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Matutos no choro carioca (JB Online)

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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Autor: Sonia Palhares Marinho (soniapalhares_at_hotmail.com)
Data: Dom 12 Out 2003 - 14:54:10 EST

http://jbonline.terra.com.br/jb/papel/cadernob/2003/10/11/jorcab20031011001.html

Matutos no choro carioca

Depois de anos viajando todas as semanas para o Rio para estudar choro,
grupo de músicos da cidade de Cordeiro ganha elogios da família Carrilho,
grava disco e participa de novo CD da Biscoito Fino

Cláudia Amorim

Foto: Lucas Van de Beuque

Os integrantes do grupo 'Os Matutos' e o professor e flautista Álvaro
Carrilho se encontram aos sábados para estudar choro

Parece até fábula a história de um grupo de músicos que viaja todo sábado,
quatro horas de ônibus, de Cordeiro, no interior do Rio de Janeiro, até a
capital do Estado para estudar choro. O enredo começou há três anos com o
flautista e funcionário da Cedae Tadeu Santinho, de 37 anos, que, para
economizar o valor da passagem do ônibus intermunicipal direto, pegava
quatro conduções para vir e outras quatro para voltar para casa (o que
rendia, no fim das contas, uma poupança de R$ 10). De lanche, só o que o
orçamento permitia: dois cafezinhos. No último ano, juntaram-se a Tadeu
outros oito integrantes - de um total de 50 membros - da sociedade civil a
que ele pertence e que tem no nome de batismo outro ingrediente com cara de
fábula: a Sociedade Musical Fraternidade Cordeirense. Hoje, os nove músicos,
que formaram um grupo de choro, gravam um disco. O nome escolhido para o
noneto está à altura da fábula dos rapazes do interior: Os Matutos.

É isso, os músicos da cidade serrana de Cordeiro são matutos, e com muito
orgulho. O elogiado trombonista da trupe, por exemplo, Everson Moraes, de 16
anos, e o irmão Aquiles, de 13, que toca trompete e é considerado pelo
professor e flautista Álvaro Carrilho ''um gênio da música'', até pouco
tempo moravam na Zona Rural de Cordeiro, a 22 quilômetros ''de estrada de
chão'' do centro da cidadezinha.

- Lá na roça, só tinha luz e água e olhe lá, e não tinha como estudar, então
nos mudamos para a cidade - conta Everson, que incluiu na pesada rotina dos
Matutos (ensaios às segundas e sextas com o grupo, às quintas com a banda da
cidade e gravação do CD às quartas, além das aulas de sábado) o ensino de
música em comunidades carentes às terças.

De casa nova construída pelo pai pedreiro e morando mais perto do trabalho
da mãe, servente de escola, os meninos não têm telefone em casa, mas uma
maior intimidade com a tecnologia vai se dando pelo caminho da música. Entre
um patrocínio e outro, eles alugaram um estúdio para gravar o disco, baseado
numa seleção de composições inéditas garimpadas em pesquisas pelas fazendas
da região. São maxixes, polcas - como o Jingle do formicida (Viva o
formicida Guanabara!), de 1888 - e choros de ''compositores da terra'', como
explicam. As gravações já estão em fase final. O CD permanece agora em
compasso de espera por um patrocínio que permita os gastos com prensagem,
cópias, capas. Mas os Matutos acreditam que o trabalho saia ainda este ano.

Em novembro, será lançado outro CD em que os Matutos tocam: Ao Jacob, seus
bandolins (Biscoito Fino), desta vez ao lado de bambas como Altamiro
Carrilho, Yamandu Costa, Aldir Blanc e outros nomes consagrados da MPB. O
disco, com direção artística de Hermínio Bello de Carvalho, foi gravado em
apresentação na Sala Cecília Meireles no dia 9 de dezembro do ano passado,
quando os Matutos se apresentaram junto com os outros alunos da oficina de
choro que o Instituto Jacob do Bandolim e o Instituto de Cultura Musical do
Rio de Janeiro mantêm na Escola de Música da UFRJ - e que deu origem ao
projeto Escola Portátil de Música, em parceria com o Sesc.

Assim como aconteceu com a maioria dos músicos de Cordeiro, o primeiro
contato, que se deu há quatro anos, de Everson e Aquiles com os instrumentos
(no caso deles, doados pela Funarte) foi na Sociedade Musical Fraternidade
Cordeirense, a banda da cidade.

- Foi um tio que falou para a gente lá na roça sobre a banda. Eu não sabia
nem o que era, não tinha idéia. Fui conhecer e falei: ''opa, é isso? É isso
mesmo que eu quero'' - narra Everson, que, como o irmão, pretende ganhar a
vida como músico profissional.

A julgar pelos elogios que costumam receber, talento não falta.

- Os dois são fora de série. Quando o Altamiro [o flautista Altamiro
Carrilho, irmão de Álvaro]conheceu o Aquiles, disse: ''esse menino é um
gênio. Nunca vi alguém tocar assim''. Ele é mesmo fantástico, tem um ouvido
incrível, lê partitura em dó e transporta para mi bemol, um negócio de louco
- diz Álvaro Carrilho, que dá aulas de sopro na oficina de choro que os
Matutos freqüentam, coordenada por seu filho, o violonista Maurício
Carrilho.

Everson e Aquiles surpreenderam Álvaro não só tocando, mas também compondo.

- Compus as duas primeiras partes de Choro da oficina e deixei que eles
fizessem a terceira. Na semana seguinte, eles trouxeram pronta. Ficou ótimo.

A exaltação não fica restrita aos irmãos Moraes. Os gêmeos Michael Júlio e
Marlon Júlio, de 14 anos, também se revelaram compositores. Os dois fizeram
uma música-homenagem digna de fábula: Seu Álvaro em Cordeiro.

- As composições são ótimas, perfeitas. Ficamos impressionados.

Mas a boa impressão causada pelos Matutos não pára em Everson, Aquiles,
Michael, Marlon, que, como os outros Matutos, acordam aos sábados às 4h30 da
madrugada para embarcar num ônibus cedido pela prefeitura de Cordeiro rumo à
Lapa, onde fica a Escola de Música.

- Todos os integrantes do grupo têm o dom musical, o que é um mérito. Mas a
maior virtude é a força de vontade. Eles saem de Cordeiro às 5h da manhã aos
sábados para estudar. É o entusiasmo e a gana de ser músico. Fiz essa viagem
e passei a dar mais valor ainda, é muito cansativo - sublinha Álvaro, que
vai ser homenageado com o título de cidadão cordeirense (parece ou não
parece um conto?).

O sacrifício não é suficiente para desanimar os Matutos (na sexta-feira, dia
4, por exemplo, véspera do dia de madrugar para vir à aula, eles só chegaram
à meia-noite e meia em Cordeiro, depois de uma apresentação em Friburgo).

- Vale a pena - diz Marcos Tadeu, de 15 anos, que toca percussão há dois
anos e volta e meia tem que sair às pressas da cama quando o ônibus que traz
o grupo passa para pegá-lo.

- É que às vezes o relógio não desperta - explica.

Lucas Oliveira de Souza, de 13 anos - desde os 10 no cavaquinho - concorda.

- Eu sempre fui interessado em cavaquinho, mas meu pai não acreditava. Aí
ele me deu um. E agora está muito orgulhoso, orgulhoso demais.

O pai de Lucas, policial, já foi músico. Tocava sax.

Magno Júlio, de 16 anos - desde os 11 na banda de Cordeiro -, irmão dos
gêmeos compositores, trocou a dedicação exclusiva ao esporte pela vida que
leva hoje.

- Fiquei mais tranqüilo, parei de ficar muito na rua. Antes, era só esporte.
Agora, divido o tempo também com a música - conta o menino, que, dizem os
amigos, além de bom na percussão, é exímio jogador de basquete.

O nono matuto é o violonista Paulo Newton, de 43 anos, professor de música
Sociedade Musical Fraternidade Cordeirense. Além dos Matutos, outros 18
integrantes da banda da cidade são bolsistas da oficina da Escola de Música.
E em rodas de choro aos domingos em Cordeiro e eventos espalhados pela
região, a música vai se propagando.

- A gente está fazendo uma revolução na cidade. Estamos salvando todo mundo
do pagode - anima-se Santinho, descrevendo o que é para ele o final feliz de
uma fábula.

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