tudo por
um violão, sandálias de couro cru e um penteado novo. Mudei até meu nome graças ao djavanês.
Hoje me chamo Jorge Vercilo e sei que "nada vai me fazer desistir do amor"...
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