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Gabriel o Pensador "Já fui censurado pelo presidente Collor"

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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Autor: Neves, Joao (LUANDA/PROG) (jneves_at_usaid.gov)
Data: Sex 13 Ago 2004 - 08:33:41 BRT

«Já fui censurado pelo presidente Collor»
 
 
Gabriel o Pensador é sem sombra de duvidas um dos principais "ícones" do hip hop dos países de expressão portuguesa. Falando em exclusivo ao club-k.net, a partir do Brasil, o musico falou sobre, o impacto que as suas musicas tiveram, falou ainda da censura que teve do antigo presidente Collor de Melo, das diversas formas de opressão , da colectania com novos talentos que pretende editar, apelando aos músicos interessados que o contactem. Todas as curiosidades que sempre se teve dele, esclarecidas em uma entrevista.

CLUB-K: Gabriel, obrigado por ter aceite falar ao club-k.net. A primeira pergunta é irresistível. Quando é que nasceu o gosto pelo Hip Hop?

Gabriel O Pensador: Comecei a gostar de hip hop quando tinha uns onze anos, no meio da década de 80, quando conheci o breakdance, e grafitti e o rap, através de discos de Run DMC, Beastie Boys e outros, e também de filmes como o Beat Street. Mas só passei a escrever letras a sério aos dezesseis anos de idade, influenciado também por grupos como o Public Enemy e o Boogie Down Productions. Antes disso, e também durante e depois, sempre ouvi músicas de outros ritmos, que também me influenciaram muito, desde o Bob Marley a grandes compositores brasileiros, como o Chico Buarque, o Gilberto Gil, os Titãs, o Martinho da Vila e tantos outros.

CLUB-K: As tuas letras situaram-se sempre entre a sátira contra a governação Brasileira e a favor dos desfavorecidos da favelas ?

Gabriel: Sempre variei bastante os temas e a maneira de expressar minhas ideias. Às vezes as letras são mais satíricas e irónicas, às vezes mais directas, mais sérias, e há também outras mais descontraídas, por isso acho difícil defini-las como sendo simplesmente "contra" isto ou "a favor" daquilo. Eu canto sobre o que sinto e penso, sobre a realidade que me cerca, não apenas a da favela exactamente, mas é claro que os problemas sociais, que afectam todas as classes, atingem muito mais os mais pobres, como diz o ditado: a corda arrebenta no lado mais fraco. E a música serve pra que possam ser ouvidas algumas palavras que muita gente não teria a oportunidade de dizer. No Brasil, apesar da miséria e da injustiça, ainda existe a democracia eleitoral e a liberdade de expressão, mesmo que estas não sejam perfeitas no seu funcionamento, mas o voto e a expressão cultural livre de uma censura oficial são ferramentas importantíssimas que conquistamos temos que aprender a usar cada vez melhor.

CLUB-K:: Qual foi a mudança mais visível que a tua musica ja provocou na sociedade brasileira, se de facto aconteceu?

Gabriel: No meu primeiro disco, quando fiz "Lavagem Cerebral", falando abertamente do racismo no Brasil, este assunto ainda era de certa forma um tabu, pois muitos preferem dizer que não há racismo aqui, o que é mentira, como eu digo na letra da música. Esta foi uma das músicas que geraram discussões interessantes e até mesmo recebi cartas de crianças e jovens dizendo que seus pais eram racistas e que eles perceberam isto após analisar a letra da música e passaram a condenar o racismo e desafiar os próprios pais. Em outras músicas criticam o comportamento da própria juventude, como "Retrato de um playboy" e "Lôrabúrra", e estas também deram o que falar, como também "Cachimbo da Paz", sobre as drogas e outras... Na verdade, acredito que as músicas podem provocar mudanças nos indivíduos, ao fazerem-nos refletir sobre certas coisas, como tantas músicas que ouvi na minha adolescência me "ensinaram" ou me abriram os olhos e o coração. Acredito neste poder da música, e ao mudar um indivíduo, já podemos crer que ela ajuda a mudar a sociedade, pra melhor ou pior, dependendo do caso e do ponto de vista.

CLUB-K: No inicio da tua carreira o publico brasileiro tinha-te como um rapper controverso sem medo de se dirigir aos governantes. Ja teve ou sofreu alguma ameaça devido ao teor das tuas musicas?

Gabriel: Já fui censurado pelo presidente Collor, meses antes dele ser expulso do poder, devido aos escândalos de corrupção no seu mandato. Meu disco saiu com a mesma versão censurada por ele e ele nada pôde fazer. Não cheguei a receber nenhuma ameaça direta de políticos, mas é claro que recebo críticas de alguns "personagens" que vestem a carapuça de mau policial ou "loraburra", etc.

CLUB-K: Em entrevista ao club-k.net o rapper Boss ac disse que mantêm contacto sempre que vais a Portugal. Notas diferença entre o rap feito por brasileiros e o feito por rappers de outros países de expressão portuguesa?

Gabriel: O vocabulário é o que mais difere, mas todos nos entendemos bem no final. Um sempre pode aprender um pouco com a cultura do outro e isso é bom pra todos nós.

CLUB-K: Na tua ida a Portugal em 1996 reuniste com alguns rappers. Achas que os rappers em Portugal tem verdadeiramente usado o rap como uma arma contra o racismo?

Gabriel: Isto foi em 94, a minha primeira ida, e depois continuei indo a Portugal e pude ver a grande evolução do rap por lá, que sem dúvida é uma arma que está sendo bem utilizada pelos jovens, não só contra o racismo mas também contra várias outras formas de opressão.

CLUB-K: Esta radicado no Brasil um dos rappers mais importantes do hip hop angolano, Nelboy Dastha Burtha, qual é a recepção que o povo brasileiro proporciona-lhe ?

Gabriel: Nelboy é um rapper de talento e uma pessoa a quem só tenho elogios, e creio que todos que o conhecem aqui pensam da mesma maneira. Fiz uma festa de hip hop onde ele foi um dos convidados e o público gostou muito. Ele tem letras inteligentes e rapeia bem, com muito sangue. Aliás, esta é uma característica que vejo nos rappers angolanos com frequência, uma grande qualidade criativa na cadência das rimas, no ritmo das vozes, e também gosto das misturas que fazem com o semba e outros sons de Angola e da África.

CLUB-K: Em Angola alguns jovens iludem-se com a filosofia separatista de "rap comercial" e "rap genuíno" que solução ou apelo fazes a estes jovens?

Gabriel: O rap pode ser genuíno e ter um grande êxito comercial ao mesmo tempo. O que importa é a postura do rapper, como em qualquer tipo de arte ou mesmo em qualquer outro ofício, o que vale é a sinceridade naquilo que se diz e faz. Muitas vezes os que se dizem "gangsta rappers" nos EUA, por exemplo, são justamente os mais falsos e mais vendidos a um marketing irresponsável que incentiva a violência para ganhar milhões, sem usar o rap para criar algo de positivo para os fãs.

CLUB-K: Para finalizar a entrevista que novos projectos tens em vista , e para quando uma nova obra discográfica?

Estou gravando com calma o novo CD e continuo em turnê do Ao Vivo MTV. O novo sai, ano que vem, no primeiro semestre. Também estou reunindo rappers para uma colectânea de novos talentos para sair por um selo que estou criando. Para este primeiro disco já há pouco espaço, mas quem quiser mostrar o trabalho para nós, pode nos mandar as demos que ouviremos com carinho.

*José Gama

(josegama@club-k.net)
 

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