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Carta Capital: "0 PESCADOR DE PEROLAS" sobre a Revivendo, de Leon Barg

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Autor: Luis Alberto Garcia Cipriano (lagc_at_cipsga.org.br)
Data: Dom 05 Set 2004 - 20:34:14 BRT

http://cartacapital.terra.com.br/site/exibe_materia.php?id_materia=1678

0 PESCADOR DE PEROLAS
A era de ouro da canção sobrevive nos CDs do selo Revivendo, de Leon Barg

Por Paquito

Ao chegar à sede da Revivendo, em Curitiba, é difícil não lembrar do que disse Paulinho da Viola no filme Meu Tempo É Hoje: “Eu não vivo no passado. O passado vive em mim”. O mesmo poderia dizer Leon Barg, criador deste selo que existe há 17 anos, e que tem se dedicado desde então a lançar em CD gravações da música brasileira da primeira metade do século XX, com destaque para as décadas de 30 e 40, os chamados “anos dourados” da nossa música popular.

Leon, 74 anos, filho de judeus romenos, nasceu no Recife, mas mora em Curitiba (onde conheceu Eva, com quem viria a se casar três anos depois) desde 1954. Ainda na capital pernambucana, aos 14 anos, comprou seu primeiro disco, com, em suas próprias palavras, “o primeiro cruzeiro que ganhei”. O disco era de Francisco Alves, mas Leon não tinha gramofone e o ouvia na casa de amigos.

Assim começou uma coleção que hoje, com 33 mil discos (66 mil títulos, já que os antigos 78 rpm tinham uma faixa de cada lado), é a base dos lançamentos do selo, e que está espalhada por vários cômodos e até um dos banheiros da sede da Revivendo. De cada disco, feitos à época de material quebradiço e cujas cópias apresentam por vezes defeitos, ele procura ter dois ou três exemplares, dizendo que “quem tem um, não tem nenhum”. Leon e sua equipe (Fabrício e Giovana) fazem os discos passar por um sistema de “limpeza” do som, a fim de recuperá-los e remasterizá-los para serem lançados em CD. Eles contam ainda com o reforço de René, uma espécie de consultor técnico de todo o processo.

Leon lançou até hoje, com a Revivendo, 71 LPs, que parou de fabricar na década de 90, e 230 CDs. Todos vêm acompanhados de encartes com textos sobre a vida e a obra do artista em questão, da autoria de Abel Cardoso Jr., falecido em 2003, e Jadir Zanardi, que o substituiu recentemente. Uma diversidade impressionante de lançamentos, mesmo que se trate das gravadoras majors, como são chamadas as multinacionais do disco. Coisas de um self-made man apaixonado pelo que faz.

Marcelo Rudini
Cópia.
“Somos prejudicados pela pirataria de certos lojistas”, protesta Barg
O que se nota logo de cara é que Leon é movido por grandes paixões: além da Revivendo e da coleção de discos, o Recife e o cantor Francisco Alves. Quando se põe a falar deste último, os olhos pequenos e claros adquirem um brilho especial e ele conta, de maneira emocionada, como aconteceu o seu único encontro com o Rei da Voz, em 1948: Chico recebeu-o em um quarto de hotel em Curitiba, ouviu um samba do então jovem Leon, e foi sincero ao dizer que seria difícil gravá-lo devido à quantidade de canções que lhe eram oferecidas pelos grandes compositores da época, e da impossibilidade de atender todos que o procuravam. Leon passou a admirar ainda mais a postura de Chico, sua integridade e profissionalismo, além do talento evidente do cantor.

Nenhuma das paixões o impede, porém, de ser lúcido quanto à situação atual da empresa, já que ultimamente as vendas têm caído: “Hoje somos prejudicados pela pirataria de certos lojistas, que já fazem cópias perfeitas”, diz Leon. O que ainda sustenta o selo é a loja virtual, onde não se vendem só lançamentos da Revivendo, mas CDs de outras gravadoras, também de música “antiga”. Cada CD está à venda por R$ 25. “A gente se ressente da falta de compradores devido ao desaparecimento dos mesmos pela sua faixa etária.”

Leon Barg considera uma exceção à regra os jovens que se interessam pela música popular dos anos 30, por exemplo. Por isso, os lançamentos do mês de agosto compreendem uma época posterior, os anos 50 em diante, para atingir público-alvo com cerca de 65 anos. É o caso do CD de Nelson Gonçalves cantando Noel Rosa e Herivelto Martins, antes de Nelson se consagrar como o intérprete de A Volta do Boêmio, e do seu nono lançamento de Luís Gonzaga, Quarqué Dia, com gravações que vão de 1947 a 1964, algumas nunca antes lançadas no formato de CD. Os outros lançamentos recentes dizem respeito ao carnaval do Recife, pois são dois CDs comemorando o centenário de Capiba, o grande compositor pernambucano, e um CD comemorando o também centenário de Edgar Moraes, outro pernambucano que compunha frevo de bloco.

No entanto, o projeto mais ambicioso da Revivendo, uma caixa com cerca de 31 CDs contendo a obra completa de Pixinguinha, ainda não foi concretizado. Como Pixinguinha foi arranjador contratado da RCA Victor, a sua obra é vasta, com arranjos feitos para quase todos os grandes intérpretes e compositores das décadas de 30 e 40, entre os quais Noel Rosa, Carmen Miranda, Francisco Alves e Orlando Silva. Se o som desse período tem uma cara, é a cara de Pixinguinha, sem contar a sua atuação como intérprete e compositor. Para uma empreitada desse porte, Leon Barg precisa de um patrocínio, pois, além dos gastos com a fabricação e distribuição dos discos e manutenção da coleção, a Revivendo tem de pagar direitos autorais, artísticos e fonográficos. Afinal, os discos são de Leon, mas os direitos de reprodução dos fonogramas pertencem às gravadoras que os produziram.

Com a popularização do CD no início dos anos 90, a gravadora foi pioneira ao relançar neste novo tipo de mídia registros históricos como, por exemplo, as gravações da melhor fase de Orlando Silva, o Cantor das Multidões, que vai de 1935 a 1942, com o Orlando que encantou o discípulo João Gilberto, com a dosagem certa de suavidade e emoção na interpretação de clássicos como Carinhoso e Rosa. Pouco tempo depois, a própria gravadora de Orlando, a BMG, lançou uma caixa do cantor, seguindo a trilha de Leon Barg.

Inclusive, quando alguma major se propõe a lançar material antigo, é à coleção de Barg que recorre, como aconteceu quando a EMI resolveu fazer uma caixa de cinco CDs de Carmen Miranda, em 1996. Como a EMI não tinha mais as matrizes originais das gravações, Leon cedeu a sua coleção e foi à Abbey Road, em Londres, para acompanhar todo o processo de remasterização. As majors não possuem as matrizes dos discos mais antigos, pois mandavam derretê-las por serem feitas com níquel, um material caro.

Entre as preciosidades que só a Revivendo colocou no mercado está o CD com todas as gravações de uma dupla que influenciou, entre outros, Chico Buarque e Paulinho da Viola: Chico Alves e Mário Reis, que mesclavam a precisão interpretativa do primeiro com a elegância do segundo, e revelaram o compositor Ismael Silva e outros bambas do Estácio, além de pérolas de Noel e Lamartine Babo.

Outro entre vários CDs indispensáveis é o Samba da Minha Terra, uma coletânea com os grupos vocais Bando da Lua, Anjos do Inferno, Grupo X e 4 Ases e 1 Coringa, que mereciam, na verdade, um CD cada um. Quando questionado acerca do assunto, Leon responde: “Infelizmente, este CD encalhou…”

Nesse disco estão faixas que também fizeram a cabeça de João Gilberto, com canções que ele regravaria mais tarde como Rosa Morena e Bolinha de Papel, e dos Novos Baianos, que gravariam, na década de 70, O Samba da Minha Terra e Brasil Pandeiro, esta última no antológico disco Acabou Chorare, um divisor de águas na história da música pop do País (não podem deixar de ser citadas ainda a caixa com quatro CDs de Lupicínio Rodrigues, o nosso poeta da cornitude, e a caixa de três CDs de Sinhô, o Rei do Samba, autor de Jura e Gosto que me Enrosco).

Justamente por ajudar na compreensão da essência da nossa identidade cultural por meio da memória da canção popular é que o trabalho de Leon Barg e da Revivendo tem importância fundamental. Importância que cresce quando se leva em conta que a manutenção e a divulgação desse acervo vêm sendo feitas sem qualquer tipo de ajuda oficial, graças principalmente ao arrojo de um único indivíduo, que conta com suas duas filhas e seis funcionários, além de pequenas colaborações de amigos que Leon tem feito ao longo de suas andanças por um país que ele ajuda, com seu trabalho, a redescobrir.

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