![]() |
FW: Chico Buarque, Cheiro da Terra BrasilLista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros. |
| Página principal » Tribuna Livre » Arquivo das mensagens » Indice mensal | |
| Nova mensagem | Responder | Mensagens por data | Mensagens por discussão | Mensagens por assunto | Mensagens por autor |
|---|
Autor: Sonia Palhares Marinho (soniapalhares_at_hotmail.com)
Data: Seg 21 Jun 2004 - 18:02:55 BRT
Repassando...
>From: Beto Carioca <cariocabeto@yahoo.com>
>To: rponciano@yahoo.com
>Subject: Chico Buarque, Cheiro da Terra Brasil
>Date: Mon, 21 Jun 2004 11:18:47 -0300 (ART)
>
>Chico Buarque, Cheiro da Terra Brasil.
>
>Numa entrevista terna como soia ser Darcy Ribeiro, ele
>nos disse que o que mais dava saudade nele do Brasil
>era o cheiro da gente. Exilado, nosso indianista mais
>ilustre nos contou que o cheiro de outras terras, das
>coisas, da terra, das comidas, não era o mesmo do
>Brasil. Assim nosso país são os cheiros de sua gente,
>o da feijoada na cozinha, de goiaba no quintal, das
>vazantes dos nossos rios, da maresia fulgurante de
>nosso litoral. E onde o som brasileiro tem mais cheiro
>de Brasil que não em Chico Buarque de Holanda?
>
>A música de Chico é nosso perfume mais requintado, o
>mais fresco e úmido, o mais nítido e brilhante, o mais
>melancólico e candente, o mais sincero e puro. Olor de
>leite fresco em carro de boi, de tempero de cravo,
>canela e pimenta nativa, de morena de angola batucando
>seu som, um samba que se confunde com a própria comida
>e apetite.
>
>Um amigo de Chico, Frei Betto, em um de seus livros,
>no ensina que somos biodiversos, que embora sejamos
>habitantes do planeta terra, antes de tudo descendemos
>de um gente, com sua língua e falar próprio, com um
>ritmo, um acento, uma musicalidade, com a sua comida
>que é uma forma de perpetuar um ser peculiar e
>pitoresco, com sua forma de vestir e, no caso do
>Brasil, até uma forma peculiar de se despir que chega
>a chocar os pudicos e puritanos de plantão. Que pintor
>melhor para ilustrar esta biodiversidade brasileira
>senão Chico?
>
>Da mesma forma que Caimmy vai tecendo suas marinhas e
>eternizando junto com Jorge Amado, em quadros
>invejados por Portinari, o mar e a gente da Bahia,
>Chico expõe cantando ao mundo toda a ternura infinda
>do homem cordial brasileiro. Um artista dual, que faz
>o elogio da beleza, da alegria e do amor, sem fechar
>os olhos para a imensa dor do Brasil. Alguém que não
>se tornou sádico, mas que encara a dor de frente,
>espera que um samba imenso venha e faça com que o
>tempo pare para ouvir. Alguém que grita dos porões e
>não se cala diante da tortura, que estende a mão para
>os presos e perseguidos e que nunca se vendeu.
>
>O artista que cantou a dor da mãe da classe média que
>perdeu seu filho assassinado nos cárceres da Ditadura,
>mas que também conseguiu captar toda a dor da mãe do
>morro, que anônima, esquecida, só tem identidade
>quando seu “Guri” traz uma bolsa já com tudo dentro
>para ela finalmente se identificar e vê toda sua
>imensa tragédia expressa em letras garrafais na morte
>anônima estampada nos jornais sensacionalistas.
>
>Chico é aquele que disse não. Que deixou de fazer
>shows quando era o cantor mais popular do Brasil, que
>disse não para a TV quando muitos disseram sim, mesmo
>que para isto tivessem que se prostituir, que se negou
>a vender sua alma para a Roda-Viva, enquanto a maioria
>disse sim em nome da própria sobrevivência. Ele é a
>antítese do Fausto de Goethe. Enquanto muitos se
>esgoelam para conseguir um lugar na ABL (até porque
>agora nem saber escrever é necessário pare ingressar
>nela), Chico que por merecimento deveria ocupar a
>cadeira de maior poeta brasileiro da atualidade, nos
>diz que é perpétuo o manifesto assinado pelo pai dele,
>que se negou a competir por um fardão de uma academia
>que havia imortalizado Getúlio Vargas. Ele é aquele
>que diante de todas as facilidades escolheu a porta
>estreita da dignidade. Enquanto antigos amigos pintam
>o rosto com palhaços para conseguir uma nesga de
>atenção na mídia, Chico prefere manter seus ideais,
>manter sua opção socialista e demonstrar sua
>solidariedade à Cuba.
>
>Corre que seu nome pertencia a uma lista negra de
>artistas que sofreram uma “censura branca” durante a
>Ditadura. A “Redentora” queria só o Chico da Banda e
>de Carolina, mas ele nos deu “Cálice” e “Deus Lhe
>Pague” e “Apesar de Você”. Num país que foi
>emburrecido por décadas de tirania, nosso povo perdeu
>a dimensão do gênio que, quase anônimo, pode
>tranqüilamente jogar suas peladas com o Politheama, ou
>escalar seu escrete de Futebol de Mesa. O que para ele
>é muito bom, inimigo da Chicolatria, ele continua a
>cultivar anonimamente rosas e rimas que têm o frescor
>da alma dolorida do nosso povo.
>
>Se não houvesse qualquer outra razão para gostar de
>ter nascido e viver no meu país, Chico Buarque
>bastaria. Em 60 anos ele se tornou a síntese de um
>outro país possível pelo qual vale a pena lutar e é
>nosso dever construir.
>
>Roberto Ponciano, Rio de Janeiro, 21 de junho de 2004.
_________________________________________________________________
MSN Messenger: converse com os seus amigos online.
http://messenger.msn.com.br
_______________________________________________
Para CANCELAR sua assinatura:
http://www.samba-choro.com.br/tribuna/cancela
Para ASSINAR esta lista:
http://www.samba-choro.com.br/tribuna/assina
Antes de escrever, leia as regras de ETIQUETA:
http://www.samba-choro.com.br/tribuna/netiqueta
| Nova mensagem | Responder | Mensagens por data | Mensagens por discussão | Mensagens por assunto | Mensagens por autor |
|---|
Este arquivo foi gerado por hypermail 2.1.4 : Seg 21 Jun 2004 - 18:03:08 BRT