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"O morro não é dos malandros" por Rubem Braga em 1936

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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Autor: Paulo Eduardo Neves (neves_at_samba-choro.com.br)
Data: Qui 12 Fev 2004 - 23:01:51 BRST

Tenho que compartilhar esta com vocês.

O encontro de escritores e o samba não foram tantos assim, mas nos gerou
algumas preciosidades. Algumas das melhores veio dos que se especializaram
neste moribundo gênero chamado crônica.

Dá para citar "O Enterro de Sinhô", por Manuel Bandeira:
http://www.releituras.com/mbandeira_sinho.asp

Ou então Drummond escrevendo sobre Cartola:
http://www.samba-choro.com.br/s-c/tribuna/samba-choro.0211/0704.html
Esta crônica é muito citada no excelente livro da Marília Barbosa e Arthur de
Oliveira Filho sobre o Cartola, principalmente para realçar a admiração de um
poeta por outro. Acabei de lê-lo há pouco e o único defeito que achei no
livro foi não ter o texto completo da crônica, apenas as citações.

Hoje achei mais uma pérola. A revista "Rio Artes" da Prefeitura do Rio em seu
número 36, de dezembro de 2003, traz um texto falando de samba de ninguém
menos que o maior cronista brasileiro, Rubem Braga. O mais legal é que a
crônica foi escrita em 1936, isto é, muito antes de Cartola gravar seu
primeiro disco, antes mesmo da célebre gravação de Leopold Stokowski com
músicos brasileiros em 1940. Noel Rosa ainda estava vivo!

O Rubem era conhecido por não gostar muito de música, não tinha nem 20 discos
em casa e nunca perdoou o seu amigo Vinicius por deixar de fazer sonetos para
compor letras de música. A crônica foi escrita sob o pseudônimo de Marques de
Carvalho, pois tinha acabado de acontecer uma tentativa de golpe comunista e
os esquerdistas estavam sendo perseguidos pela ditadura Vargas.

Não resisto e, apesar de estar entupido de coisas para fazer, digito para
vocês a crônica. Vejam como o sujeito já escrevia bem com apenas 23 anos.

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"O morro não é dos malandros"
Rubem Braga (1936)

Em qualquer morro do Rio já se ouve, hoje, um ronco, um barulho de tambor
surdo, uma voz cantando uma coisa esquisita. Há qualquer coisa lá por cima e
não é sem tempo. Eles estão se preparando, estão começando a se preparar. Os
exércitos do samba fazem os primeiros exercícios antes de marchar sobre a
cidade. Lá vem samba.

É preciso gostar do samba e para gostar do samba é preciso conhecer o samba.
Porque a verdade é que muita gente não gosta das mesmas condições. Está visto
que há samba e há samba. Do partido alto e do partido baixo. E de muitas
variedades. É provar. Não é decente falar em samba sem falar em Noel Rosa.
Ele faz sambinha repinicado, desses que se podem cantar com o auxílio de uma
caixa de fósforos. Mas faz também o outro samba, o samba alto, o samba para a
multidão mestiça chorar, o grande samba.

Para gostar desse grande samba não é preciso achar que ópera é música para boi
dormir, como definiu um meu amigo. Um sujeito que gosta de ópera e não gosta
de um samba de Cartola, da Estação Primeira do Morro de Mangueira, é um
sujeito que não gosta propriamente de ópera, gosta apenas do Teatro
Municipal. Não convém esperar que um samba de Cartola chegue a ser conhecido
por uma cantora qualquer que o vá ganir pelo microfone de qualquer PR. O
melhor é tomar um ônibus Méier, descer ali na rua São Francisco Xavier,
atravessar o viaduto e subir o morro. Aí, sim. Um samba é um samba, é
qualquer coisa de muito.

Não é só na Mangueira. Em qualquer morro e mesmo em qualquer canto pobre da
cidade. Houve um tempo em que só se falava em Favela. Hoje o samba se
espalhou. Há um por aí que canta as glórias do morro de São Carlos: "No morro
de São Carlos / Tive um trono / As negras me velavam o sono / Numa corte
imperial."

E o cantor compara a mulata que fugiu a Maria Antonieta, "fazendo muita
falseta," e ele mesmo a um rei Capeto abandonado que acaba infeliz,
guilhotinado pela saudade da referida senhora.

Mas se eu citei Cartola é porque nele se encontra um sentimento tão profundo e
primitivo que a letra de repente nem quer dizer nada e acaba dizendo coisa
como diabo. Ele é talvez melhor que o famoso Paulo da Portela e o samba
parece mais puro. Reparem só nessa letra: "Semente de amor eu sei que sou /
Desde a nascença / Mas sem ter vida e fulgor / É minha sentença."

Isso na voz de negro, entre o coro das mulatas, é qualquer coisa de fundo, de
triste, de uma desgraça preta mesma, preta como o soluço de uma cuíca.

Mas parece que estou estragando o samba, transcrevendo assim um pedacinho sem
música, sem a voz, sem os surdos, as cuícas, os tamborins, as mulatas, o
morro...

Só indo lá mesmo. E é preciso acabar de uma vez essa história de que morro é
terra de malandro. Eu, que já fui várias vezes a vários morros e já morei
vários meses em Copacabana, sou capaz de jurar que nos apartamentos da areia
há mais malandros que nas casinhas de lata velha lá de cima. A grande maioria
da população do morro é de trabalhadores, sujeitos que pegam no duro todo
dia, que vivem suando. A malandragem existe mais no samba que na realidade.

O batente é o mais comum. Malandros não teriam, por exemplo, capacidade para
organizar uma escola de samba. Para isso é preciso ter o espírito, a
disciplina, a força de vontade de um trabalhador. E os morros estão cheios de
escolas onde pode haver cachaça, mas há muita alegria, bastante respeito e,
às vezes, uma disciplina quase militar. Já esse nome de escola implica uma
idéia de hierarquia, de cooperação, de ordem, de método de que um verdadeiro
malandro não é absolutamente capaz.

Quando falo que nas escolas de samba há muita alegria, não quero que se
confunda alegria com bagunça. Ali não há cerimônia, mas também não há gandaia
solta. E de resto ninguém pode esquecer a função quase religiosa que o samba
tem no morro. Uma religião sem Deus, mas com sacerdotes, noviças, rito,
tristeza, esperança. Mesmo porque não é preciso ser campeão de folclore para
sentir como o samba recebeu e ajeitou a fluência de certas orações de
macumba.

O cavalheiro que se dispõe a ir a um morro, mesmo com a sua senhora, irmã,
noiva, namorada, tia ou bisavó, não necessita levar uma boa metralhadora nem
mesmo uma pistola de gás lacrimogêneo. A sua bolsa e a sua mulher não correm
tanto perigo. A sua mulher, pelo menos, na sua descida do morro lhe dirá que
foi tratada infinitamente com mais respeito do que quando passava pela
Avenida, sábado de tarde.

Um amigo meu foi há tempos a um morro. Havia bebido demais e no fim da festa
estava naquele estado em que tudo gira e se confunde em torno de nós, e, mais
ainda, dentro de nós. Em pleno caos alcoólico, meu amigo deixou de saber o
que estava fazendo. Acordou no dia seguinte numa cama ao lado de um mulato de
uma mulata que o haviam rebocado até ali por caridade e ainda lhe deram café
e dinheiro para o ônibus que o conduziria aos seu luxuoso apartamento de
Ipanema.

Vamos, portanto, para o morro ouvir as primeiras cuícas do carnaval do ano
que vem. Não precisamos levar armas. Levemos ouvido e coração, para ouvir e
para sentir. Não aprenderemos música. Mas sentiremos coisas que são tristes e
belas e que é bom sentir. Aprenderemos sentimento.

-- 
Paulo Eduardo Neves
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