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Batatinha 80 anos: "Samba infinito"(Jornal Correio da Bahia)Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros. |
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Autor: Sonia Palhares Marinho (soniapalhares_at_hotmail.com)
Data: Qui 05 Ago 2004 - 21:41:55 BRT
Caderno Folha da Bahia, do Jornal Correio da Bahia, de 05.08.2004 (5ª
feira).
http://www.correiodabahia.com.br/2004/08/05/noticia.asp?link=not000096515.xml
Samba infinito
Nos 80 anos de nascimento de Batatinha, a obra do músico continua inspirando
respeito
Giovanna Castro
Autor de mais de cem canções, muitas gravadas por estrelas da MPB, o
sambista Batatinha foi um cronista do povo
Era de uma pequena e simplória caixinha de fósforos que o cantor e
compositor baiano Batatinha costumava extrair a base sonora de suas canções.
Das batucadinhas com os dedos no inusitado "instrumento", de uso freqüente
entre os sambistas nos idos dos anos 40, surgiam belas melodias, que eram
preenchidas por letras melancólicas, como as de Diplomacia, Só eu sei,
Imitação, Toalha da saudade, Hora da razão. Morto há sete anos, vítima de
câncer de próstata, o sambista, cuja obra musical chega a ser comparada ao
trabalho de grandes bambas cariocas como Nelson Cavaquinho e Cartola,
estaria completando, hoje, 80 anos de idade.
Nascido Oscar da Penha, em Salvador, Batatinha compôs mais de cem canções
que foram gravadas por nomes importantes da MPB, como Caetano Veloso,
Gilberto Gil, Chico Buarque e, especialmente, Maria Bethânia, sua principal
intérprete. "Lembro-me que eu tinha paixão por samba em tom menor e isso ele
fazia muito bem", elogiou Maria Bethânia, à época do lançamento do
CD-tributo Diplomacia (produzido por Paquito e J. Velloso), que acabou
chegando às lojas um ano após a morte do homenageado.
A baiana incluiu no seu primeiro disco, Maria Bethânia (1965), as canções
Diplomacia e Só eu sei. Depois, gravaria Toalha da saudade, Imitação e Hora
da razão. Em 1971, colocaria no show-disco Rosa dos ventos um bloco inteiro
dedicado ao sambista. No ano seguinte, no disco Drama, registraria a
marcha-rancho O circo. Foi por causa de Bethânia que a obra de Batatinha
começou a ser conhecida nacionalmente.
Algumas das canções do acervo de Batatinha serão apresentadas ao público
esta noite, a partir das 18h, dentro do Especial das seis (Educadora FM),
num tributo ao artista. Até o começo da semana, a família não tinha
conhecimento de nenhuma outra homenagem ao seu patriarca. "Você é a primeira
pessoa que está falando sobre isso com a gente", confessou à reportagem,
Joseval Penha, um dos nove filhos de Batatinha ainda vivos.
Sem rancor - Embora não tenha atingido vendagens significativas nem grande
popularidade, Batatinha era extremamente respeitado no meio artístico. E
isso era suficiente para ele, como garante Joseval. Em nenhum momento,
testemunham amigos e familiares, sentiu-se magoado com a ausência de
sucesso. "O meio musical e os amigos valorizavam a música dele", recorda o
filho, que trabalha no Toalha da Saudade, bar pertencente à família, no
Largo dos Aflitos. "Batatinha possuía um lado de humor muito bacana. Era uma
pessoa muito engraçada, apesar das dificuldades. A tristeza, ele exorcizava
com a música, acho que todo artista faz um pouco disso", observa J. Velloso,
lembrando que Bethânia costuma dizer que Batatinha trazia uma coisa meio
blues dentro dele.
A melancolia está exposta nas suas letras. Como em Diplomacia ("Luto por um
pouco de conforto/ tenho o corpo quase morto/ não acerto nem pensar/ mesmo
com tanta agonia/ ainda posso cantar"). Ou em O circo ("Todo mundo vai ao
circo/ menos eu, menos eu/ como pagar o ingresso/ se eu não tenho nada/ fico
de fora, escutando a gargalhada"). Esta última é a preferida do filho
Joseval e foi escrita para aplacar a tristeza que seu pai sentiu por não ter
dinheiro para levar os dez filhos ao circo. Joseval ainda escuta as músicas
do pai, e as coloca para tocar no bar Toalha da Saudade a pedido dos que
conhecem a obra de Batatinha. De quebra, também vai divulgando o trabalho
para os jovens que desconhecem o trabalho de Oscar da Penha.
É verdade que Penha batalhava muito para sustentar a família com o trabalho
de gráfico, profissão na qual se aposentou, mas no dia-a-dia era uma pessoa
muito divertida. A alegria aparece menos na sua obra, mas não é esquecida,
como em Jajá da Gamboa, a primeira canção de Batatinha a ser gravada.
Jamelão, cantor da escola de samba Mangueira, foi o intérprete. "A música de
Batatinha retrata o que a gente é, o que a gente vive. Era um cronista da
vida do povo com um grau de poesia comparado com os maiores compositores da
MPB", diz o sambista Edil Pacheco, que considera Batatinha o responsável por
sua opção pela profissão de compositor. "Não fosse ele, talvez hoje não
estivesse fazendo música".
Essência preservada - Batatinha só não tolerava fazer concessões. J. Velloso
conta que, durante a realização do CD-tributo Diplomacia (vencedor do prêmio
Sharp de 1999), sugeriu ao mestre incluir uma canção de um compositor que
andava fazendo muito sucesso na época. "Isso, eu não quero", disse
Batatinha. Foi a única vez que J. Velloso viu o sambista realmente irritado.
"Fiz a brincadeira para provocá-lo mesmo. Ele era um homem superdoce,
supercalmo e tinha muito cuidado com sua obra".
Edil Pacheco, parceiro inseparável de Batatinha durante 30 anos (Ederaldo
Gentil completava a trinca de boêmios), confirma o temperamento do amigo.
"Batatinha era um lorde. Sempre foi carismático e elegantíssimo. Todas as
pessoas que se aproximavam dele ficavam apaixonadas. Um compositor
criativíssimo que está centrado no eixo da poesia da MPB. Ele se contentava
com o fato dos grandes intérpretes terem gravado suas músicas", assegura
Pacheco, para quem a obra de Batatinha tem uma dimensão infinita.
Batatinha, que começou a compor aos 15 anos de idade, não tocava nenhum
instrumento convencional. "Mas ele tinha uma sutileza de melodia e um
encadeamento harmônico diferente, que pareciam feitos por alguém que tinha
estudado", ressalva Edil. Aos 14 anos, Batatinha foi trabalhar como
office-boy no Diário de notícias, jornal do grupo Diários Associados de
Assis Chateaubriand. Trabalhou no jornal Estado da Bahia e acabou admitido
como prelista emendador na Imprensa Oficial (hoje Empresa Gráfica da Bahia),
função na qual se aposentaria.
A carreira artística foi iniciada no rádio como cantor, em 1944, no programa
Campeonato de samba, com a ajuda do compositor pernambucano Antonio Maria
(que veio para Salvador assumir a direção da Rádio Sociedade da Bahia,
emissora que acabava de ser comprada pelos Diários Associados). O jovem,
então aspirante a sambista, era apaixonado por Vassourinha, cantor paulista
que faria sucesso mais tarde com Ninguém me ama, ninguém me quer.
O músico baiano gravou apenas três discos: Samba da Bahia com Riachão e
Panela (1973), Toalha da saudade (1976) e Batatinha - 50 anos de samba
(1992). A produção de Diplomacia (no qual vários artistas como Maria
Bethânia, Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Jussara Silveira e os
companheiros bambas Nelson Rufino, Valmir Lima, Edil Pacheco e Riachão
cantam Batatinha) foi surpreendida com a piora do estado de saúde do
sambista, que acabou não vendo o trabalho pronto.
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