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Re: Orestes Barbosa

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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Autor: iara teixeira (iarart_at_terra.com.br)
Data: Ter 21 Out 2003 - 16:46:23 EDT

Oi Eduardo, amigos da Tribuna,

No centenário de nascimento do Orestes Barbosa, o caderno Mais da Folha
publicou várias matérias sobre ele.
Transcrevo a matéria do Sérgio Augusto, sei que é extensa mas acho que vale
a pena!
abraços
Iara

Nascido há cem anos, Orestes foi o "mestre " das estrelas

Poeta e jornalista, ele escreveu versos definitivos que o colocam entre os
maiores da música brasileira
Sérgio Augusto

    Mesmo que não tivesse composto "Chão de estrelas", Orestes Barbosa
estaria sendo lembrado neste seu centenário ( nasceu a 7 de maio de 1893) por
outros feitos memoráveis. Como boêmio e jornalista, sua vida também foi um
palco iluminado. Sobretudo pelas luzes e pelas estrelas, as luzes naturais
dos notívagos
e as mais solidárias musas dos poetas.
    Em seus versos, em suas letras e em suas crônicas, elas viviam brilhando
num céu salpicado de metáforas. Um céu que um dia era " um grande armarinho
", noutro um " jornal de sonho ". No primeiro o poeta comprava luar a metro;
no segundo, lia " todo o passado tristonho que não se pode escrever ".
    Quase todos a sua volta o chamavam de mestre; respeito não tanto ditado
por sua ascendência etária ( tinha mais 18 anos que Noel Rosa ), mas por ser
o mais culto, viajado e exuberante membro da melhor confraria que Vila Isabel
já abrigou. Em qualquer turma era o centro das atenções, fonte das
observações mais sagazes,
das tiradas mais desconcertantes, das imagens mais surpreendentes, muitas das
quais se aninharam em suas canções de amor e ciúmes, de intriga e erro, de
solidão e saudade. Boêmio singular, pouco bebia. " Meu negócio é papo ",
dizia, com o cigarro permanentemente pendurado nos lábios.
    Fazia ponto onde fosse farta a conversa fiada -- no Café Nice, na
leiteria Nevada, nos bancos da Cinelândia, no Assirius, no Lamas e nos
cabarés - e aceita sem graves retalições a sua incontrolável maledicência. Em
caso de extrema nescessidade, sacava da cintura um punhal, ainda que só para
assustar. Romântico singular o Orestes Barbosa, lírico e enfezado, passarinho
e gavião.
    "Foi o farol da nossa geração ", reconhece Nássara 82, seu fraternal
companheiro de boemia e mais frequente caricaturista. "Foi acima de tudo uma
figura contraditória, a mais fascinante que eu já conheci", diz Carlos
Didier, 39, ora ocupado com a missão de escrever uma biografia de Orestes.
Paixão nascida quando ele e João Máximo
pesquisavam a vida de Noel Rosa, (........), tamnha força ela adquiriu que
Didier acabou desistindo de mergulhar no passado do seu ídolo de
adolescência, Vinícius de Moraes.De algum modo sentiu-se recompensado, pois
Orestes foi o Vinícius dos anos 20 , 30 e 40.
    "Um Vinícius muito mais radical", salienta Didier, lembrando que, ao
contrário do bardo da bossa nova, Orestes nunca mais voltou a poesia depois
de abraçar o samba e a canção.
    Muita gente se chocou, principalmente os parnasianos, quando o promissor
poeta elogiado por Hermes Fontes, editado por Monteiro Lobato, prefaciado por
Medeiros e Albuquerque e perfilhado pelo irascível Agripino Grieco trocou
para sempre a lírica dos salões pela lírica das calçadas e dos botequins. Mas
o espírito de Orestes nada tinha a ver com o dos tempos em que só de fraque
se ia aos cabarés, onde o máximo eram os tangos de Ernesto Nazaré. A poesia,
para ele, só fazia sentido se calasse fundo no coração do homem da rua.
    Teria a sua carreira tomado um rumo diverso caso tivesse ocupado a
cadeira 26 da Academia
Brasileira de Letras? Talvez sim, talvez não. A perda da eleição para a vaga
deixada, em 1921,
por Paulo Barreto (João do Rio) foi uma das experiências mais traumáticas de
sua vida. Durante
os nove anos que separam a sua barração do chá das quintas de sua primeira
incursão na música
popular ("Bangalô", composto de parceria com Oswaldo Santiago), Orestes
dedicou-se quase que integralmente
ao jornalismo. Iniciado no ofício em 1912, com a ajuda de ninguém menos que
Ruy Barbosa, passou por
quase todas as redações cariocas.
    Começou como revisor ( e já nas primeiras reportagens, "apud" Nelson
Rodrigues, revelou-se um
autêntico Balzac), derivou para a crônica e, por culpa de sua imbatível
irreverência, comprou brigas homéricas.
Chegou a ser preso, acusado de injuriar o Grêmio Euclides da Cunha ( que na
verdade explorava as obras do
patrono sem dar um tostão a viúva), aproveitando o ensejo para escrever um
livro, "Na Prisão".
    À música rendeu-se por inteiro, por quese toda a década de 30. Quando ela
acabou, a canção romântica
já era outra coisa, suspirando sem pieguice e invocando objetos nunca dantes
ventilados, como tapete, telefone,
rádio e anúncios luminosos. Até o sorriso e o pranto ficaram mais
inteligentes depois que Orestes transformou
a lágrima em "pérola nublada", a saudade em "círio aceso sem altar", a lua em
"hóstia de mágoas" e
"clichê dourado impresso em papel azul".
    Com Noel fez quatro parcerias, duas inesquecíveis: "Positivismo" e
"Habeas Corpus". Mais numerosas
foram suas dobradinhas com Francisco Alves, que só não foi seu maior
intérprete porque Silvio Caldas se
encaixou à perfeição no papel de alter ego do compositor. E não apenas por
causa de"Chão de estrelas".
   Por falar na obra-prima de Orestes, é mesmo verdade que Manoel Bandeira
considerava o verso " tu pisavas
nos astros distaída" o mais bonito da língua portuguesa ( e dizia "se ralar"
de inveja de Orestes). Assim como
é verdade que até entre os críticos de artes plásticas Orestes - "o
cenógrafo do samba", segundo Mário Lago-
ampliou o seu círculo de entusiastas.
    Sempre de terno branco, falava muito dos outros, quase nada de si
próprio. Abria-se, sibilinamente, em
alguns versos. Nos de Égide por exemplo: "Nasci triste, nasci extravagante/ e
extravagante vou vivendo/ com
essa tristeza de judeu errante/ ninguém me entendeu / eu mesmo não me
entendo".
    Sabe-se que torcia pelo Botafogo, que não gostava de Carmen Miranda, que
não aceitava qualquer batata
frita e que até deu vexame em público com seus rompantes nacionalistas.
        Ao contrário da maioria dos boêmios, não fazia o gênero mulherengo.
Varava as madrugadas longe de
casa, mas ninguém jamais o viu pulando a cerca. E no entanto, como era de
praxe no gênero musical que
revolucionou, mulheres amadas e perdidas faziam ponto em quase todas as suas
canções aflitas. Algumas tinham
nome: Abigail ("linda rima em cima das seis letras do Brasil"), Olga, Ivone,
Alice, Isaura, Judite, Maria Lúcia
(que o leva a procurar canções em fios telegráficos transformados em pautas
musicais pelas estrelas). Outras
merecem o anonimato. Todas faziam dele gato e sapato - e depois o rifavam,
deixando o telefone dele mudo e
o delas em comunicação.
    Francisco Alves teria dito ao também jornalista e compositor David Nasser
que todas as mulheres brindadas
com uma canção representavam uma só, a única que ele teria amado - sem ser
correspondido. Sua identidade
se é que de fato ela existiu, permanece um mistério. Um dos muitos que
desafiam a pesquisa de Carlos Didier,
que poderia aproveitar para nos revelar quem diabos foi Constâncio Alves, o
sujeito que venceu Orestes na
eleição para a Academia.

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