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Trio Surdina no site Gafieiras

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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Autor: Sonia Palhares Marinho (soniapalhares_at_hotmail.com)
Data: Qua 07 Jan 2004 - 01:48:44 BRST

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Por: Ricardo Tacioli

Trio Surdina

Síntese da criatividade e sadio ecletismo musical, o trio formado em 1952
por Garoto, pelo acordeonista Chiquinho e pelo violinista Fafá Lemos foi o
primeiro sinônimo de modernidade dos otimistas anos 50 (JK, o surgimento da
TV, Copa de 1958). Considerado como o efetivo precursor da bossa nova - que
só assumiria seus contornos definitivos com o lançamento do LP Chega de
saudade (1959), de João Gilberto -, o conjunto carrega até hoje dilemas como
aqueles que tornaram a década de 50 distante, mítica e esperançosa.

Música em surdina

Buscando reagrupar solistas da Rádio Nacional – a maior emissora dos anos 40
e 50 - em inusitadas formações, o diretor artístico Paulo Tapajós montou o
programa Música em surdina, selecionando os maiorais da música instrumental
da época: o paulistano multi-instrumentista das cordas Garoto (Aníbal
Augusto Sardinha, 1915-1955), que havia impressionado jazzistas como Duke
Ellington e Art Tatum nos Estados Unidos ao integrar o Bando da Lua em 1939;
o gaúcho Chiquinho do Acordeon (Romeu Seibel, 1928-1993); e Fafá Lemos
(Rafael Lemos Junior, 1921), ex-violinista da Orquestra Sinfônica Brasileira
e músico de Carmen Miranda.

Produzido em estúdio, o Música em surdina estreou em 1952, indo ao ar nos
fins de noite, logo após o horário nobre da programação.

Os protagonistas acionavam um repertório misto de músicas estrangeiras e
brasileiras, como o hit da época “Ninguém me ama”, interpretado por Nora
Ney. Dentro do horário, o programa era um sucesso.

Os primeiros e únicos discos
No mesmo 1952, o cantor e dono da debutante Musidisc, Nilo Sérgio, fez o
convite para o trio gravar um disco. É a partir daí que a história torna-se
obscura. Segundo dizem, o conjunto se apropriou do nome do programa para não
revelar as identidades dos músicos e driblar exclusividades contratuais com
outras gravadoras. Apesar de ser um dos pontos mais curiosos, essa
possibilidade parece irreal quando transportada para a realidade. Como os
integrantes de um trio radiofônico poderiam manter-se escondidos atrás de um
simples e irônico título?

O disco de estréia lançado em 1953 mantém o diálogo bem humorado e
jazzístico do programa radiofônico. Gravado no estúdio da Rádio Nacional, o
LP homônimo de 10 polegadas (M-007) contou ainda com as presenças de Vidal
(baixo) e Bicalho (percussão). Trazia os beguines “Felicidade” (Garoto e
Haroldo Barbosa), “Ternamente” (Jack Laurence e Walter Gross) e “Malagueña”
(A. D.), o samba “Ninguém me ama”, e os autorais baião “Nós três” e o choro
“O relógio da vovó”.

Mas os destaques do LP de capa amarela foram os sambas-canção “Na madrugada”
(Nilo Sérgio) e “Duas contas”, de Garoto. Esta, a única faixa cantada, é
tida como uma das primeiras composições pré-bossa nova e talvez a única
música letrada pelo violonista paulistano. Sob as bases do acordeon e
violão, “Duas contas” foi interpretada por Fafá Lemos com um vocal à Mário
Reis (que denota a antecipação gilbertiana).

O cavaquinista Henrique Cazes afirmou em seu livro Choro – Do quintal ao
municipal, que “em alguns momentos, os diálogos entre Garoto e Fafá lembram
o célebre duo de Stéphane Grappelli com Django Reinhardt, um ícone da era do
suingue.”

Considerado pelos pesquisadores Zuza Homem de Mello e Jairo Severiano como
“um dos mais originais e cativantes discos instrumentais brasileiros”, Trio
Surdina nunca foi reeditado em vinil e CD.

Com arranjos e regência de Leo Peracchi, o Trio Surdina grava seu segundo LP
de 10 polegadas, Trio Surdina interpreta Ary Barroso (M-008). “Rio de
Janeiro”, “Inquietação”, “Na baixa do sapateiro”, “Risque”, “Aquarela do
Brasil”, “Por causa dessa cabrocha”, “Brasil moreno” e “No tabuleiro da
baiana” foi o repertório do disco lançado apenas em maio de 1956.

Apesar da imprecisão do ano de lançamento, o terceiro e último álbum do Trio
Surdina, homônimo (M-017), reforça a diversidade além-fronteiras dos
instrumentistas. Desde as canções “Ay, Ay, Ay” (O. P. Freire) e “Canto
Karabali” (E. Lecuona), os foxs “Verlaine” (Charles Trenet) e “Cow Cow
Boogie” (Don Raye, Gal Paul e B. Carter), aos nacionais “Vingança”
(Lupicínio Rodrigues), “Amoroso” (Garoto e Luís Bittencourt), “Xodó” (J.
Amorim e J. M. Abreu) e “Meu coração” (Garoto), o LP explorou o repertório
intercontinental do programa.

Mesmo com Fafá Lemos retornando aos EUA em 1953 para acompanhar Carmen
Miranda (morta em 1955), o ponto final da formação original do Trio Surdina
foi colocado no dia 3 de maio de 1955, com a morte de Garoto, então com 39
anos, após sofrer um ataque cardíaco fulminante.

Vida pós-morte

Apesar da estrutura instrumental do Trio Surdina ter sido uma imposição
daquele tempo (os cassinos haviam sido fechados em 1946 por decreto do
presidente Dutra, inviabilizando as formações orquestrais), a sonoridade
criada pelos músicos antecipou a bossa nova.

O que deveria ser motivo para reedições discográficas, biografias,
documentários, a existência do Trio Surdina é sinônimo de incoerências e
falta de informações. As poucas fontes que registram a passagem do trio
confirmam a tese. Consta que o conjunto teve, após a morte de Garoto, outras
formações, quase sempre conduzidas por Chiquinho do Acordeon. No LP que
saudava a volta do Trio Surdina, Trio Surdina em Bossa Nova, editado pela
Musidisc, o time era composto por Waltel no violão, Patané no violino,
Plínio na bateria e Ary Carvalhaes no baixo, além de Chiquinho.

Mas a existência de outros discos com datas e integrantes não creditados
aumentam a confusão, como os LPs editados pela gravadora de Nilo Sérgio Trio
Surdina interpreta Dorival Caymmi, Ary Barroso e Noel Rosa (DL-1007), Bolero
não tem idade, Ouvindo Trio Surdina - Vol. 3 (que sugere os dois primeiros)
e os 78 rotações Jóias do Brasil nº 1 e Jóias do Brasil nº 2.

Por ironia, o nome do trio não só driblou os integrantes de possíveis
problemas contratuais, como também os esconderam do grande público por quase
50 anos.

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